<
>

'Mãe do ano', ativista quer que vídeo do filho em skate adaptado seja provocação: 'Por que projetos assim são a exceção?'

Ela foi chamada de "mãe do ano" nas redes sociais, e a cena dela com o filho João Vicente, 7, andando em um skate adaptado, rodou o mundo.

"Mandaram mensagem me dizendo que o vídeo passou até na TV da Indonésia", disse ao ESPN.com.br, a ativista Lau Patrón.

Mas, no fundo, o que ela queria era ser chamada apenas de "mãe". Nem mesmo o termo "atípica", a denominação atualmente considerada mais correta para se referir a mães, pais e crianças portadoras de alguma deficiência física ou cognitiva, a agrada inteiramente.

Não que ela queira "curar" João. O que ela quer é que a pessoa com deficiência seja vista como uma pessoa. Apenas "pessoa". Sem epítetos e apostos.

E, para isso, o esporte tem um papel muito importante.

"Porque o esporte é o lugar em que as diferenças podem ser relativizadas", explica.

PARAQUEDAS

João nasceu como uma criança típica. Mas, quando tinha 1 ano e 8 meses, seu corpo colapsou "do nada", conta a mãe.

"Ele ficou 71 dias internado, e descobrimos que ele tinha uma rara síndrome autoimune chamada SHUa (Síndrome Hemolítico Urêmica Atípica)", explica ela. João sofreu um AVC grave em decorrência da crise e ficou com paralisia cerebral.

(A história de João no hospital tornou-se o livro 71 leões)

A doença afeta a camada interna dos vasos sanguíneos e, com isso, traz repercussões para boa parte do organismo. Os rins são os mais afetados, mas complicações neurológicas, gastrointestinais e cardíacas são comuns, também.

"Eu caí de paraquedas. Não tinha qualquer vivência com pessoas com deficiência. A sociedade me disse que por muito tempo que essas pessoas não existiam", diz ela. Foi só aí que ela começou a descobrir as dificuldades.

"O mundo é que é deficiente", afirma ela. "Ideias, lugares, ferramentas não são pensadas para um grupo de indivíduos que reúne 24% da população", afirma. Esse é o percentual de pessoas que possui algum tipo de deficiência.

"Estamos falando, então, de 1 bilhão de pessoas", diz ela. "É a maior minoria do mundo."

SKATE ADAPTADO

João é apaixonado por esporte, em especial, skate.

"Quando eu o levava a parques, desde muito pequeno, ele apontava para pessoas de skate. Tentamos comprar triciclos para ele, levar em pistas. Mas não dava certo. Ele queria andar de skate", conta Lau.

Quem realizou o sonho de João foi o pessoal do projeto Skate Anima, do fisioterapeuta Stevan Pinto e do psicólogo Daniel Paniagua, ambos skatistas. Eles que criaram o projeto para realizar o sonho de uma paciente e não pararam mais.

"O slogan do projeto é: 'skate como evidência do potencial humano'. Eles atendem crianças com diversos tipos de deficiência e encontram as melhores soluções para que cada uma delas possa andar de skate", conta Lau.

Especificamente, o skate de João Vicente foi criado por Ricardo Oliveira, skatista e pai atípico, que criou essa estrutura para que a filha dele que tem AME (Atrofia Muscular Espinhal) pudesse andar com ele.

"A Skate Anima realizou uma campeonato de skate inclusivo, com crianças típicas e atípicas em fevereiro. Foi muito legal", conta ela.

DIFICULDADES

Além de skate, João gosta de basquete e de esportes de água.

Mas Laura, que mora em Porto Alegre, tem dificuldade para achar, em sua cidade, projetos em que possa matricular o filho.

"Canoagem, por exemplo, seria ótimo, porque ele tem muita força nos braços. Mas não tem por aqui", revela ela.

Algo que Laura não quer, nem tolera, porém, é o preconceito que, no caso específico de pessoas com deficiência, se chama "capacitismo".

"Ele não é coitadinho", afirma. "Nós somos muito felizes, a vida é muito maravilhosa e tenho muito orgulho de quem ele é. João é um menino alegre", diz a mãe.

"Eu acho que o vídeo dele, andando de skate, sentindo-se livre, retrata muito bem isso", diz Lau. "Talvez, seja isso o que tenha tocado tanto as pessoas, perceber que as pessoas atípicas podem ser felizes. Não é isso que a sociedade espera da pessoa com deficiência".

"Espero que toda essa exposição do vídeo possa servir ao menos para que a gente se questione, que vire um a provocação. Por que projetos como esse, que possibilitaram ao João andar de skate, são exceção?", finaliza.