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Alisson: a história do garoto que levava luvas na mochila e hoje é o melhor goleiro do mundo

Novo Hamburgo ficou conhecida historicamente como a capital nacional dos calçados, por conta da atividade econômica da cidade que foi emancipada em 1927.

Porém, hoje são as luvas que levam o nome da cidade ao mundo. Ao topo do mundo.

A cerca de uma hora de carro de Porto Alegre, o município de menos de 250 mil habitantes viu um deles ganhar a Europa e usar a camisa número 1 da seleção mais vezes campeã do mundo.

“O Alisson sempre trazia a luva na mochila. Aquelas luvinhas dele para jogar futebol estavam sempre ali. Ele não esquecia, podia esquecer outra coisa, mas a luva não”, relembra Rosana Risbacik, professora aposentada que deu aula ao goleiro do Liverpool quando este tinha 7 anos de idade, na Escola Municipal Castelo Branco.

No ano seguinte, o colocar a luva virou algo mais sério. Alisson entrou na escolinha do Internacional e de lá sairia só aos 23, como goleiro da seleção, para defender a Roma.

“Ele sempre respirou futebol”, conta o zagueiro Gustavo Rambo, que atuou com o arqueiro entre os 13 e os 20 anos de idade.

“Foi uma turma, não sei se por ele..., nunca jogaram tanto futebol quanto eles jogaram no jardim”, diz a professora aposentada Sandra Finken, que conviveu com o Alisson de 5 anos de idade, enquanto revira fotos antigas. Uma delas mostra o menino fantasiado de ‘Super Homem’.

O ‘Super Alisson’ viraria herói anos mais tarde... ao menos para os torcedores do Liverpool e para Novo Hamburgo. O goleiro foi decisivo na vitória sobre o Tottenham na final da Uefa Champions League e inclusive ganhou os parabéns da prefeitura de sua cidade. Tal desempenho o levou ser eleito o melhor goleiro do mundo pela Fifa.

Antes da glória no principal torneio de clubes, o ainda adolescente já havia ajudado o Sport Club Americano, de Novo Hamburgo, a ganhar um torneio importante em sua categoria, o Encosta da Serra. “Mostrou o pedigree”, relembra Clovis Schuch, o Tuca, que é presidente do clube.

O ano era 2005, e o Alisson de 12, 13 anos só jogou lá porque não havia conflito com os compromissos pelo Inter. “Os treinos eram feitos para que se adequassem ao horário dele”.

“Aquele é meu filho. É goleiro por causa do Alisson”, declara um pai que observa o treino do Americano no dia em que a reportagem do ESPN.com.br visitou o local.

Desde pequeno, Alisson viu o esforço ser premiado com o sucesso. Esse é o discurso de outra pessoa impactante na formação do goleiro.

“Se não fosse tanta determinação ao futebol, acho que teria escolhido outra profissão e teria se dado bem, não era o aluno que tirava notas altíssimas, mas era um com o perfil para ter sucesso profissional no que fizesse”, conta Maristela Adams, que reprovou Alisson na oitava série em física e química. O motivo? As faltas... e o sono.

A rotina de treinos e jogos pelo Internacional era puxada demais para o adolescente. “Ele dormia em todas as minhas aulas, porque eram nos primeiros períodos. Eu entendo, a paixão dele pelo futebol era muito maior que a paixão por qualquer disciplina”, afirma a professora da Escola Estadual João Ribeiro, que leva um grafitti do goleiro em uma de suas paredes.

A imagem do goleiro está lá para inspirar quem senta-se nas mesmas carteiras que um dia foram do atual titular da seleção brasileira.

A inspiração, aliás, vai além. A professora que um dia deu aula a Alisson vê o filho querer seguir os passos do jogador.

“Ele é conhecido como mini Alisson, porque é parecido”, aponta Renata Borth, que deu aula de geografia ao atleta profissional e tem o filho Gustavo jogando nas categorias de base do Novo Hamburgo. “Meu filho diz que vai ser igual ao goleiro Alisson”.

Um dia o garoto que se inspirava em nomes como Gianluigi Buffon, Dida e Júlio César, Alisson virou o modelo para outros tantos jovens. E sem tirar os pés do chão, segundo Gustavo Rambo.

“A simplicidade, a humildade dele, é uma coisa impressionante. Todo mundo que conhece o Alisson vê isso. Ele é a mesma pessoa”, declara o zagueiro, que hoje está à procura de um novo clube após a participação do Anapolina na Série D do Campeonato Brasileiro.

O contato dos dois é diário e próximo, a ponto de o defensor ter ido à maternidade após o nascimento do segundo filho de Alisson, que ocorreu no dia da estreia do Brasil na Copa América.

“Ele é tão tranquilo que às vezes parece que ele não tem noção do quanto ele é, da importância que tem”, recorda o amigo, que seria o padrinho de casamento de Alisson e Natalia em 2015. Seria.

“Ele me entregou o convite, mas não tinha data definida, não sabia como ia ficar a situação no Inter. Eu estava jogando no Rio de Janeiro, no Bonsucesso. Um dia, a Natália me mandou mensagem: ‘Tu estás sabendo o dia do casamento, né?’ E e eu falei: ‘Não, ele me fez o convite, mas dia eu não sei’. A Natália respondeu: ‘Eu suspeitei, porque vi o convite aqui. E o casamento vai ser amanhã.’”

Gustavo não teve como chegar a tempo e acabou não indo à cerimônia, mas oportunidades nunca faltam para assar uma carne e tocar violão com Alisson, o mesmo amigo de sempre.

Matéria publicada inicialmente em 25 de junho de 2019