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Caio, do Al Ain, virou algoz do River Plate após dispensa do São Paulo e ir ao Japão estudar

O Al Ain eliminou o River Plate e está na final do Mundial de Clubes. Um dos responsáveis por isso foi o atacante Caio Lucas, que balançou as redes da equipe argentina no empate por 2 a 2 e levou a decisão para os pênaltis, que foi vencida pelo time dos Emirados Árabes.

"Foi o gol mais importante de toda a minha carreira, pela importância do jogo e pelo jeito que foi, tomamos a virada e nosso time conseguiu mostrar poder de reação para ir em busca do resultado", disse.

Agora, o Al Ain espera o vencedor de Kashima Antlers e Real Madrid para a decisão. Caso a equipe japonesa passe de fase, Caio irá reeencontrar o time no qual se profissionalizou depois de passar por uma desilusão no São Paulo.

"Nós fizemos história, ninguém acreditava na nossa equipe e nós fomos lá e eliminamos o campeão da Libertadores. Sabíamos que seria um jogo duro, com muita dificuldade, mas nos portamos bem, jogamos como deveríamos jogar e graças a Deus conquistamos essa vaga para a final", relatou.

O brasileiro começou na escolinha do América de Araçatuba, aos 8 anos. Após ser aprovado nas categorias de base do clube do Morumbi, foi colega de Ademílson, João Schmidt, Rodrigo Caio e Lucas Moura.

Depois de morar seis anos em Cotia, o adolescente foi mandado embora da equipe sem maiores explicações.

"Falavam desde o começo que não tinha tamanho para ser jogador. Eles arrumaram um motivo para me dispensar. Eu tenho dentro de mim que foi uma grande passagem e aprendi muito por lá", disse Caio, ao ESPN.com.br, em 2017.

Abalado pela saída do clube tricolor, Caio tentou fazer testes em Santos e Palmeiras, mas sem sucesso. "Quando ia jogar em algum lugar não ia bem. Eu tinha dado todo meu material de futebol embora para um amigo. Ia começar a trabalhar com alguma outra coisa", recordou.

Estudante no Japão

A insistência de seus pais fez com que o garoto tentasse uma última vez. Ele pegou sua chuteira de volta e foi fazer um teste em Birigui, onde um time do Colégio Internacional de Chiba, do Japão, estava passando pelo Brasil.

"Fizemos um amistoso contra eles e fui muito bem por cinco minutos. Com dois toques na bola, os japoneses já me quiseram (risos)", garantiu.

Caio aceitou o convite para estudar e jogar futebol na "Terra do Sol Nascente".

"Estava com quase 17 anos e foi bem difícil no começo. Não sabia falar nada e fui com um amigo chamado Breno, que está jogando hoje no Kashima Antlers. Ele jogava comigo na escola e fomos juntos", afirmou.

"No começo só falávamos entre nós. Quando a japonesada falava com a gente só dávamos risada (risos). Com muita força de vontade nós superamos. Íamos para escola e sempre anotávamos uma palavra nova que aprendíamos. Com sete meses já me virava", explicou.

Caio se surpreendeu com a rigidez e o excesso de regras das escolas japonesas.

"Quando passava pelo professor precisava abaixar a cabeça em sinal de respeito, incluindo os alunos mais velhos. Os professores são muito rigorosos, eles não toleram atrasos de jeito nenhum. Bem diferente do Brasil", comparou.

"Os alunos lavam o próprio banheiro da escola em esquema de revezamento. Quando chegava a minha vez eu dava uma escapada com a malandragem brasileira (risos). Quando não tinha jeito eu jogava uma água lá, mas não esfregava (risos)", salientou.

Além disso, o jovem demorou em se adaptar à culinária local. "Você vê aqueles peixes crus na sua frente e outras coisas que parece que vão se mexer (risos). Eu só comia arroz com ketchup e maionese (risos). Isso que me salvava quando não tinha uma comida que gostava. Depois, eu aprendi a comer", disse.

As diferenças culturais também trouxeram valiosas lições ao brasileiro. "Aprendi a dar mais valor aos meus pais, a cultura japonesa valoriza isso. Até porque ficava longe deles e tive que crescer muito como ser humano. Eu sou bem extrovertido e logo fiquei amigo de todo mundo na escola", falou.

Nós jogávamos em uma escola só de japoneses e que abriu exceção para jogarmos futebol. Era um privilégio muito grande. "Fizemos nosso melhor e levamos a escola a conseguir resultados que antes eles não tinham".

Com o grande destaque nos torneios escolares, ele foi aprovado em testes no Kashima Antlers e Verdy Tóquio. Em 2014, ele se profissionalizou sob o comando do técnico brasileiro Toninho Cerezo.

"No final das contas eu fui ao Kashima porque foi o time que Zico jogou. É muito grande e já conhecia antes mesmo de chegar ao Japão. Graças a Deus fui muito feliz. Fui eleito o jogador revelação do ano na primeira temporada", recordou.

Na equipe japonesa ele virou companheiro de time de um jogador que já brilhava com a camisa do São Paulo quando Caio ainda estava na base.

"Uma vez eu pedi para tirar uma foto com ele, que foi gente boa demais. Quando ele chegou ao Kashima eu mostrei a foto e ele ficou feliz. Eu tinha uns 13 anos e guardo isso até hoje. Tiramos outra foto para marcar o reencontro. Está vendo como Deus trabalha vida das pessoas? O mundo muda muito rápido né?", filosofou.

Em 2015, foi o artilheiro do time e conquistou a Copa do Imperador. O sucesso fez com que seu nome fosse cogitado para defender a seleção japonesa. "A diretoria do Kashima me perguntou se eu queria defender o Japão. Mas era difícil porque tinha que jogar mais um ano lá", prosseguiu.

Sheik árabe

A transferência no meio de 2016 para o Al Ain, maior clubes dos Emirados Árabes Unidos, mudou os planos do brasileiro. "É lógico que o jogador quer sempre o melhor para ele. Fiz uma boa escolha porque posso ajudar mais do que nunca minha família", disse.

Ele se tornou artilheiro do time e um dos responsáveis por levar o clube ao vice-campeonato da Champions League da Ásia do ano passado, quando o clube foi derrotado na final para os coreanos do Jeonbuk Motors. "Já ouvi muitas histórias de presentes como relógios e carros, mas agora mudou (risos), garantiu".

Após praticamente virar japonês, Caio aos poucos está se acostumando com os hábitos do novo país, incluindo as roupas típicas do local.

"Me vesti de sheik nas fotos porque estou tentando entrar na cultura e interagir com a torcida para poder dar alegria para eles. Mas é um sheik diferente porque como sou casado e vim com a minha esposa não tem essa história de harém (risos)", finalizou.