Uma das novidades do técnico Tite para o amistoso do Brasil contra El Salvador, nesta terça-feira, nos EUA, é o volante Arthur, de 22 anos. Considerado um dos atletas mais promissores do futebol brasileiro, ele encantou até mesmo Lionel Messi, seu companheiro de Barcelona e eleito cinco vezes o melhor jogador do mundo.
"Ele me surpreendeu. Não o conhecia muito, sinceramente. E, com suas devidas proporções, é verdade que tem o estilo de jogo muito parecido com o de Xavi, de querer jogar com a bola e saber que ele não vai perdê-la. É muito confiável. Tem o estilo que buscamos aqui", relatou, em entrevista na Espanha.
Nascido em Goiânia, deu seus primeiros chutes na bola no Goiás, ao lado de seu irmão, que também queria ser jogador. No entanto, apenas Arthur seguiu esse caminho.
"Nossa família tem uma fábrica de roupas femininas. Eu tenho o Paulo Henrique, que é mais velho que o Arthur. Os dois jogavam em uma escolinha e foram juntos para o Goiás, mas o Paulo parou de jogar aos 15 anos, enquanto o Arthur ficou até o final de 2010, por sete anos. Ele sempre se destacou lá, mesmo jogando na categoria acima da idade dele", contou Aílton Melo, pai do volante, em entrevista ao ESPN.com.br, em 2017.
O meio-campista foi descoberto pelo Grêmio aos 13 anos, durante um campeonato sub-15 na cidade de Londrina, no Paraná. O pai pediu apenas que o "Imortal" esperasse Arthur terminar o ano escolar em Goiânia. Aprovado, o garoto se mudou nas férias de dezembro de 2010 para Porto Alegre em busca do sonho.
O hoje jogador da seleção brasileira, porém, quase foi parar em outro time.
"O Santos entrou em contato e tinha interesse no Arthur, mas um amigo próximo conhecia a estrutura do Grêmio e disse que era muito boa. Como o Arthur era muito jovem na época e ia morar em Porto Alegre sem a família, senti segurança por indicação do meu amigo. Foi isso que acabou pesando para ele ir para o Rio Grande do Sul", revelou Aílton.
Ir tão jovem para outro Estado e ficar tão longe dos pais, porém, provou-se difícil no início para a família de Arthur. Principalmente para sua mãe, Lúcia, com quem o atleta é muito ligado.
"Ele passou as festas de fim de ano com a gente e depois foi para São Paulo jogar a Copa Votorantim com o Grêmio, e eu fui acompanhá-lo. Aí ele entrou de férias e voltou para casa comigo. Era para retornar a Porto Alegre em fevereiro, mas a mãe não queria deixar (risos), pois eles são muito apegados. Ele ficou ainda umas três semanas depois das férias", lembrou o pai.
Aílton, porém, acabou convencendo a esposa a "liberar" Arthur de volta para o Grêmio.
"Falei que a vontade dele ser jogador seria respeitada, e que ele não tinha nada a perder. Era melhor tentar, porque depois, um dia no futuro, ele poderia ficar arrependido e se remoendo por não ter tentado. O pessoal do Grêmio ligou bastante para a gente pedindo para o Arthur voltar, e no final eu falei com ela e deu tudo certo", relatou.
Como as categorias de base gremistas são conhecidas por sua força, porém, Arthur teve que suar a camisa para virar titular.
"Quando ele chegou ao Grêmio, o meio-de-campo da base era muito forte. A concorrência era complicada, mas ele sempre foi um menino muito dedicado. Com três meses, ele foi disputar um torneio e na segunda partida jogou muito bem e acabou virando titular. Em seguida, continuou atuando muito bem e se manteve como titular durante toda a base, se destacando em todas as categorias", exaltou.
Enquanto isso, Arthur tentava viver a vida de um adolescente em Porto Alegre.
"Ele morou o primeiro ano no alojamento gremista, mas aí a gente alugou um apartamento bem de frente ao Estádio Olímpico para ele. O Arthur morava sozinho e se virava: comia nos restaurantes perto de casa e levava as roupas para lavar na lavanderia. A gente seguiu morando em Goiânia e dava todo o suporte necessário, mesmo de longe. Fizemos tudo para ele ficar no Sul", contou.
Ainda assim, às vezes era necessário que Aílton fosse pessoalmente à capital do Rio Grande do Sul para tranquilizar o filho em momentos difíceis, como as lesões que quase fizeram o volante desistir da carreira de jogador.
"Ele sentiu vontade de largar tudo e ir embora depois que se lesionou e teve uma tendinite em seguida, aí demorou para recuperar. Nessa época, o Arthur ficou muito chateado e pensou em ir embora. Aí sempre que ele passava por isso eu ia para Porto Alegre dar uma ajuda e fazer o papel de pai", salientou.
Poucas chances com Felipão
Destaque na base gremista desde cedo, Arthur rapidamente despertou o interesse das seleções brasileiras inferiores. Em 2013, por exemplo, disputou o Sul-Americano sub-17 com o Brasil, ficando em 3º lugar e se classificando para o Mundial da categoria. No entanto, acabou ficando ausente da lista final do torneio.
Já em 2015, ele explodiu de vez na Copa São Paulo de Futebol Júnior, na qual o Grêmio chegou às quartas de final, sendo eliminado pelo Botafogo-SP. Logo em seguida, já foi promovido ao elenco profissional pelo técnico Luiz Felipe Scolari.
"Ele se destacou na Copinha aos 18 anos. O Felipão era o treinador e o chamou para o profissional. Ele perdeu as férias, mas foi todo animado, porque aquilo era o sonho dele. Ele começou treinando muito bem e teve algumas chances no Campeonato Gaúcho, não jogou mal. Só que depois ele foi tirado pelo treinador e nunca mais teve chances", lamentou Aílton.
Quando Felipão foi demitido, Roger Machado também não se encantou por Arthur, que, com a falta de chances, por muito pouco não trocou o Grêmio pelo São Paulo.
"Com o Roger ele ficou só treinando também. Eu perguntava aos outros jogadores como o Arthur estava, e eles me respondiam: 'Se ele tiver oportunidade e jogar como treina, não sai mais do time'. Eu fiquei cheio de esperança, mas nunca chegou a chance. Nessa época ele ficou bastante chateado, e o São Paulo tentou até tirá-lo do Grêmio, mas ele acabou ficando", revelou Aílton.
"Eles (São Paulo) me ligaram, mas no fim o Grêmio não quis se desfazer do Arthur. Até gostavam dele, mas ao mesmo tempo ninguém explicava por que ele não jogava... Nós tentamos até para ele ser emprestado, mas o Grêmio também não quis. No fim, porém, optamos por seguir em Porto Alegre e ele continuou treinando enquanto esperava uma chance", rememorou.
'Salvo' por Renato
Em 2016, apareceu o "salvador": Renato Gaúcho, que assumiu o "Imortal" em setembro. após a demissão de Roger. Ele imediatamente viu que tinha um "diamante bruto" em Arthur, e avisou que em breve ele teria uma oportunidade.
"O Renato é um cara muito brincalhão e lida bem com os jogadores. Ele incentivava o Arthur o tempo todo e falava para ele que, se seguisse treinando daquele jeito, teria uma chance em breve. Aí o garoto ficou muito mais motivado. Os outros treinadores nem falavam com ele", detonou Aílton.
E Portaluppi cumpriu sua promessa já na virada do ano.
"O Renato falou para Arthur jogar como treinava, passou muita tranquilidade e o levou para o jogo contra o Flamengo, em Brasília, pela Primeira Liga. Eu viajei para ver esse jogo e ele foi muito bem. Depois, jogou contra o América-MG, foi bem de novo e ganhou mais chances. Tudo mudou depois que o Renato chegou!", celebrou.
Com o tempo, Arthur tornou-se titular absoluto do Grêmio e destaque nos títulos da Libertadores e do Gaúcho. Com passes perfeitos e um estilo de jogo diferenciado, ele foi para o Barcelona no meio deste ano.
Além disso, encantou Tite, que o convocou algumas vezes. O volante, que ficou na lista dos suplentes para a Copa do Mundo de 2018, é uma das apostas do treinador para o futuro da seleção.
