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Como Noah Lyles, favorito dos 200m e 'desafeto' da NBA, superou asma e depressão pelo sonho de ouro(s) nas Olimpíadas

Norte-americano Noah Lyles comemora após vencer a final dos 100m masculinos BEN STANSALL/AFP via Getty Images

A final dos 200m rasos nas Olimpíadas de Paris 2024 acontece nesta quinta-feira (8), às 11h30 (de Brasília), e será palco de um dos principais atletas dos Estados Unidos na atualidade: Noah Lyles.

O polêmico corredor, que conquistou o ouro nos 100m rasos dias atrás, agora vai para a prova em que é favorito com grandes chances de conquistar a dobradinha. Mas como alguém que foi medalhista de bronze em Tóquio, há três anos, chega com tanta expectativa agora?

Para responder à pergunta, é preciso entender o contexto da vida do estadunidense fora das pistas. Apaixonado por atletismo desde criança, Lyles tinha os Jogos de Tóquio como o seu palco para mostrar ao mundo o quanto era talentoso.

Mas, na época, o velocista tratava disputas bem mais difíceis do que as das pistas. Foi diagnosticado com depressão durante a pandemia de COVID-19, época de confinamento que contribuiu para tirar a alegria, sua marca registrada. Lyles engordou e por isso não chegou ao Japão na melhor forma física. Ainda assim, acabou em terceiro lugar nos 200m rasos, sua melhor prova.

Mas como o norte-americano conseguiu superar os problemas de saúde para, agora em Paris, voltar a ser favorito e grande esperança de ouro para os Estados Unidos?

Tudo começa na infância de Lyles com sua mãe, Keisha.


Você pode pedir ao médico que me faça melhorar?

Lyles sentou-se em sua cama na calada da noite e tentou ficar em silêncio. Ele tinha apenas três anos de idade e a tosse – que havia surgido do nada semanas antes – se recusava a ir embora. Noite após noite, ele se esforçava para inspirar e expirar, mas as tosses vinham em ataques.

Em muitas noites, sua mãe entrava na ponta dos pés em seu quarto na casa deles em Gainesville, Flórida. Ela apoiava Noah e o segurava enquanto ele tentava dormir. Ficava ali por horas, preocupada.

"Ele não conseguia comer sem tossir. Não conseguia brincar", diz Keisha Caine Bishop.

Os médicos disseram a Keisha que seu filho mais velho tinha doença reativa das vias aéreas, o que significava que coisas como o pólen poderiam desencadear uma tosse. Às vezes, o chiado ficava tão forte que Keisha o levava às pressas para o pronto-socorro.

"Você pode pedir ao médico que me faça melhorar?" disse Noah a Keisha, segurando suas mãos. A mãe sorriu tristemente para seu filho. "Sim, bebê, vamos fazer o nosso melhor".

O médico responsável fez alguns exames e concluiu: Lyles tinha asma. Ele colocou Noah em um tratamento com nebulizador e o mandou para casa. Keisha pesquisou maneiras de minimizar os ataques.

Um dos principais culpados? A poeira. Ela rasgou carpetes, tirou cortinas e jogou fora todos os brinquedos de pelúcia. Comprou um purificador e pediu a um técnico que limpasse os dutos de ar. Trocou os laticínios por verduras. Fez suco de cenoura, beterraba e aipo, que passou a ser a primeira coisa que Noah tomava, sem reclamar, todas as manhãs.

Keisha educou seus três filhos em casa para que pudesse se concentrar nas necessidades de Noah.

Apesar dos esforços da mãe, Noah estava muito preso dentro de casa e precisava de um escape para sua energia ilimitada. Desenhar personagens de anime e super-heróis o ajudava a passar o tempo. O Homem-Aranha, veloz e ágil, era seu favorito.

Quando Lyles tinha sete anos, os médicos removeram suas amígdalas e adenoides para facilitar sua respiração. Quando acordou após a cirurgia, Lyles teve a melhor respiração de ar de sua vida. “Finalmente posso ir jogar basquete”. Logo, ele estava brincando de pega-pega com os amigos, que tinham dificuldade em acompanhá-lo.

Uma nova crise apareceu em 2009. Aos 12 anos, Noah acordou pela manhã com pulmões congestionados e respiração em pequenos suspiros. Foi diagnosticado com gripe suína e conectado a uma máquina de respiração por dois dias. Foram necessárias duas semanas para que parasse de tossir.

Até que

Quando Noah tinha 12 anos, ele acordou em uma manhã com os pulmões congestionados e a respiração saindo em pequenos suspiros. Keisha o levou às pressas para o hospital. Ele foi diagnosticado com gripe suína, um vírus que afetou milhões de americanos em 2009. O médico o conectou a uma máquina de respiração, enquanto Keisha ficava ao lado da cama, segurando suas mãos.

Noah ficou no hospital por dois dias. Foram necessárias duas semanas para que ele conseguisse respirar normalmente e parar de tossir.

Foi então que ele voltou a correr.

"Eu era uma criança e queria simplesmente correr pelas paredes, sabe?" disse Noah, rindo novamente. "Se eu morrer, eu morro, mas vou morrer como uma criança feliz".

Beethoven das pistas

Felicidade, para Lyles, é velocidade. Seu pai, Kevin Lyles, ganhou uma medalha de ouro como suplente no revezamento 4x400 no campeonato mundial de 1995. Sua mãe foi velocista na universidade.

Quando tinha 11 ou 12 anos, Lyles começou a correr os 100 e 200 metros em competições locais e surpreendeu as outras crianças. Alguns anos antes, ele não conseguia se imaginar correndo por diversão. Agora corria tão rápido e ganhava por tanta diferença que as provas eram quase entediantes.

Seus pais se separaram quando Lyles estava na sétima série, e Keisha se mudou com as crianças para a Virgínia, matriculando Noah e seu irmão mais novo em uma escola que tinha um programa de atletismo de destaque.

Mas a história de Noah Lyles que todo mundo conta até hoje aconteceu em uma aula de Educação Física.

O professor levou a turma para um gramado perto do campus e os separou em dois grupos. Ele pediu ao grupo de Noah que desse quatro voltas e os observou partir. Em seguida, foi até o outro grupo para dar-lhes instruções. O professor olhou para trás, para o grupo de Noah, e o viu parado no campo, com as mãos nos quadris. As outras crianças do grupo ainda estavam correndo – e nem perto de terminar o percurso. Ele se aproximou e perguntou a Noah por que ele não estava correndo. "O senhor me pediu para correr quatro voltas, e eu corri", disse Noah.

O professor não acreditou.

Ele o acusou de ter corrido apenas três. "Vou lhe mostrar novamente", disse Noah. O professor apertou o cronômetro, e Noah correu em volta do campo quatro vezes em sete minutos e 15 segundos, metade do tempo que as outras crianças estavam levando.

O professor contou ao resto da escola sobre Noah, e Michael Hughes, o treinador de atletismo, apareceu para assistir no dia seguinte. Ele ainda se lembra de seu primeiro pensamento quando viu Noah correr pela primeira vez: "É assim que o professor de música de Beethoven deve ter se sentido".

Como calouro, Noah superou quase todo mundo nas corridas de velocidade – não apenas na escola, mas em todo o estado. Mas até o segundo ano do Ensino Médio, Noah chegava exausto das corridas.

À medida que crescia e seus pulmões ficavam mais fortes, sua asma melhorava – ele não tinha mais tosse nem precisava ser levado às pressas para o pronto-socorro. Mas a asma tornava agonizante a recuperação após uma corrida. Se a corrida acontecia no fim de semana, ele geralmente faltava à escola na segunda-feira. "Ele ficava de cama por dois dias depois de uma corrida, porque isso o deixava exausto", diz Keisha.

Vendo seu filho lutar, Keisha perguntava-lhe regularmente: "O que você quer da vida? Qual é o seu propósito?". Noah simplesmente dizia: “Correr muito rápido”.

Keisha se comprometeu a fazer tudo o que pudesse para tornar o sonho de Noah viável. Ela entrou em contato com médicos e especialistas, que recomendaram um regime de vitaminas e suplementos para fortalecer os pulmões fracos do filho. Aos poucos, Noah começou a ficar mais forte e ainda mais rápido.

Quando estava no segundo ano do ensino médio, Noah representou a equipe dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos da Juventude na China e ganhou o ouro nos 200 metros. Estabeleceu um recorde pessoal de 20,71 nas semifinais e venceu a final com 20,80.

"Eu tirei a vitória dos jamaicanos. Tirei a vitória de todos os outros", disse ele após a corrida.

Quando Noah completou 16 anos, Keisha entrou em contato com Diana McNab, psicóloga esportiva, e pediu que ela trabalhasse com o filho. Ela sabia que Noah era superdotado fisicamente e queria ter certeza de que também estava mentalmente preparado. McNab morava em Denver e já havia ajudado vários atletas de alto desempenho. Um dia, McNab sugeriu uma caminhada e observou Noah colocar na mala seu inalador e verificar duas vezes se ele ainda o tinha.

Durante a caminhada, Noah ficou confuso. "Por que as pessoas fazem caminhadas?", ele se virou e perguntou a McNab. "Porque é lindo e é ao ar livre", ela respondeu. "Ah, não", disse ele, balançando a cabeça. "Correr é a única maneira".

Vou entrar para a equipe olímpica

A velocidade tornou-se a obsessão de Lyles, que criou maneiras de se destacar nos 200 metros, concentrando-se na curva. Ele se sentava com Hughes e falava sobre física: ângulos dos pés, distribuição de peso, impulso, força. Sua compreensão do corpo humano e de sua capacidade de gerar velocidade parecia inata.

Mas entender era uma coisa. Executar era outra. "Levamos muito tempo para aperfeiçoá-lo", divide o treinador.

Quando Lyles estava no último ano do ensino médio, havia aperfeiçoado a forma de inclinar os ombros na pista para manter a velocidade durante a curva e, em seguida, sair dela com um estilingue.

Bem a tempo para as provas olímpicas de pista de 2016. "Mamãe", disse Lyles pouco antes das provas. "Vou entrar para a equipe olímpica". Keisha caiu na gargalhada. "Você está no último ano do ensino médio. Não está falando de 2020?". "Não", disse Lyles. "Estou falando de 2016".

Lyles chegou à final dos 200 metros nos testes. Terminou em quarto lugar, atrás de três atletas olímpicos: Justin Gatlin, de 34 anos, LaShawn Merritt, de 30 anos, e Ameer Webb, de 25 anos, resultado que o empolgou.

“Se eu posso quase vencer adultos com 18 anos, imagine o que posso fazer com mais treinamento e crescimento". Após a corrida, Lyles se tornou profissional, assinou contrato com a Adidas e abriu mão da Universidade da Flórida.

Na mesma época, seus ataques de asma diminuíram bastante graças a suplementos, medicação e purificadores de ar. Suas dificuldades respiratórias desapareciam quando ele entrava na banheira e tomava um banho quente.

Em 2019, ganhou seu primeiro campeonato mundial e prometeu que estava apenas começando. Todos os sinais indicavam que Lyles ganharia a medalha de ouro nas Olimpíadas de Tóquio em 2020.

Ele não tinha luz em seus olhos

Keisha montou um pacote de cuidados com material de limpeza, desinfetantes, sabonetes e máscaras e o enviou para Noah logo no início da pandemia da COVID-19, em março de 2020. Ela estava morando em Maryland, e Noah treinava na Flórida.

A mãe se preocupava com as pessoas que acumulavam suprimentos nos supermercados. Mais do que isso: temia o fato de que a asma de Noah o tornava especialmente suscetível à doença.

Noah compartilhava sua preocupação e estocou máscaras. Raramente saía de seu apartamento após o fechamento do local de treinamento. Ele usava serviços de entrega de alimentos e mantimentos.

Em 25 de maio, George Floyd foi assassinado por um policial em Minneapolis, reacendendo o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam). Lyles sentou-se em seu apartamento e navegou pelo telefone, com a mente agitada pela raiva e depois pelo desespero.

Ele ligou para Keisha. "Será que estamos seguros?".

Quando as restrições de viagem foram suspensas, Keisha voou para Orlando. Mascarada, ela entrou no apartamento de Noah. Quando viu o rosto dele, seu estômago se contraiu. "Ele não tinha luz em seus olhos", diz.

Ele era um extrovertido puro e adorava conversar e compartilhar energia e ideias com as pessoas. Agora, Noah não queria fazer nada. Não queria sair de seu apartamento. Não queria interagir com as pessoas. A pandemia e o assassinato de George Floyd fizeram com que tudo parecesse terrível. Ele perdeu seu objetivo. Perdeu o ímpeto.

Keisha ligou para o terapeuta de Noah e lhe contou o que estava vendo. Juntas, elas marcaram uma consulta com um psiquiatra. Noah foi diagnosticado com depressão clínica, e lhe foi receitada medicação. Ele publicou nas mídias sociais que estava tomando antidepressivos. Queria que as pessoas que viviam com doenças mentais soubessem que não estavam sozinhas.

Ele retomou lentamente seus treinos antes da temporada de atletismo de 2021 assim que recebeu sua vacina contra a COVID-19. Os antidepressivos também começaram a fazer efeito e contribuíram para que ele ganhasse oito quilos indesejados. Mesmo assim, Noah tentou. A maioria das competições que antecederam as Olimpíadas de Tóquio aconteceram em estádios vazios.

Ele garantiu sua primeira participação nas Olimpíadas ao vencer os 200 metros em 19,74 segundos. Ainda assim, Lyles sentiu que não correu bem, e seus técnicos concordaram. Eles atribuíram o fato ao peso extra e aos antidepressivos.

Mentalmente, ele estava se sentindo melhor, então consultou sua mãe e seus médicos e decidiu parar de tomar os remédios.

Nas Olimpíadas de Tóquio, em um estádio vazio, Lyles terminou em terceiro lugar nos 200 metros, com 19,74 segundos. Ele chorou durante a entrevista após a corrida ao falar sobre sua depressão e seu sentimento de desesperança como negro americano.

Enquanto observava, Keisha se culpava pela temporada decepcionante do filho. "Eu realmente me culpo muito. Será que tomamos a decisão certa?" Noah não parou para pensar antes de responder. "Mãe, nós tomamos a decisão certa."

Campeão mundial de quê? Dos Estados Unidos?

Usain Bolt aplaudia enquanto Lyles corria pela pista na Jamaica no ano passado. O detentor do recorde mundial sorriu largamente quando Lyles fez o que sempre faz hoje em dia: venceu os 200 metros.

Lyles foi até Bolt e lhe deu um abraço entusiasmado. "Mantenha a mesma atitude, cara", disse Bolt a Lyles. "Este esporte precisa desse tipo de atitude, precisamos dessa personalidade".

Após sua decepção em Tóquio, Lyles apontou Paris como o lugar onde se tornaria um campeão olímpico. Ele começou a levantar pesos mais pesados e converteu aqueles três quilos extras em três quilos de músculos. Na pista, se concentrou em sair mais rápido dos blocos de partida.

Desde Tóquio, ganhou três medalhas de ouro individuais nos campeonatos mundiais, incluindo a dobradinha dos 100 e 200 metros em 2023. No Mundial de 2022, Lyles quebrou o recorde americano de Michael Johnson ao terminar em 19,31. É o terceiro tempo mais rápido de todos os tempos, atrás apenas de Bolt (19,19) e Yohan Blake (19,26).

Suas performances antes e depois das corridas têm sido igualmente divertidas. Ele grita para os céus quando seu nome é anunciado. Ele leva cartas de anime para a largada, pinta as unhas, usa joias e colore o cabelo em tons claros.

Nas coletivas de imprensa, é ousado, impetuoso e sem filtros. Como quando, após o Mundial de 2023, irritou o mundo dos esportes quando um repórter perguntou como o atletismo poderia aumentar sua popularidade.

"O que mais me magoa é que tenho de assistir às finais da NBA e eles têm 'campeão mundial' na cabeça", disse Lyles. "Campeão mundial de quê? Dos Estados Unidos?" O comentário viralizou. Kevin Durant escreveu "É melhor alguém ajudar esse cara", nas mídias sociais. Draymond Green escreveu: "Quando ser inteligente dá errado".

A atenção – boa e ruim – energiza Lyles. Ele sabe que os holofotes permanecem apenas enquanto ele vence na pista e gosta do trabalho. Ele chega ao ponto de planejar suas corridas com seu psicólogo esportivo antes de correr.

Lyles treinou seu corpo com força de largada para impulsionar uma velocidade máxima, segundo ele, de 41 km/h.

Lyles quer sair de Paris com quatro medalhas de ouro: nos 100, 200, revezamento 4x100 e revezamento 4x400.

Ninguém jamais conseguiu isso. Apenas nove homens desde 1904 ganharam ouro duplo nos 100 e 200 sprints individuais. Ele também quer os recordes mundiais de Bolt.

Não sou campeão olímpico. Ainda

Noah Lyles exibe seu sorriso radiante ao entrar no lounge no 10º andar do edifício Nasdaq, na Times Square, em Nova York. Ele está vestido todo de branco, com uma jaqueta Armani brilhante, calças brancas, sapatos brancos, óculos escuros brancos e pérolas que ele colocou ao longo do cabelo trançado.

Cercado por uma dúzia de cinegrafistas, Lyles coloca a língua para fora. Em seguida, tira o sorriso. Cara séria, mas depois volta a sorrir. Seu rosto se move perfeitamente com os flashes. "Vocês conseguiram o que precisavam?", ele pergunta.

Faltavam duas semanas para as provas olímpicas dos EUA e quase dois meses para os Jogos Olímpicos, onde ele parecia destinado a fazer história como o homem mais rápido do planeta. Sua jornada exigiu muito mais do que superar os adversários. Ele superou a asma, a depressão e a decepção. Finalmente, o momento é dele.

Neste dia ensolarado de junho, Lyles se afastou da pista para a pré-exibição de um no qual ele é um dos personagens principais. Lyles entra na sala de cinema, senta em uma cadeira no centro do palco e pega o microfone.

Sanya Richards-Ross, a medalhista de ouro nos 400 metros em Londres, o enche de títulos ao apresentá-lo ao público. "O rosto do atletismo". "Campeão mundial." E depois, "campeão olímpico".

Lyles balança a cabeça e o sorriso desaparece de seu rosto. Os flashes da câmera se acendem e se apagam. "Não. Não sou campeão olímpico", diz ele. "Ainda não".

"O que tenho que fazer para ser considerado o maior quando deixar este esporte", diz Lyles. É uma frase, não uma pergunta. "Ganhar um ouro olímpico. Conquistar um recorde mundial. Eu quero conseguir isso".

O ouro é nosso

Lyles desce a rampa e dá um tapa nas mãos estendidas dos fãs que se alinham na entrada da pista do Estádio Icahn. Ele está vestido com um macacão amarelo brilhante e com o cabelo adornado com pérolas para sua primeira corrida de 200 metros da temporada de 2024.

Exatamente 19,77 segundos depois da largada no Grand Prix de Nova York, ele cruza a linha de chegada. Um organizador lhe entrega um buquê de vencedor e ele o joga no ar. Uma jovem o pega, com um sorriso de orelha a orelha.

Ele caminha até as arquibancadas e pede aos fotógrafos que mudem de posição para que possam capturá-lo de um novo ângulo.

Lyles abre bem os braços e sorri. Depois, ele tira o sorriso. Rosto sério. Em seguida, ele se agacha e volta a sorrir. Os flashes se acendem e se apagam à medida que seu rosto se move perfeitamente.

Ele pega um microfone do organizador e seu sorriso radiante se alarga. Ele fala diretamente com os fãs. "O ouro", diz ele, "é nosso".

Paris, finalmente

Domingo, dia (4), Paris, e Lyles mais uma vez se prepara para correr. O peso de uma história nas costas fica leve em suas pernas. Ele está preparado. Segue seu roteiro, dispara, e corre, rápido como sempre. Na linha de chegada, olha para o lado: Oblique Seville, jamaicano, e um dos homens mais rápidos do mundo. O americano deu tudo de si e finalizou com 9,83, um grande tempo. Seu rival, entretanto, ganharia com 9,81.

Não era o fim. Noah havia somente ficado em segundo nas semifinais. Seria só mais tarde, no mesmo domingo, que ele novamente testaria seu nível contra seu rival, mas com uma medalha de ouro em jogo. Quando a corrida começou, Lyles ainda não era campeão olímpico. Mas esse fato mudaria em apenas 9,79 segundos, graças a um pescoço esticado que o colocou à frente de Seville. Frações de segundo, mas uma vitória que durará pela eternidade.

Agora, o americano busca coroar sua história com a dobradinha em sua prova favorita, onde desempenha melhor. Onde todas as horas e mais horas de estudos que teve foram colocadas. Onde aperfeiçoou nos mínimos detalhes sua técnica. A vitória, entretanto, ainda não é uma certeza. Mas para Lyles, e sua personalidade carismática, ela é certa.

(*Tradução: Vinicius Garcia)