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Olimpíadas: por que Chumbinho, do acidente a rival de Medina no surfe, já é uma das maiores histórias dos Jogos

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Filipe Toledo dá adeus às Olimpíadas, e Gabriel Medina e João Chianca vão se enfrentar nas quartas; VEJA (1:26)

Surfe participa pela segunda vez de uma edição dos Jogos Olímpicos (1:26)

“Foi uma das maiores baterias da história do surfe”. João Chianca, surfista conhecido como Chumbinho, deu show nas oitavas de finais das Olimpíadas e venceu o marroquino Ramzi Boukhiam em uma virada emocionante na última onda, com uma nota de 8,80 na manobra decisiva. Agora, ele continua seu caminho rumo à medalha contra seu compatriota, Gabriel Medina, nas quartas de final, nesta quinta-feira (1º), às 20h (horário de Brasília).

Entretanto, muito antes do seu grande apogeu vivido nas ondas de Teahupo’o, no Taiti, Chumbinho teve que protagonizar uma outra grande reviravolta em sua vida: a de subir na prancha de surfe novamente.

João é natural de Saquarema, capital brasileira do surfe, e nasceu no núcleo de uma família de atletas. Seu pai, Gustavo Chianca, é ex-surfista e seu irmão, Lucas Chianca, também é surfista de ondas grandes. Foi seu progenitor, inclusive, quem originalmente carregava o apelido que hoje pertence ao filho, uma homenagem ao personagem arteiro da animação Bacamarte e Chumbinho. Eventualmente, quando teve filhos, ‘graduou-se’ para Gustavo Chumbão, com seu primeiro se tornando Lucas Chumbo e João, o mais novo, ‘herdando’ a alcunha de Chumbinho.

Chumbinho, o mais novo, então aproveitou da bagagem de experiência da sua família e viveu uma ascensão meteórica no surfe. Em 2022, ele estreou no circuito mundial de surfe (WSL - World Surf League), mas não foi bem e chegou a ser excluído dele. Entretanto, ele conquistou uma vaga para o ano seguinte e viveu a melhor fase de sua carreira até então, sendo campeão em Portugal e figurando entre os 5 primeiros em mais quatro competições. E foi justamente esse desempenho que o ajudou a conquistar sua vaga nos Jogos Olímpicos de 2024.

Entretanto, a luta pela vaga nas Olimpíadas estava longe de ser a última da vida de Chumbinho. No dia 03 de dezembro de 2023, enquanto já se preparava para a temporada seguinte, João sofreu um grave acidente no Havaí, durante um treino de Pipeline. O brasileiro tentou surfar uma onda, mas caiu, foi arremessado pelas águas e teve que ser resgatado já desacordado, ainda preso a sua prancha. Lucas Chumbo, seu irmão, participou do resgate.

O brasileiro não lembra do acidente, nem dos dias seguintes. Começaria então a longa jornada de recuperação de Chumbinho. Entretanto, sua meta, muito antes de pensar em Olimpíadas, era subir novamente em sua prancha. João levou 14 pontos na cabeça e teve que passar por tratamento intensivo, tendo em vista que sofreu concussão, uma fratura no crânio e sangramento cerebral. No total, foram cinco meses afastado de sua prancha, do surfe e das ondas.

Passou por intensas sessões de terapia, tratamento e também treinamento, o que permitiu que ele voltasse a competir na Gold Coast do Challenger Series da WSL, etapa que dá acesso à divisão de elite mundial e que ocorreu no final de abril. Com essa nova experiência nas águas, e mais de sete meses depois do acidente, ele pode estrear nas Olimpíadas.

“O fato dele estar em pé na prancha para mim já é uma história gigantesca”, disse Guilherme Sacco, jornalista que faz parte do time ESPN na França para a cobertura das Olimpíadas, no PódioCast ESPN, videocast diário no YouTube durante os Jogos de 2024. “O fato de ele estar em pé na prancha você já fala: 'pô, não era nem para ele estar aí'. E ele fazer o que ele fez hoje já é... Uma pena que é ele contra o Medina na próxima”, completa.

“Ontem rolou um vídeo dele fazendo fisioterapia. Andando, parando no corrimão, fazendo exercício, coisa grande cara. Que história”, diz Fernando Nardini.

E essa tal história, de fato, só viria a crescer, como pontuam os comentaristas do programa.

“O Chumbinho, que testou nosso coração hoje”, brinca Guilherme Sacco, que continua: “Ele começou muito bem, parecia que estava com a bateria encaminhada, faltavam ali uns 12 minutos, e ele fez uma onda espetacular. Aí o marroquino foi e fez uma onda também espetacular em seguida. Aí o brasileiro tirou 9,10, parecia que estava ganho, só que deram 9,70 para o Marroquino”.

“O Boukhiam, só para dar uma noção, a penúltima onda dele, que é quando ele vira, ele tira 9,70, e teve um árbitro que deu 10 para ele, sabe? Então assim, realmente foi uma onda com uma disputa bizarramente acirrada”, complementa Antônio Chamorro, também comentarista.

“E aí faltavam 8 minutos e o Chumbinho precisava de um 8 baixo. Aí parecia que não ia, mas o mar começou a colaborar. Veio uma onda espetacular, o Chumbinho surfou uma onda espetacular e virou faltando dois minutos. Aí o marroquino ainda tentou uma virada no final, mas entrou no desespero, caiu, e o Brasil avançou”, finaliza Guilherme.

“Realmente, foi um negócio absurdo”, concorda Antônio. “As últimas quatro ondas, duas de cada, foram espetaculares. E o Chumbinho mostra que, finalmente, depois de todo o problema que aconteceu, do acidente, da falta de informações, ninguém sabia se ele ia disputar, como ia estar, mostrou que está aí. Que está pronto”, conclui.

“Para mim, de verdade, foi uma das maiores baterias da história do surfe, não só da Olimpíada”, pontua Guilherme Sacco. E a análise não é para menos, já que o brasileiro terminou a prova com o total de 18,10, somando as notas de 9,30 e 8,80, que foram necessárias para superar o bom desempenho de Ramzi Boukhiam, que somou 17,80, levando em conta as notas de 9,70 e 8,10.

“E a última onda do Chumbinho foi 8,80, ele precisava, como o Guilherme falou, de um 8 mais baixo, mas ele falou: Tá bom, vai, vamos retribuir aqui”, analisa Antônio Chamorro.

E foi essa retribuição que levou o brasileiro às quartas de final, onde enfrenta Gabriel Medina, tricampeão mundial na modalidade e que conquistou uma nota 9,90 na última fase, a maior da história das Olimpíadas. Além disso, ele surfa “em casa”, pois é especialista nas ondas de Teahupo’o, do Taiti. Chumbinho, por sua vez, segue no caminho de uma possível medalha Olímpica.

“Se o Chumbinho medalhar, pode mandar o roteiro para Hollywood também”, diz Nardini, que continua: “Se ele medalhar, pode preparar o documentário lindo, mesmo se não medalhar, pela bateria que ele fez hoje, já pode botar no documentário já”. “Já teve um mini doc de um dos patrocinadores dele, que foi ali só 15 minutos. Agora vai ser aquele longa metragem”, responde Antônio.

“Uma pena que é ele contra o Medina na próxima. E a gente não vai torcer para nenhum dos dois, quem passar, passou, mas essa poderia ser a final”, pontua Guilherme Sacco.

“Mas, para mim, eu acho que se ele medalhar vai ser uma das maiores histórias da Olimpíada. O fato dele estar em pé na prancha, para mim, já é uma história gigantesca”, conclui. E é nesse ritmo que João Chianca, o Chumbinho, segue fazendo história. Seja para documentários ou para o quadro de medalhas e o livro de recordes das Olimpíadas.