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Aposentadoria ou 12ª Copa? José Silvério abre o jogo, conta infância sem pai e como quase morreu no Mundial da Argentina

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Por onde anda José Silvério? Aos 76 anos, locutor passa o tempo com a mesma diversão que o fez ser descoberto pelo rádio (1:10)

Especial "José Silvério, o Menino Chato" é o segundo documentário da série da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil. Disponível no StarPlus e, em 26 de julho, na ESPN (1:10)

Em julho, os canais ESPN apresentam cinco documentários com os “big five” da história do rádio brasileiro. São eles: Milton Neves, José Silvério, Pedro Ernesto Denardin, Osmar Santos e José Carlos Araújo, o Garotinho.


Não foi na primeira ligação que José Silvério, 76, se convenceu sobre a ideia de ter um documentário. Foi preciso algumas conversas até que ele se sentisse à vontade para gravar “José Silvério, o Menino Chato”, o segundo da série especial da ESPN em homenagem aos 100 anos de rádio no Brasil.

Fora do ar após 60 anos de carreira, ele recebeu a equipe em Lavras, cidade mineira a 371 km de São Paulo, e também em Barueri, na região metropolitana da capital paulista, para gravar as entrevistas.

A imagem que muitos têm dele, de um homem fechado, impaciente e até mal humorado, não corresponde. Percebemos isso já nos minutos iniciais do primeiro de três encontros que tivemos durante a gravação do documentário. Logo de cara, uma entrevista de quase três horas.

Vimos um José Silvério educado, gentil e sério, mas que se permite brincar e que se emocionou. Nos impressionou a simplicidade dele, que está longe de se achar uma celebridade.

Certamente ajudou na aproximação termos visitado primeiro a Rádio Cultura de Lavras, onde Silvério começou a carreira como locutor em 1963, e depois o advogado Itamar Mazochi, o homem que sugeriu a contratação do amigo à rádio após vê-lo narrar jogos de futebol de botão.

O jogo de botão também ajudou. Durante o primeiro dia de gravação, ao ouvir o depoimento do locutor sobre a diversão de infância, saímos pela cidade em busca de uma loja para comprar o “Estrelão” --para os mais novos, é como se chamava a mesa de futebol de botão, da Estrela.

Com ela dentro de casa, o veterano voltou a ser um garoto, se divertindo ao narrar um jogo entre a Atlética e a Olímpica, clubes que já foram fortes em Lavras. Também narrou um jogo do Cruzeiro de Tostão, para muitos amigos o verdadeiro clube do coração de Silvério (algo que ele revela, se sim ou se não, no documentário).

Ele também se emocionou com um passeio pelo velho estádio de Lavras, onde narrou apenas seis jogos pela Rádio Cultura e já decolou na profissão. Andando pelo gramado, José Silvério voltou a soltar a voz, em cenas que emocionam e arrepiam ao mesmo tempo.

Volta ao berço

Por que “Menino Chato”? A explicação para o nome do documentário tem a ver com uma das surpresas registradas: o retorno de José Silvério a Itumirim, cidade distante a 20 km de Lavras, com menos de 6.000 habitantes (segundo o Censo de 2021) e onde o Pai do Gol nasceu.

Durante o trajeto de carro até lá, que durou menos de 30 minutos, não faltaram avisos do locutor em relação aos perigos da estrada, que é muito esburacada e não tem nem sequer acostamento.

Quando foi possível avistar Itumirim, ele ficou sorridente, mostrando para a equipe a igreja, a estação ferroviária, o rio onde ele nadava. Ao mesmo tempo relembrou uma fase dura.

Talvez essa seja a grande revelação de Silvério no documentário, ele confessar que é filho bastardo e não conviveu com o pai, apenas no leito de morte deste. Por ter tido uma infância distante de qualquer sentimento paterno, lidou durante muitos anos com o preconceito e a indiferença.

“Você ser filho bastardo em 1945 em Itumirim é uma pedra. As pessoas têm mania de falar: ‘Ah, isso não é nada’. Não é nada para os outros. Vai para dentro de você. Ainda mais um menino como eu, que era muito esperto, magrinho, pequenininho. Graças a Deus, inteligente. Quando você é fraco, as pessoas procuram se aproveitar de você o máximo que podem”, disse.

O locutor também relembrou a infância pobre, quase miserável e muito dura para ele e a mãe.

“Eu passei fome! E passar fome não é como esperar o horário do almoço e ele sair bem mais tarde do que se está acostumado. Passar fome é ficar vários dias sem ter o que comer. Passar fome é você pedir comida e ter somente água. E, quando bebe a água, o estômago está tão vazio que até dói”.

Foram dessas dificuldades que surgiu o “menino chato”, pois Silvério aprendeu desde o início que só conseguiria mudar de vida se fosse muito insistente naquilo que desejava.

“Sabe aquela coisa de ‘eu quero’? Eu sempre fui assim. Até porque no meu caso esse ‘eu quero’ não é ser arrogante. Ele é necessário porque eu não tinha nada. Então, eu saia buscando. ‘Ah, eu quero pegar esse microfone’. Eu dava um jeito e pegava. Sabe?”, explica.

O “chato” acabou se tornando uma marca também na profissão, pois o locutor sempre teve mania de perfeccionismo e sempre puniu colegas que para ele não cumpriam regras...

Em Itumirim, Silvério ainda conserva amigos fiéis, como o irmão de leite Sebastião Justino, o Tiãozinho, um homem negro de cabelos brancos, que chegou a ganhar uma casa do locutor.

“Ele ficou assim por que roubou leite meu. Senão ele não aguenta, não”, disse, aos risos, Tiãozinho. “A mãe dele não tinha leite, então a minha mãe amamentava ele”.

O passeio ainda foi coroado com uma outra entrevista de José Silvério nos trilhos da pequena estação de trem de Itumirim, onde ele trabalhou na infância e conheceu o amor da vida: o rádio.

O beijo da (quase) morte

Da Rádio Cultura em Lavras, José Silvério foi para Belo Horizonte e Rio de Janeiro antes de ser contratado pela Jovem Pan, em São Paulo, em 1975. Ele conta histórias de quando fez sucesso e brigou de frente pela audiência com Osmar Santos e Fiori Gigliotti, duas feras do rádio.

São histórias que vão surpreender o fã de esporte.

Assim como causará espanto saber que o locutor quase morreu no estádio da final da Copa do Mundo de 1978, na Argentina, o primeiro mundial dele, enquanto trabalhava (confira no vídeo abaixo).

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1:06

José Silvério relembra como a cobertura da 1ª Copa do Mundo da carreira quase terminou em tragédia na Argentina

Especial "José Silvério, o Menino Chato" é o segundo documentário da série da ESPN pelos 100 anos de rádio no Brasil. Disponível no StarPlus e, em 26 de julho, na ESPN

Como todo mundo sabe, José Silvério sobreviveu e narrou por mais 43 anos ininterruptos. Ainda mudou de estação duas vezes. Foi para a Rádio Bandeirantes em 2000, onde ficou até 2021.

Poucas semanas depois foi contratado pela Rádio Capital, emissora em que teve a última experiência como narrador e só por quatro meses, ainda em 2021.

Hoje, fora do ar, José Silvério vive um sentimento dividido em relação ao rádio. Por um lado, admite que, aos 76 anos, chegou a hora de desligar o microfone e parar.

Enumera os feitos, como 11 Copas transmitidas, 16 Copas América, dois títulos mundiais da seleção e títulos mundiais em outras modalidades, como basquete, vôlei e até boxe, com Éder Jofre…

Por outro lado, revela que está sendo difícil arrumar formas de passar o tempo. Assiste televisão, lê livros, brinca com os netos e tenta manter a memória ativa para que ela não sofra com a pausa drástica na rotina de um homem que trabalhava, em média, 12 horas por dia.

Também diz, como se ainda tivesse o sonho de voltar à ativa e fazer a 12ª Copa do Mundo da carreira, que o mercado ficou difícil. As rádios mudaram, algumas aderindo aos caprichos da internet, e o investimento é pequeno, com propostas salariais aquém do que julga valer.

José Silvério entrou no rádio sem grandes alardes, batalhando. Deixou uma marca, a de um narrador fiel e preciso ao que ocorre no campo esportivo, atento aos detalhes e aos fatos. Saiu de cena de uma maneira que não condiz com o tamanho e a importância. E, talvez, para muitos que veem apenas o homem fechado e sério, sem conhecer a origem, o sofrimento e a vitória de quem parecia condenado a uma vida sem grandes aspirações, saiu de cena como “menino chato”.

Assista

"José Silvério, o Menino Chato". Já disponível no Star+.

Estreia na ESPN em 26 de julho, às 23h55 (de Brasília).

A série especial

Ao todo, são cinco especiais feitos pela ESPN em homenagem aos 100 anos de rádio no Brasil. O primeiro deles é "Miltons e suas paixões, com Milton Neves". Os outros são "José Silvério, o Menino Chato", "Pedro Ernesto, o locutor vovô", "Osmar Santos e os irmãos do rádio" e "Coisas de Garotinho, com José Carlos Araújo".

Todos serão exibidos na última semana de julho na ESPN (de 25 a 29) e estão disponíveis no Star+.