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O primeiro lugar do espanhol Telefonica Blue após os dois primeiros dias de disputa da segunda perna da Volvo Ocean Race fizeram o brasileiro Torben Grael esquecer o conservadorismo
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Barco de Torben Grael defende amanhã liderança na Volvo Ocean Race
O barco sueco Ericsson 4, capitaneado pelo brasileiro Torben Grael, vai às águas amanhã, na Cidade do Cabo, para defender sua liderança na competição geral na segunda etapa da Volvo Ocean Race
por Sílvio Lancellotti
Na Pré-História, engenhosamente intuitivo, o homem descobriu que, na travessia de um rio, de um lago ou de um braço de mar, podia turbinar a sua canoa com algo que, dependurado num mastro rústico, desfrutasse a força dos ventos – uma pele de animal, uma teia de ramos de madeira ou mesmo um tecido primitivo. Nos entornos de 5000 A. C., então, os povos árabes aprimoraram o conceito e desenvolveram uma vela de fato, com um pano mais apropriado. Consequência natural, logo surgiram as galeras dos fenícios, dos egípcios e de outras potências que, por muitas eras, dominaram as águas do vasto Mediterrâneo.
Paulatinamente, o conceito evoluiu. E, graças aos ventos e à vela, nos séculos XV e XVI se multiplicaram as Grandes Navegações através dos oceanos - e a Europa descobriu o chamado Caminho das Índias e o Novo Continente. Embora donos de uma costa mirrada, nos arredores de 1600 os holandeses inventaram os primeiros barcos esportivos e começaram a disputar, incipientemente, competições de velocidade e de resistência. Proliferaram os estaleiros incumbidos da montagem de iates personalizados, paixão que os EUA imediatamente assimilaram.
Nova York fundou o seu clube de Vela em 1844. E, em 1851, os seus dirigentes instituiram uma prova pioneiríssima, a mais antiga do planeta, ainda hoje existente, a sempre sensacional America‘s Cup. Daí, nos Jogos Olímpicos de Paris, em 1900, a Vela se tornou modalidade obrigatória, com regatas numa represa, junto a uma curva do Sena, em Paris, e na baía do Porto de Le Havre. Distribuiram-se os barcos, então, em função do seu peso. Mas, não havia outras regras e as controvérsias se sucederam. Tantas controvérsias, aliás, que, em 1907, congregados na mesma Paris, representantes de várias nações decidiram estabelecer um organismo regulador, a União Internacional das Corridas de Iates – a origem da presente ISAF, a International Sailing Federation. Coube à ISAF, por exemplo, definir desenhos, tamanhos, os pesos e as medidas que agora separam os barcos em classes. Tudo em nome da lógica e do equilíbrio das competições. Já são 125 as suas nações afiliadas.
O primeiro Iate Clube do Brasil, instalado em Botafogo, no Rio de Janeiro, data de 1906. Seus sócios, basicamente, eram marinheiros de fim-de-semana, quase todos estrangeiros, com barcos importados. A I Guerra Mundial, porém, impossibilitou as compras. E, para que a Vela não sucumbisse, os aficcionados resolveram bolar um modelo nativo, que qualquer carpinteiro pudesse construir. Escolhido para realizar o projeto, um dos sócios, Harry Hagen, desenvolveu o Sharpie, de fundo em V, facílimo de se manobrar. Em 1915, a Baía de Guanabara já abrigava as primeiras contendas de Sharpie. Enfim, em 1936, ocorreu a grande revolução da Vela no País: um dinamarquês, Preben Schmidt, assumiu o cargo de comodoro do clube. Duas gerações de descendentes de Preben brilhariam em competições através do planeta: os gêmeos Axel e Eric Schmidt e dois outros personagens fundamentais no enorme sucesso do Brasil na modalidade: seus netos Torben e Lars Grael.
O País principiou a enviar representantes da Vela olímpica aos Jogos de Berlim, 1936. Com o seu Finn, desafortunadamente, Walter Hener foi o 24º entre 25 inscritos. Daí, porém, a partir do bronze de Reinaldo Conrad e de Burkhard Cordes, na Flying Dutchman da Cidade do México, 1968, a Vela se tornaria a rainha das medalhas do Brasil. Catorze nos Jogos (seis de ouro, duas de prata e seis de bronze); 65 nos Panamericanos (24 de ouro, vinte de prata e onze de bronze); e 77 nos mundiais (64 de ouro, nove de prata e quatro de bronze).
Símbolos Eternos
Nos Jogos de Antuérpia, Bélgica, 1920, catorze classes na Vela, a Noruega arrebatou dez medalhas, sete de ouro, três de prata e uma de bronze. A sua principal conquista aconteceu na classe de até 12 Metros, com uma tripulação de nove integrantes. No elenco, os quatro irmãos Oestervold – Henrik, Jan, Kristen e Ole. Mais dois primos deles, os manos Halvor e Rasmus Birkeland. Em Paris, 1924, outra família da Noruega levaria o ouro de 8 Metros: August Ringvold e o filho Júnior.
Oito edições dos Jogos e quatro medalhas de ouro consecutivas propiciaram a Paul Elvstroem o laurel de “Atleta do Século XX” em sua pátria, a Dinamarca. As quatro medalhas aconteceram no Finn, de 1948, quando tinha apenas vinte anos, até 1960. Jamais, antes de Elvstroem, qualquer atleta havia realizado tal façanha. Noutra categoria, a Tornado, ele seria o quarto, em Los Angeles, 84, ao lado da filha Trine. Dentre várias maravilhas, Elvstroem inventou os estribos que perendem os pés do velejador no fundo do casco e lhe permitem navegar sem riscos.
Melhor atleta da história das Bahamas, antes do surgimento dos velocistas do Atletismo, Durward Knowles inaugurou a sua carreira na Vela dos Jogos, classe Star, em Londres, 1948 – um quarto lugar. Em Helsinque, 1952, caiu à quinta posição. Em Melbourne, 1956, levou o bronze. Em Roma, 1960, desabou ao sexto posto. Mas, não desistiu. Em Tóquio, 1964, em parceria com o proeiro Cecil Cooke, enfim escalou o topo do pódio, o primeiro ouro de todos os tempos para a sua pátria.
A aventura de Paul Pierre Cayard, norte-americano, nos Jogos Olímpicos, não ostenta muitos galardões. Na classe Star, foi um reserva do time da sua terra no evento de Los Angeles, 1984. E, em Atenas, 2004, como titular, não passou do quinto posto. Mas, nas regatas de oceano, raros atletas reuniram um currículo tão rico. No comando do EF Language, da Suécia, em 1997/98, ele ganhou, e por larga margem, a complexíssima prova Whitbread de volta ao mundo. No total, aliás, Cayard soma outros dez triunfos superlativos em mares abertos.
Provavelmente o melhor velejador de todos os tempos, o neo-zelandês Russell Coutts só possui um ouro nos Jogos, aquele da classe Finn, em Los Angeles, 1984. Já conquistou, no entanto, três vezes o título universal de Match Racing, um tipo de prova em que as batalhas ocorrem no mano-a-mano. E, como timoneiro, já conquistou três vezes a prestigiadíssima America’s Cup. Presentemente, Coutts corre os oceanos do planeta com a categoria que ele mesmo criou, a RC44.
Destaques Nacionais
Dois cariocas do Rio de Janeiro, pouco além de adolescentes, Marcos Soares e Eduardo Penido tinham, respectivamente, dezenove e vinte anos quando participaram, na classe 470, dos Jogos de Moscou, em 1980. Ambos, amigos, vinham do Windsurf e decidiram se arriscar num barco de dois tripulantes, tradicionalérrimo, inventado, em 1863, pelo francês Andrè Cornu. Um barco, aliás, de manejo intrincado, com três tipos de vela, bastante sensível os movimentos dos corpos de seus ocupantes. Depois de um início arrasador, fraquejaram, sob pressão – mas, asseguraram o seu ouro na regata derradeira da categoria.
Na mesma data, em 29 de Julho, Alexander Welter, 27, e Lars Bjoerkstroem, 37, sueco naturalizado, venceram a disputa do Tornado, um catamarã velocíssimo, e levíssimo, quase capaz de voar. Venceram, com mais tranquilidade. Na mesma data, as primeiras medalhas de ouro do Brasil na Vela. Aliás, as únicas de ouro do Brasil em Moscou. Nunca, antes, na História, o País subira duas vezes ao topo do pódio.
Principiou no evento de Los Angeles, em 1984, a grande saga dos irmãos Grael, Torben e Lars. Apelidado Turbina, com Daniel Adler e Ronaldo Senfitt, Torben abiscoitou a prata do Soling. Daí, ao seu currículo espetacular, adicionou mais quatro lauréis olímpicos (com Marcelo Ferreira, na Star, ouro em Atlanta/1996 e em Atenas/2004; bronze em Seul/1998 e em Sydney/2000), quatro títulos mundiais, um ouro em Panamericanos. Tornou-se tático do Luna Rossa/Prada, barco italiano da America’s Cup, ouro em 2000 e prata em 2007, na fase de qualificação denominada de Louis Vuitton. Um visionário, também decidiu construir um veleiro nativo para a Volvo Ocean Race de volta ao mundo – e, apesar de inúmeros problemas, de calmarias à quebra de um mastro, conseguiu ganhar um etapa e ficou em terceiro no geral.
Quatro anos mais novo do que o mano, Lars Grael iniciou a sua carreira em Jogos no evento de Los Angeles, em 1984. Então, na classe Tornado, em parceria com Glein Haynes, se limitou a um sétimo lugar entre onze inscrições. Em Seul, 1988, ao lado de outro proeiro, Clínio de Freitas, abiscoitou o bronze da categoria. Nos Jogos de Barcelona, 1992, o mesmo duo latimou uma pífia oitava posição. Mas, em Atlanta/1996, ao lado de Kiko Pellicano, Lars voltaria a receber o bronze. Infortúnio, em Setembro de 1998, quando participava de uma regata, em Vitória, no Espírito Santo, uma mega-lancha a motor, pilotada por um cidadão alcoolizado, atropelou o seu barco. Resultado: Lars perdeu uma das pernas. De todo modo, não fraquejou – e, logo, retornou às águas.
Um paulistano de 1973, Robert Scheidt começou a velejar aos sete de idade, na represa de Guarapiranga, em São Paulo, com um singelo Optimist, presenteado pelo pai. Aos onze, na sua categoria, já era campeão sul-americano. Daí, evolução natural, passou à categoria Snipe – até desembarcar na Laser, na qual se demonstrou praticamente imbatível. Em sua carreira fenomenal, colecionou 179 pódios, 62 títulos internacionais, 76 no País. Em Panamericanos, foi ouro três vezes seguidas, Mar del Plata/95, Winnipeg/99 e Santo Domingo/2003, além de obter a prata, no Rio, em 2007. Em Jogos Olímpicos, foi ouro em Atlanta/96 e em Atenas/2004, além da prata em Sydney/2000. E, no seu percurso, na Laser, ainda foi ouro oito vezes em mundiais. Trocou a Laser pela Star e, em 2007, com Bruno Prada, arrebatou outro ouro.