<
>

Carta para Andy Murray

Sir,

Não imagino o que você sentiu quando aquela bola de Novak Djokovic parou na rede.

Os punhos cerrados, o sorriso, as mãos no rosto, tentando segurar as lágrimas. Sair da Escócia para se ajoelhar na grama sagrada em meio ao êxtase de seus súditos, encerrando 76 anos de uma longa espera, deve ter sido algo sublime.

Sublime também foi aquele US Open, hein? E as medalhas olímpicas (no plural, duas) de ouro? Caramba, ainda teve o repeteco em Wimbledon! O céu era o limite, Andy!

Ah, as vitórias... Elas são reflexo de todo um esforço, certo? Queria que você me contasse um dia sobre o controle mental absurdo, a dedicação corporal estrondosa, o coração que não cabe no peito. Mas você sabe que os títulos, no seu caso, são um mero detalhe: seu coração foi o que te colocou entre os meus preferidos.

Agora, as suas mãos, as mesmas que não conseguiram segurar as lágrimas de alegria, repetiram o gesto em uma sala insossa do outro lado do mundo. São outras lágrimas, não mais festivas, não menos nobres.

E eu não posso imaginar o que está passando na sua cabeça.

Posso arriscar que a mente que controlou tantos jogos, reverteu tantas situações impossíveis, está cansada. O corpo, aquele, que explodiu tantas vezes em velocidade e força, descobriu que o céu tem sim um limite, e implodiu em dores inimagináveis. Mas o coração está ali, firme e forte.

Não posso imaginar as suas dores, mas doeu ouvir “Não consigo colocar a meia sem sentir dor”. Não posso imaginar o que você, que outro dia se ajoelhou na grama sagrada, com o mundo aos seus pés, está sentindo agora, ao cogitar “operar de novo para ter qualidade de vida”.

Enquanto você chorava, no sofá de casa, chorávamos também.

Você é um cara legal, um cara do bem. E a vontade era de atravessar os oceanos, te dar um abraço e falar “Velhão, não sei como, mas vai ficar tudo bem”. E vai mesmo.

A sua dedicação ao tênis te escancarou para o mundo, te deu até o título de Sir. Mas sua nobreza, nas vitórias e nas derrotas, mostrou que você sempre foi Sir mesmo antes ser Sir. E assim será, para sempre.

Vai ficar tudo bem, Andy!

Obrigado, Sir!