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Surfe na Pororoca: Desafiando o monstro dos rios

Serginho Laus se arrisca no surfe na Pororoca Stephanie Foden

Por todo o mundo, surfistas estão em busca das maiores ondas dos oceanos. Mas alguns, como o brasileiro Serginho Laus, buscam a fúria do rio Amazonas.

Quando as marés altas, durante o equinócio da primavera, caem em águas mais lentas na foz do rio Amazonas, no Brasil, um fenômeno natural chamado Pororoca é formado. A onda resultante pode enfurecer-se por dezenas de quilômetros, arrancar árvores, vomitar lama e até mesmo arrastar jacarés junto com ela.

Enquanto os moradores locais vivem para respeitar a Pororoca, sabendo muito bem que ela pode esmagar seu cais ou transformar seu barco em milhões de lascas de madeira, surfistas como Serginho Laus vivem para enfrentá-la.

"É uma sensação de liberdade, de descoberta", disse Serginho, sobre o surfe na Pororoca. "Você está em um lugar que ninguém vai – todo mundo tem medo de ir por que a Pororoca parece um monstro para os moradores que vivem nessa área... É como um tsunami amazônico."

É fácil ver por que os surfistas a adoram tanto. Ao contrário das ondas oceânicas, que duram talvez 30 a 40 segundos, os surfistas vivem a Pororoca por minutos a fio, contanto que possam lidar com o intenso acúmulo de ácido láctico em suas pernas. Há um incentivo extra para ficar mais tempo: piranhas famintas e candirus, conhecidos como "peixes-vampiros", espreitam as possíveis vítimas.

Serginho já foi o detentor do recorde mundial de surfe na Pororoca com 33min15 e diz que, certa vez, andou na maré por 1h10 sem parar (ele admitiu que esqueceu o GPS para validar a marca).

Mas, em 2014, tudo mudou. A Pororoca, na foz do rio Araguari – onde Serginho surfava desde o final dos anos 1990 – desapareceu.

"Quando o Araguari morreu, o sonho morreu também", disse ele. "Imagine, você sempre esteve no lugar que você queria estar com as melhores ondas do mundo – e, em um momento, você não tem mais esse lugar."

Enquanto outros surfistas foram caçar novos monstros fluviais ao redor do mundo, Serginho perseguiu outra Pororoca. Ele falou com os ribeirinhos, pessoas que moravam ao longo do rio, e encontrou exatamente o que estava procurando.

Então, reuniu sua equipe local e convidou o cão surfista Bono e o melhor amigo do labrador, o surfista de SUP (stand-up paddle) Ivan Moreira. Juntos, eles navegaram 15h na Amazônia, passando por chuvas e aldeias curiosas, para enfrentar o novo monstro – um novo recorde na sua mira.

Chilros e uivos soam quando a Amazona acorda para a noite. Na manhã seguinte, a poderosa Pororoca se enfurecerá nesta parte tranquila do rio.


Os tripulantes William Marques, José Edivalgo e Bruno Lima comandam a embarcação durante a viagem de 15 horas de Macapá, capital do Amapá. O surfe na Pororoca é muito mais complicado do que um dia na praia. Você precisa de uma tripulação de pilotos, um barco grande e pelo menos um jet ski. Você também precisa da experiência para prever quando a onda chega e o melhor ponto para começar a surfá-la.


Os ribeirinhos Ruan Maciel Borges, 19 anos, e Farias Mendes, 26, exibem suas pranchas artesanais de árvores que crescem na região. Eles fizeram suas pranchas usando o contorno de uma prancha de surfe real dada a sua prima, Athieson Almeida Farias, em 2017, por Serginho Laus. Serginho decidiu dar uma tábua ao então garoto de 16 anos depois de vê-lo surfar a Pororoca na porta de uma geladeira.


O surfista brasileiro de SUP, Ivan Moreira, e seu cachorro, Bono (batizado com o nome da marca brasileira de bolachas, e não do vocalista do U2). treinam antes de enfrentar a Pororoca. Ivan e seu fiel escudeiro venceram no World Dog Surfing Championships (Campeonato Mundial de Surfe para Cães) em Huntington Beach, na Califórnia. Eles também estabeleceram um recorde mundial no Guinness Book para a mais longa jornada de SUP em um rio por um par humano / cão quando encararam, juntos, a distância de 1 milha (1,6 km), no estado brasileiro de Maranhão em 2016. Eles planejam estabelecer um novo recorde na Amazônia.


Um início precoce e um longo passeio pela Pororoca deixaram Ivan Moreira precisando de um cochilo. Ele, que é personal trainer, surfista e faixa preta de karatê e jiu-jitsu, foi seguido por uma equipe de TV brasileira enquanto surfa com Bono em lugares como Havaí, Miami, Peru e Chile. Acima deles, mosquiteiros evitam insetos à noite.


Três garotas da aldeia de Igarapé Grande olham para o barco na chuva, que caiu durante a maior parte da expedição de quatro dias.


Ivan Moreira ajuda os tripulantes Marcio Pinheiro e Márcio Vitello a levar o barco para terra antes da chegada à Pororoca. Se deixada no rio, a maré provavelmente rasgaria o barco em pedaços.


O barco parou na vila de Porto Fábrica para pegar um pouco de açaí, o superalimento brasileiro que é vendido em todo o Brasil e cada vez mais ao redor do mundo. As pessoas que vivem nas margens do rio Amazonas geralmente moram em casas construídas sobre palafitas devido às mudanças drásticas no nível d'água.


Os pés de Ivan Moreira estão submersos em lama grossa nas margens do rio Amazonas. Ele está a poucos minutos de encarar a Pororoca.


Ivan sai com seu SUP para a Pororoca. Ele aprendeu a surfar com seu pai quando tinha 5 anos, mas se tornou autodidata no SUP quando começou a andar com seu cachorro, há 7 anos. Ao contrário da maioria dos outros cães surfistas, Bono prefere sentar na cauda da prancha, então Moreira precisa da pá para manobrar a onda.


Ivan segura a prancha quando um jet ski o puxa para alcançar a Pororoca, depois de fazer um grande swell por 9min. "A água branca era muito grande, então eu não pude dar a volta, e Serginho assobiou, 'pule'. Eu agarrei Bono e simplesmente pulei."


A água calma do rio Amazonas é envolvida por uma onda furiosa que chegou a mais de 1,80m. Pororocas também rugem em lugares como Inglaterra, França, Canadá, Índia e China.


Ivan e Bono surfam a Pororoca entre os moradores locais Valdinei Farias Mendes e Ruan Maciel Borges. Os jovens reconheceram a dupla que já haviam assistido pela TV. "Isso foi legal!", Valdinei disse após bodysurfing a onda por vários minutos. "O coração estava batendo forte o tempo todo, a adrenalina correndo pelo seu corpo. Tudo o que você tem a fazer é se divertir."


Árvores arrancadas e solo erodido na foz do rio Amazonas são sinais do que a Pororoca devastou por aqui. Serginho disse que pedaços de madeira e de bambu saindo da onda como armadilhas mortais o deixaram "um pouco assustado" em relação à segurança de Ivan e Bono.


Ivan e Bono surfam a Pororoca. Juntos, eles percorreram 6,47 milhas (quase 10,5 km) ao longo de 33min7s – o suficiente para um novo recorde mundial (ainda a ser confirmado) pelo Guinness Book.


Serginho Laus brinca com as crianças locais depois de surfar na Pororoca. "As pessoas que vivem por aqui começam a sentir o surfe", disse. "Eles começam a olhar para o esporte com outros olhos – que eles podem fazer isso também.""


Serginho volta ao barco enquanto as ondas balançam o rio Amazonas no rastro da maré. A Pororoca é apenas uma onda única – se você errar, perdeu.


Barcos como este, saindo de Macapá, servem como férias divertidas aos moradores locais. Este barco estava abarrotado com redes para muito mais gente do que a expedição de surfe precisava e veio equipado com cozinha, bar e música estridente.


Davidson Ferreira, 8 anos, dá uma "bomba" no rio Amazonas em frente à sua casa. "Aqui aprendemos a viver com a mãe natureza", disse Serginho. "Aprendemos a comer boa comida, a viver de maneira simples, a fazer bons amigos e a queimar suas pernas surfando por quilômetros e quilômetros."


*O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em "Chasing River Monsters"