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Das favelas para as ondas, Mineirinho relembra infância difícil: 'Minha mãe colocou fogo em casa comigo dentro'

Adriano de Souza, o Mineirinho, em ação na etapa do Rio de Janeiro do Mundial de surfe de 2015 Getty

Foi aos 8 anos que Adriano de Souza viu pela primeira vez o mar. Ele nem sabia direito o que era aquilo. Morava em uma favela no Guarujá, cidade litorânea no Estado de São Paulo, a visão era limitada aos barrancos que estavam ao seu redor. Já estava acostumado com uma vida simples, difícil, quando encontrou o mar ao seguir seu irmão mais velho e vê-lo entrar no mar para surfar. Foi aí que tudo mudou para Adriano.

Graças ao irmão, ele aderiu ao surfe primeiro como hobby. O prazer que sentiu ao desafiar as ondas o fizeram ir além. O Mineirinho, como ele ficou conhecido mundialmente, revelou-se um talento nas pranchas. Foi campeão mundial em dezembro de 2015, consolidando uma trajetória iniciada profissionalmente em 2002. Os anos difíceis, no entanto, nunca foram apagados, servindo como incentivo para poder triunfar.

Mineirinho contou em primeira pessoa toda a sua trajetória até o título de 2015 para o site The Player's Tribune. Relembrou até mesmo o drama, com a mãe lutando contra uma forte depressão, o que fez o pai abandonar o emprego e irmão mais velho ter de trabalhar para sustentar a família.

"Mamãe tinha depressão. Quatro meses depois que eu nasci, ela aparentemente colocou fogo na casa e saiu… enquanto eu ainda estava dentro de casa. Foi um vizinho que salvou a minha vida", disse Mineirinho sobre um triste momento na infância.

Leia, na íntegra, o relato de Mineirinho:

"Eu cresci a alguns quilômetros da praia.

Mas não era o que provavelmente você está pensando.

Não cresci em uma bela cidade praiana. Nem mesmo sabia que nós estávamos perto da água. Eu nunca vi o mar enquanto eu crescia. Tudo que eu via, tudo que eu conhecia, era a vida dentro da favela.

É difícil encontrar beleza dentro da favela. Muitas pessoas só têm uma chance, e é o crime. Drogas, violência, esse tipo de coisa. É tudo tão cheio, tão sujo. Os carros de polícia nem mesmo podem passar pelas ruas. Mas eles tentam. Parece que as sirenes ecoam a noite inteira. E às vezes, em vez das sirenes, você escuta o pow-pow-pow de uma arma.

Você aprende que não pode ficar do lado de fora quando escurece. Você aprende que ainda precisa dizer oi para todo mundo – tanto para as pessoas boas como para as pessoas más – porque todos se conhecem. Não há espaço para se livrar de qualquer coisa numa favela. E quando criança, você não sabe se existe algo além daqueles muros. A vida na favela é como um ciclo. Meus pais são de uma favela. E os pais dos meus pais também.

Não existem muitas expectativas para uma vida dentro de uma favela.

E não existem motivos para felicidade, também.

Então, eu sempre me perguntava por que meu irmão, Angelo, estava tão feliz quando voltava para casa aos sábados e aos domingos à noite.

Durante a semana, ele se levantava às 5 da manhã e ia para o trabalho numa base militar perto de nossa casa no Guarujá. E ele voltava para casa às 6 da tarde. Nós dividíamos o quarto, e eu via ele fazer isso todos os dias durante anos.

Então, chegava o fim de semana.

Aos sábados e aos domingos, ele saía de casa com a sua prancha de surfe junto com alguns de seus amigos. Angelo adorava surfar.

E quando ele saía com a prancha de surfe, da mesma forma quando ele saía para o trabalho, tudo o que eu podia fazer era observar ele ir. Ele tinha 19 e eu apenas 8 anos de idade, então eu era muito pequeno para ir com ele. Tudo o que eu sabia sobre o Angelo e o surfe, era que isso fazia ele muito feliz.

E a felicidade parecia muito distante nas favelas.

Eu precisava saber onde encontrar a felicidade.

Num fim de semana, a curiosidade pegou o melhor de mim. De casa, eu vi enquanto ele pegava sua prancha, subia na bicicleta e pedalava junto com seus amigos.

Então eu corri para fora para segui-lo. Eu nem mesmo consigo me lembrar das ruas porque eu estava muito assustado com a possibilidade de ele me ver. Eu mantinha distância, me escondendo atrás das árvores e da sinalização da estrada. Eu segui Angelo por 40 minutos, e não fazia ideia de onde estávamos indo, ou onde nós iríamos parar.

E então eu vi.

A estrada começou a quebrar e se abrir. Além do fim, eu pude ver as águas e as ondas colidindo ao longo da costa – e o mundo parecia se esticar para sempre. Era tão maravilhoso que eu parei ali, no meio da estrada.

Imediatamente, eu senti…. a felicidade. A paz.

Até que o Angelo se virou.

“Adriano! O que você está fazendo aqui?!”

“Eu estou aqui para surfar!”

Angelo não estava contente que eu tinha escapado e o seguido até ali, mas ele suspirou e me levou para a água. Ele me colocou na prancha e me empurrou para a minha primeira onda.

Aquele momento… mudou minha vida.

Vinte anos depois, eu ainda me lembro do calor da água quando entrou em contato com meu corpo. Era verão no Brasil e, pela primeira vez, eu senti a paz… a felicidade que o mar traz.

E eu queria continuar sentindo aquilo para sempre.

Tudo o que eu tinha visto até ali era a favela. Eu não conhecia a diferença do norte para o sul, do leste para o oeste. Eu não sabia que aquele lugar tinha estado ali durante a minha vida inteira, apenas alguns quilômetros de distância do que pareciam ser as ruas sem fim das favelas.

Quando nós saímos da água, Angelo olhou para mim.

“Você não deve vir aqui”, ele disse. “O pai não ia deixar. Você é muito novo”.

Mas quando nós chegamos em casa, desta vez eu senti a mesma felicidade que Angelo sentiu. Era minha, também. Quando fui dormir naquela noite, pensei no quanto eu gostaria que aquele sentimento permanecesse. Eu sonhava em ficar o dia todo no oceano.

Eu sou um surfista profissional agora. Fico no oceano o tempo todo. E eu tenho conquistado troféus e campeonatos e surfado ao redor do mundo. Acho que seria correto dizer que passei a minha vida inteira procurando constantemente aquele sentimento que eu tive naquele dia com o Angelo.

Voltar para o oceano não foi fácil.

Por um motivo, Angelo não ia me deixar ir lá pra baixo sozinho. Mas não era apenas da favela que eu queria fugir. Em casa não era um lugar muito feliz também.

Havia dias e semanas em que minha mãe não saía da cama. Ela não conseguia sair da cama. Por causa da tristeza. Ela chorava por dias e dias no seu quarto. Angelo e meu pai simplesmente diziam que isso era “doença” dela. Eu não sabia muito a respeito disso – nada além de que isso tinha começado depois que eu nasci. A tristeza dela era tudo o que eu sabia.

Quando ela estava na cama, eu não podia vê-la. Meu pai me tirava da porta do quarto.

“Não, não, Adriano”, ele dizia. “Ela vai ficar bem, ela vai ficar bem. A mamãe só está doente”.

É o que Angelo e meu pai sempre diziam para mim.

Mamãe está apenas doente”.

Agora que estou mais velho, nós falamos mais sobre isso. Mamãe tinha depressão. Quatro meses depois que eu nasci, ela aparentemente colocou fogo na casa e saiu… enquanto eu ainda estava dentro de casa. Foi um vizinho que salvou a minha vida.

Mas nós nunca falamos sobre a depressão dela quando eu era pequeno, então eu não entendia muito bem o que estava acontecendo além do fato do meu pai ter que largar o emprego para cuidar dela o tempo inteiro. Ele abriu um barzinho em frente da nossa casa – onde ele somente vendia bebidas e outras coisas. Isso deixava ele perto de casa, mas não trazia dinheiro suficiente. Então, quando Angelo completou 18 anos, ele arrumou um emprego no exército como segurança nas docas como forma de ajudar a família. Eles gostavam dele na base militar porque ele era forte e tinha um corpo todo definido por causa de todo o surfe que ele tinha praticado.

Não muito tempo depois de Angelo ter começado a trabalhar, a minha ocupação era levar o almoço dele todos os dias. Eu nunca tinha estado lá daquele jeito, nas docas.

Pela segunda vez, eu vi o oceano enquanto eu fui me encontrar com Angelo.

Talvez fosse destino ou coincidência, eu não sei, mas eu logo descobri que havia uma escola de surf lá nas perto das docas. Todas as vezes que eu passava de bicicleta por lá, eu via esse cara que não tinha uma perna. Ele estava ensinando aos meninos como surfar. Eu nunca tinha visto nada daquilo.

Eu queria que ele me ensinasse, mas o Angelo já tinha me dito que não.

“Você é muito pequeno. E quem vai tomar conta de você enquanto eu estiver trabalhando?”

Mas eu falei com o cara, o Pirata, e ele disse ao Angelo que tomaria conta de mim.

Angelo suspirou e disse que sim.

Mas antes da minha primeira aula, tive de contar pra ele que eu não tinha muito dinheiro. “Minha família é da favela”, eu disse. “Eu não posso pagar”.

Mas o Pirata balançou a cabeça. “Não se preocupe”, ele disse. “Nós cuidaremos disso”.

E foi assim. Nós nunca conversamos sobre quanto ia custar. Ele me deixou emprestar as pranchas. E ele me ensinou tudo. Ele me deu um futuro, sabe?

Ele me deu o oceano.

Mas eu ainda não tinha a minha própria prancha.

Eu tinha ouvido uns amigos falarem que alguém que estava vendendo uma prancha que era do meu tamanho. Perguntei ao Angelo se eu podia pegá-la.

“Nós não temos dinheiro, Adriano”.

“Eu sei que vai me ajudar a melhorar. Por favor, por favor?”

“Desculpa”.

E então mais ou menos uma semana depois meu irmão voltou do trabalho… carregando uma prancha.

“Eu tinha de pegar a sua primeira prancha”, ele disse, entregando ela pra mim. “É toda sua, Adriano”.

Descobri que meu irmão vinha negociando ao longo da semana e conseguiu baixar o preço para 30 reais. 30 reais. E, cara, era fora de série. Era verde com uma faixa branca até o fim dela. O nariz devia ter quebrado em algum ponto, mas não tinha sido consertado corretamente, então, estava um tanto curvado. Para mim, no entanto, era perfeita. Eu pensava que se parecia com uma onda.

Claro, eu tive de ouvir um monte de besteira dos caras da praia por conta da prancha, mas eu não ligava. Eu finalmente tinha a minha própria prancha.

O oceano se tornou uma fuga para mim. Uma fuga da favela. Uma fuga do lugar que era muito perigoso para andar à noite. Uma fuga dos dias quando a tristeza da mamãe voltava.

Quando eu estava na água, era como se todas essas coisas não importassem mais.

Eu queria ficar olhando para a próxima onda, e para a próxima. Decidi que queria ser um surfista profissional. Naquela época, porém, surfar no Brasil era um pouco como rock’ n’ roll. Tipo, os caras faziam o que queriam, indo pro oceano quando eles tivessem vontade. Não havia qualquer tipo de foco naquilo. E sendo da favela, não era como se eu pudesse me espelhar em alguém que fizesse esse tipo de coisa.

Então o Angelo se tornou minha motivação. Eu não precisava de um pôster de um atleta na minha parede. Eu via o trabalho do Angelo todos os dias.

Então era isso que eu ia fazer, também.

Nos anos seguintes, eu acordava todos os dias de manhã com ele. E quando Angelo seguia para as docas, eu ia para o oceano surfar. De início, as pessoas ficavam meio assim, “Quem é esse moleque?”

Não havia ninguém por lá às 5 da manhã.

E quando ganhei meu primeiro prêmio em dinheiro, eu sabia exatamente o que queria fazer.

Levei para o meu irmão e disse, “Compre uma casa nova pra gente com isso, por favor”.

Aquele pagamento inicial foi suficiente, e eu sabia para onde queria que nós nos mudássemos. Perto do oceano. Eu queria retribuir ao meu irmão alguma coisa de volta de tudo o que ele deu para mim. Eu queria tirar os meus pais da favela. Eu queria sair daquela multidão, dos traficantes de drogas, das noites em que não era seguro ficar andando depois que escurecia, do pow-pow-pow da arma. Eu queria fugir de tudo aquilo.

E eu queria dar para minha mãe aquele sentimento, também – aquele sentimento que você só pode conseguir lá dentro d’água. A calma. A paz. A felicidade. Quando eu falava com ela depois que ela e meu pai se mudaram, nós falávamos sobre como ela podia andar pela praia.

Ela tinha o oceano agora, também.

Um ano depois, em 2005, eu tomei a decisão de me tornar profissional. Eu tinha me dedicado bastante. Eu tinha viajado o mundo. Eu tinha patrocinadores.

Eu estava horrível.

Eu era apenas um adolescente quando me tornei profissional e estava enfrentando caras de 30 e 40 anos. Eles eram mais fortes e mais experientes. Porém, todas as vezes em que perdia, eu simplesmente dizia: “O.K., continue. Um dia tudo vai dar certo”.

E rapidamente as coisas… deram certo. Eu fiquei maior. Mais forte. Mais experiente. Foi quase como se eu tivesse completado 17 anos e boom, eu sabia o que estava fazendo lá.

Não somente comecei a ganhar os campeonatos, mas também vi outras pessoas começarem a perceber qual era a minha abordagem no surfe. Isso me faz voltar ao Angelo. As pessoas chamariam de militarista o jeito que eu treinava. Eu saía semanas à frente de qualquer outro. Eu aprendia as ondas, os ventos. Ficava com os locais em cada um dos lugares: Havaí, Taiti, Califórnia, Austrália. Eu queria aprender tudo o que pudesse.

Talvez eu seja assim porque eu sei o que é não ter nada. Eu nunca fui um desses caras que cresceu na água. Eu tive de encontrar o oceano. E eu tive de me agarrar a ele.

E dez anos depois que eu me tornei profissional, parecia que todos aqueles anos de trabalho vieram abaixo em um único momento.

As Pipeline Masters de 2015.

Era o evento final do ano, e o campeonato mundial ia ser decidido ali. Eu tinha ido bem o ano inteiro, e estava numa posição para ganhar o título e me tornar o primeiro brasileiro a ganhar o Pipe Masters.

Mas eu não podia pensar naquilo. Eu precisava sentir a água, me conectar com ela, fugir de todo o resto e encontrar a onda perfeita.

Naquele dia no Havaí, eu encontrei essa onda.

Mas mesmo depois que eu ganhei a bateria final, eu ainda não tinha dado conta de que eu tinha me tornado o campeão mundial. Nem mesmo depois que eles me deram o troféu. Eu simplesmente não conseguia compreender o que tinha acontecido. Até que uma repórter veio até mim.

“Adriano”, ela disse, “você é um campeão mundial. O que você está pensando agora?”

Foi como se aquela pergunta tivesse colocado meu cérebro no modo rebobinar. Só havia uma coisa na minha cabeça, um único lugar para o qual minha mente voltava.

O que eu estou pensando agora?

O começo.

Eu olhei de volta para a repórter.

“Meu irmão”, eu disse. “Angelo”.

Eu pensei naquele dia quando o segui para a praia, e quando ele me empurrou para a minha primeira onda. O calor da água na minha pele.

A prancha de 30 reais.

A felicidade.

Tudo por causa dele. Por causa de Angelo.

Eu não tive a oportunidade de telefonar para ele até mais ou menos três horas depois. Então quando finalmente tive o telefone em minhas mãos, ele foi a primeira pessoa com quem eu queria falar.

Ele acabou não assistindo a final.

Na verdade, quando eu soube, isso me fez rir porque era tão típico do Angelo. Ele tinha que trabalhar, e o trabalho sempre veio em primeiro lugar para ele. E por conta da diferença de horário entre Oahu e São Paulo ele perdeu tudo. Só quando ele saiu do trabalho foi quando ele descobriu que alguma coisa estava acontecendo.

Ele me disse que o telefone dele estava quase explodindo tantas eram as mensagens de texto e ligações aparecendo.

Quando eu finalmente voltei para o Brasil, parecia que havia um milhão de pessoas esperando por mim no aeroporto. No dia seguinte, eles colocaram a mim e a minha família em cima de um caminhão do corpo de bombeiros. Nós ficamos acenando e celebrando enquanto passávamos pelo Guarujá.

Eu ainda penso naquele momento. Penso no que aquilo significou para o meu país – especialmente para os jovens surfistas brasileiros – eu ter conquistado aquele título. Penso nos outros garotos da favela que talvez saibam que existe algo mais lá fora, também.

Existe uma coisa que sempre me pega: ver a bandeira brasileira com meu nome nas competições. O Brasil é o meu lar, sabe? De todas as coisas que eu fiz na minha carreira, ter tirado a minha família da favela é provavelmente a coisa da qual mais tenho orgulho.

Mas, de certa forma, eu também devo muito à favela. Eu acho que me deu motivação para trabalhar mais duro. Saber que jamais seria fácil para mim. E me mostrou o que é ter coragem.

E eu sabia o que era coragem. Porque eu tinha visto isso no meu pai, quando ele saiu do trabalho para cuidar da minha mãe. Porque eu vi na minha mãe lutando contra depressão. Eu via isso no Angelo, que estava dando apoio para família quando tinha 18 anos de idade.

Eu queria ser corajoso como eles. No surfe, eu senti que podia encontrar minha própria coragem."