Mauricio Barros

Mauricio Barros

Guerrero não vai à Copa no país do doping

Maurício Barros

Foram 72 nanogramas por mililitro encontradas na urina de Guerrero. A benzoilecgonina é uma substância que compõe a cocaína. Ela apareceu em seu xixi porque o atacante peruano, segundo o próprio, teria tomado chá de anis e chá de coca como tratamento de uma gripe, quando servia à sua seleção nas Eliminatórias. Deslize coletivo: dele, de médicos e de nutricionistas peruanos. Defesa feita, a Fifa entendeu que o atacante não quis mesmo se dopar e aliviou a pena. Passou de dois para um ano de gancho. A tolerância aos testes positivos é baixa, mesmo quando a tese de contaminação, ou seja, sem intenção de obter vantagem esportiva, é aceita. 

O astro peruano viu desmoronar o sonho de todo garoto que joga futebol: disputar uma Copa do Mundo. O Flamengo ficou sem seu centroavante titular quando mais precisava. Os advogados ainda vão recorrer, mas uma mudança na condenação é improvável.

Corta para a sala da minha casa. Acabo de assistir, sob ordens do meu chefe, o jornalista e músico Eduardo Tironi, ao espetacular documentário “Icaro”. A Netflix comprou seus direitos após vê-lo premiado no último “Sundance”, um dos mais importantes festivais de cinema (de verdade) do mundo, criado por Robert Redford.

A história começa de um jeito e termina de outro absolutamente imprevisível. Em 2014, o americano Bryan Fogel, um documentarista e ciclista amador da pesada, em nível quase profissional, decide ser cobaia e filmar a experiência de se dopar. Ele queria tentar vencer uma prova mítica entre os amadores, também na França, a Haute Route, sete dias pedalando nos alpes, onde seu melhor resultado fora um 14º lugar. Fogel sentia que faltava um degrau para se igualar àqueles 13 caras que chegaram à sua frente, coisa que só mais treinamento duro, ele acreditava, não seria capaz de oferecer.

E Fogel não queria uma injeçãozinha qualquer. Seu projeto foi replicar e documentar o caminho de Lance Armstrong, sete vezes campeão da Volta da França, mito do esporte que superou um câncer. Um sujeito que, em 2012, teve sua história desmascarada: Lance construíra sua vitoriosa carreira à base de estimulantes proibidos, programando meticulosamente os dribles para testar negativo nos exames. Virou sinônimo de trapaça.

Fogel reforçava sua convicção de que o sistema de detecção antidoping era falho, pois Lance havia testado negativo em cerca de 500 exames, e só foi descoberto porque seus colegas de equipe o deduraram em uma investigação federal. Fogel desejava provar sua tese. Decidiu então que também queria um “protocolo” de uso de doping que tornasse impossível aos exames apontar um resultado positivo.

Procurou Don Catlin, chefe do Laboratório Olímpico da UCLA, que havia avaliado 50 vezes a urina de Lance Armstrong, todas elas com resultado negativo. “A verdade é que é muito fácil burlar os exames”, declarou Catlin, visivelmente desapontado por não ter detectado tamanha fraude. O cientista se interessou pelo projeto de Fogel e prometeu ajuda-lo pessoalmente, mas declinou. Não sem antes apresentar Fogel a um velho conhecido: Grigory Rodchenkov, químico-chefe do Laboratório de Antidopagem da Rússia. Poucos contatos via Skype e Fogel e Grigory, um ex-atleta fanfarrão de corridas de fundo, simpatizaram um com o outro. Ficaram amigos e confidentes. Grigory orientou todos os passos do americano, emulando o protocolo de Lance.

A história dá uma guinada quando a rede de TV alemã ARD, no final de 2014, leva ao ar um documentário (The Doping Secret: How Russia Makes its Winners, dirigido por Hajo Seppelt) denunciando o esquema de doping de atletas russos patrocinado pelo governo de Vladimir Putin. Um dos personagens centrais é o próprio Grigory Rodchenkov, que se vê acuado e pede ajuda a Fogel. O russo passa a colaborar com a justiça dos EUA e abre para o New York Times, com detalhes, como montou um esquema de trapaça para manipular as amostras dos atletas russos e livrá-los de serem pegos no sistema antidoping, que ele próprio chefiava, durante os Jogos Olímpicos de Inverno, em Sochi, na Rússia. O escândalo levou o COI a proibir a participação de vários atletas russos na Olimpíada do Rio de Janeiro. O governo Putin nega até hoje que patrocinasse o esquema.

Para encurtar a história, Rodchenkov deixou a família na Rússia e hoje vive nos Estados Unidos, em local sigiloso, sob o Programa de Proteção a Testemunhas. Teme ser morto. Um dos principais acusados de comandar o esquema é Vitaly Mutko, então ministro dos Esportes da Rússia. Homem de confiança de Putin, ele hoje é, simplesmente, presidente da Federação Russa de Futebol e vice-primeiro ministro do país. Mutko acaba de ser banido pelo COI do Movimento Olímpico, e a Rússia proibida de participar dos próximos Jogos Olímpicos de Inverno, em PyeongChang, na Coreia do Sul. 

Ah, e Mutko é também o presidente do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2018. Essa mesma que Paolo Guerrero não vai poder jogar por conta dos chás que andou tomando para tapear a gripe. Tem coisa pra gente pensar aí ou não?