Renato Rodrigues

Renato Rodrigues

A má interpretação da posse de bola e os enganos trazidos pelos números frios no Brasil

Renato Rodrigues, do DataESPN
Getty Images
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola
Mourinho e Guardiola sempre travaram grandes duelos de times com e sem bola

O Campeonato Brasileiro de 2017 tem levantado um grande debate sobre a posse de bola. A discussão, que ganha destaque por nossa cultura que busca um futebol vistoso e primordialmente jogado com a bola, gera, na maioria das vezes, um tom bastante crítico. A grande questão, no entanto, é quando olhamos para estes números frios, que nunca dizem muita coisa. 

Aliás, este é um problema de como é tratada e feita a estatística no Brasil, quase sempre quantificando e não as qualificando as ações e eventos do jogo, o que geraria uma discussão muito mais profunda e conclusiva.

Cada vez mais se discute a qualificação do número no futebol pelo mundo. Em outros países a estatística já não é pautada simplesmente por desarmes, passes e finalizações, por exemplo. Conceitos de ExpG (expectativa de gol) e cálculos de velocidade de execução (tempo do domínio até a ação) são cada vez mais usados como métricas para se interpretar melhor os números e, consequentemente, o jogo em si. Mas ainda há muito a se explorar neste sentido, principalmente quando existem conceitos por trás de toda essa interpretação/elaboração dos números.

Então voltamos à posse de bola. 

São várias as falhas nas métricas deste quesito. O dado normalmente funciona com 63% para X e 37% para Y, por exemplo. Mas onde entra a bola que não está em jogo? Momentos em que equipes ainda se preparam para um lateral, um escanteio, tiro de meta ou mesmo o atendimento de um atleta lesionado. Não deveríamos então determinar algo para esse tipo de situação? E quando uma bola é quebrada no tiro de meta. Ela está viajando ainda, às vezes ainda fica viva em lances de 1ª e 2ª disputas. Onde computamos estes períodos no modelo que estruturamos tal dado?

Neste momento é de grande importância qualificar essa posse e isso pode ser feito de várias maneiras. 

Primeiro podemos abordar onde ela aconteceu. Este dado, aliás, apesar de ser medido por muitas plataformas, não é tão usado. Por exemplo, de nada adianta ficar com a bola se a circulação dela não chega ao último terço do campo - parte ofensiva se dividirmos o terreno de jogo em três (veja no vídeo abaixo). E porque também não classificar a entrada da posse nesta última parte do campo. Quanto de finalização foi gerada a partir disso? Quantas essa bola precisou ser tocada para trás? Por que isso aconteceu? Perdeu, errou ou mérito do adversário? São todas respostas bem vindas dentro de um processo e que saem do dado puro e simples. E podemos ir além. Quantos passe para frente, quantos para trás ou para o lado? Quantas vezes esses passes quebraram linhas de marcação?

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Outra pergunta interessante em cima da posse é: em qual velocidade a circulação da bola foi feita? No Brasil se passa muito, mas quase sempre se faz isso de forma lenta. Em entrevista ao blog, Roger Machado, ex-treinador de Grêmio e Atlético-MG, fala muito da necessidade dessa troca de passes alternar distância, velocidade e direção (clique aqui e veja). Vários estudos provam que, contra times bem organizados em fase defensiva, são estes mecanismos de alternâncias e movimentos que geram desequilíbrios e espaços para atacar (veja no vídeo abaixo o Corinthians com dificuldades para acelerar sua posse contra o Santos). 

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O exemplo acima do Corinthians de Fábio Carille também nos traz um outro questionamento. Durante o primeiro turno do Brasileirão os alvinegros, tidos com um estilo de jogo mais reativo, chegaram a ter um número intrigante: menos posse na maioria das partidas e maior número de troca de passes do campeonato. Mas como isso? O time que não gosta da bola é o que mais passa? Sim. Porque se passa rápido, muitas vezes de primeira e com muita objetividade. Não foram poucas as jogadas construídas assim e com a obrigação de se propor o jogo. Por serem ataques rápidos, muitas vezes essa posse do Corinthians era confundida com contra-ataque.

Mas forçar os passes, como dizem os treinadores, não é algo tão simples. Primeiro que a exigência técnica para fazer isso é alta. A confiança nas ações, principalmente no primeiro toque, domínio e passe, precisam estar num nível bastante desenvolvido. E isso bate muito com a naturalidade (ou não) do modelo de jogo da equipe, algo que só se consegue desenvolver com tempo e treinamento.

No Brasil, como bem sabemos, quando não se troca treinador a cada semestre (sendo bem otimista), se muda elenco. Então nem a coesão de uma forma de jogar é possível em várias ocasiões. Veja como tudo está interligado.

A forma de jogar de uma equipe também é muito preponderante para se interpretar posse de bola. São várias as maneiras de se ganhar um jogo e por isso, obviamente, diversas maneiras de jogar. O treinador trabalha em cima de uma escolha de modelo, geralmente feita ainda lá na pré-temporada. E para isso, é necessário também entender as características do seu plantel. Se você tem jogadores rápidos e de muita capacidade de jogar em transições, mas que não trazem consigo grande facilidade no jogo curto, como buscar um modelo de posse a todo custo? E pode acontecer no caso contrário. Não se pode exigir de jogadores com um perfil de passe, controle da bola e jogo apoiado, vitalidade para se envolver em contra-ataques mortais.  

Isso nos leva a seguinte conclusão: não adianta simplesmente ter a bola, mas sim saber o que fazer com ela. Como, quando, por onde...

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Então podemos avançar a um próximo passo: a leitura do jogo. A posse precisa ser sempre contextualizada. Primeiramente na questão do placar. Sair na frente ou atrás é um fato importantíssimo para se entender o número bruto, principalmente quando o gol acontece cedo. É muito comum que, quem está atrás no marcador, amplie sua posse. Neste momento também entram questões estratégicas. Muitas vezes é pré-determinado tal comportamento a partir de algum evento chave, como no caso do gol. Já em outras situações a ordem às vezes nem é de recuar e dar a bola ao rival, mas sim por uma imposição do mesmo, que pode passar a acontecer por diversos motivos. Lembrem que existem duas equipes em campo e não só a sua.

Perceba como é complexa toda essa reflexão e que cada caso é um caso. Um jogo de futebol nunca é igual ao outro. São sempre narrativas e acontecimentos diferentes, quaisquer eles sejam, e que podem mudar toda a interpretação da posse de bola. O mais importante é tentar sempre enxergar isso tudo dentro de um conceito, tentar entender cada contexto e levantar diferentes hipóteses.

Até por isso algo tem sido muito recorrente no futebol, inclusive brasileiro, nos últimos anos. Ao invés de usar plataformas que disponibilizam toda essa "numeralha" praticamente em tempo real, os clubes estão buscando uma saída bastante interessante. Não são poucas as comissões técnicas que produzem suas próprias estatísticas e métricas de jogo. E é aí que entra a Análise de Desempenho que tanto é falada no mercado atual.

Entender e fazer parte do processo é de grande importância. Até para saber o que vai se avaliar nesse contexto estatístico. Por exemplo: o treinador deu uma orientação ao seu centroavante que, quando a bola é passada para trás na saída do adversário e lateral/zagueiros ficam de costas para o restante do campo, é tarefa dele ir pressioná-lo. Ele, neste sentido, servirá como um sinal para o restante da equipe subir suas linhas e encurtar o campo. Ao fazer essa pressão no zagueiro/lateral que, por sua vez, toca a bola para fora, este jogador precisa ser recompensado, certo? Pois é. Se levarmos a estatística fria, ela será apenas computada como um passe errado do jogador pressionado. Mas não seria uma recuperação de bola/desarme do centroavante? E o defensor, não estaria fazendo o correto já que não tem opções de apoio? 

É por tudo isso que sou um pouco reticente aos números no futebol. Principalmente quando não há conceitos por trás deles. Obviamente que a estatística é uma grande ferramenta para medir e se chegar à algumas conclusões, mas ela nunca pode fazer isso sozinha. O entendimento do jogo precisa estar sempre ao lado. Quem tenta explicar o jogo apenas com os números, simplesmente não entende o jogo. 

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