Mauro Cezar Pereira

Mauro Cezar Pereira

As urnas e a lição que o futebol, que o Bom Senso FC dá à sociedade brasileira

Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br
Mauro exige atuação maior do Ministério dos Esportes e alguém diferente de Rebelo

O calendário é um dos maiores problemas do futebol brasileiro. E melhorá-lo uma das principais lutas do Bom Senso Futebol Clube, movimento encabeçado por jogadores de grandes times. Homens de sucesso, bem sucedidos, ídolos de milhões de torcedores, atletas de destaque e que demonstraram, além disso tudo, que são cidadãos.

Caras que comprovam caráter ao defenderem um futebol melhor, mas não especificamente para eles. Por que seria mínimo o problema do nosso esporte caso se resumisse ao excesso de jogos e às partidas disputadas simultaneamente aos compromissos da seleção brasileira. Há questões bem maiores, como texto que pode ser lido no site do Bom Senso deixa claro:

"A maioria dos clubes do país joga em média apenas 17 partidas por ano. Cerca de 16 mil atletas ficam desempregados ao final dos estaduais por falta de um calendário mais democrático e inclusivo. Em contrapartida, os times da elite podem jogar até 85 jogos em uma mesma temporada.

Este desequilíbrio traz inúmeros malefícios ao futebol brasileiro, como por exemplo a dificuldade dos clubes de menor expressão se estruturarem, se desenvolverem e se tornarem economicamente auto suficientes. Na outra ponta, o calendário faz com que os grandes clubes do país sofram com o alto índice de lesões de seus atletas e com a ausência de seus principais jogadores durante as datas FIFA.

Esta confusão tem atrapalhado o aprimoramento técnico, tático e físico do futebol praticado no Brasil e, por este motivo, é necessário desenvolver um novo calendário para garantir um futebol de melhor qualidade para os grandes e de maior sustentabilidade para os pequenos".

Gazeta Press
Jogadores do São Paulo e Botafogo ajoelhados durante ato de apoio ao movimento Bom Senso FC em 2013
Jogadores do São Paulo e Botafogo ajoelhados: ato de apoio ao Bom Senso FC em 2013

Isso. Os jogadores de sucesso, dos times grandes, brigando por atletas de equipes pequenas, que ficam a maior parte do ano sem emprego. Para que tenham trabalho pelo ano inteiro. Seria mais simples para eles reivindicar apenas o melhor para si. Contudo, essa turma vai além. Demonstração de grandeza e generosidade.

Um exemplo que esses jogadores de futebol nos dão abrindo uma frente de batalha contra a cartolagem para que toda a categoria possa jogar futebol o ano inteiro, viver do futebol o ano inteiro, trabalhar com futebol o ano inteiro. Nesse momento em que se encerram as eleições, seria magnífico se pelo menos parte de nossa sociedade refletisse na mesma direção.

Que eleitores raivosos se acalmem após transformarem a ida às urnas numa guerra maniqueísta e de baixo nível. E pensem no todo. Não apenas nos problemas pessoais, de sua vizinhança, mas também naqueles que não têm perspectiva, que vivem abaixo da linha da pobreza, e que ainda são de dezenas de milhões.

Em 1980, ainda com os militares no poder, o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil era de 0,549. No primeiro ano do PSDB na presidência com Fernando Henrique Cardoso, ficou em 0,634. E hoje Dilma Roussef é reeleita com a marca de 0,744. Não é mérito maior de petistas ou tucanos. Ele sobe aos poucos.

Esta é uma continuidade que não deve ser observada por meio de cores de partidos. Ela precisa é ser acelerada, pois o Brasil ainda está em 79º lugar. O ranking do IDH é liderado pela Noruega, cujo índice é de 0,944. Uma economia como a brasileira não pode tolerar tal posição. E um país que é identificado pelo seu futebol (apesar dos 7 a 1) não pode ter milhares de jogadores sem emprego por mais de meio ano.

Mauro Cezar: "Jogadores de futebol estão à frente dos atletas do vôlei..."

Quando reivindicarmos aos políticos no poder, que tal pedir um país melhor? Sem tanta desigualdade social, pois ela ainda é imensa por aqui. Somos uma das nações com pior distribuição de renda no planeta. E isso não é obra desse ou daquele partido, mas de todos que poderiam ter feito melhor no passado. Os que estiveram no poder. E todos os que ainda dão seqüência à semi-escravidão, explorando empregados, pagando mal, tirando o máximo deles para dar a si mesmo e aos seus muito mais do que precisam.

Se você passou as últimas semanas defendendo um Brasil melhor, independentemente do seu voto de hoje, procure fazer sua parte a partir de agora. Respeite as pessoas, não seja agressivo no trânsito, pense coletivamente, não trate os menos favorecidos como se fossem seres invisíveis. Diga bom dia, torça pelo seu time fervorosamente, mas aceite críticas a ele e suporte a torcida do rival. Não seja preconceituoso.

Ande de ônibus, trem, metrô, moto, bicicleta. Tire o carro das ruas uma vez ou outra pelo menos, para melhorar o trânsito. Não desperdice água. Ajude alguém sempre que puder. Doe para instituições como Médico sem Fronteiras. Vamos levar alguma lição disso tudo. Pois independentemente do eleito, não se iludam, o "jogo" da política seguiria do mesmo jeito de sempre. Mas é possível que, se a sociedade for mais atuante, eles, políticos, sejam mais cobrados. Isso pode dar algum resultado. Quem sabe?

Tenhamos, todos, bom senso.

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