João Lacerda

João Lacerda

Um medo que nos consome | Bike é Legal

João Lacerda

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Ciclistas invadem estacionamento de shopping com um motivo claro, constranger a administração do centro de compras por ter inaugurado o espaço sem proporcionar um local seguro para o estacionamento de bicicletas. Ainda que houvesse um moderno sistema de indicador de vagas para os carros.

Corria ainda o ano de 2009 e pouco tempo depois foi instalado o bicicletário. Vitória no grito de um grande grupo de ciclistas que queria acima de tudo diversão em bicicleta no meio da massa crítica.

Já em 2014, em um dos mais luxuosos templos de consumo de São Paulo, protegido enclave dentro da parte nobre da cidade fechou suas portas face a ameaça não concretizada de um simples evento criado no facebook, ao que aparentemente ninguém foi. Ficou evidente a segregação urbana de uma cidade blindada contra quem não tenha o poder aquisitivo necessário de circular pelos bairros e por seus espaços coletivos.

Certo, shopping não é espaço público, mas é o espaço de diálogo social possível aos que foram ensinados a ter no consumo sua cidadania. Comprar é mais do que necessidade é a fé de que somos aquilo que conseguimos ter.

Reprodução
Ter pra que?
Ter pra que?

Ainda hoje, o asfalto é sonho almejado para quem vive longe do centro expandido. É pelo asfalto que as pessoas sentem-se incluídas na cidade, por eles é possível trafegar no símbolo de ascensão social máximo, o automóvel.

Infelizmente, a depender da cidadania pelo consumo, as desigualdades urbanas tendem a se manter e até a se agravar. O mesmo asfalto que aproxima as periferias espalha a cidade e expulsa os mais pobres para cada vez mais longe, em áreas de ocupação sempre precária.

Basta lembrar na valorização imobiliária que ocorre com a chegada de uma nova estação de Metrô em áreas centrais da cidade.

Em tempos de rolezinho e de zoeiras que se tornam protestos, vale sempre lembrar o símbolo de igualdade que representa uma bicicleta. Cidade que pedala é aquela que integra moradia e trabalho em espaços mais compactos, tem transporte público de qualidade para que todos possam cruzar grandes distâncias.

Uma cidade que seja para todos certamente irá precisar encarar de frente os desafios da exclusão, o privilégio dos espaços públicos e privados apenas acessíveis aos que foram privilegiados com o poder econômico.

Leituras e vídeos para continuar a discussão:

- Os novos "vândalos" do Brasil, Eliane Brum - El País
Rolezinho é ação afirmativa contra racismo - Bruno Cava - Quadrado dos loucos
Funk Ostentação - O Filme
- Hiato - documentário sobre protesto de sem teto em shopping no Rio de Janeiro