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Centro desportivo que recebeu Popó, Maguila,Thiago Pereira, Gustavo Borges e Pan está abandonado

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Memória: 'Primeira luta feminina oficial de Boxe do Brasil foi disputada no Baby Barioni' (2:37)

Local recebeu diversas momentos importantes do esporte nacional desde a década de 1930 (2:37)

Palco de lutas de boxeadores do calibre do campeão mundial Popó. Dos medalhistas olímpicos Esquiva e Yamaguchi Falcão. Das braçadas do campeão olímpico Thiago Pereira. E do também medalhista Gustavo Borges.

O Centro Desportivo Baby Barioni (pronuncia-se Babi), na Água Branca, zona oeste da capital paulista, está abandonado.

Fechado para reformas em 2014, com vistas a se modernizar para servir de local de treinamentos para os Jogos Paraolímpicos do Rio, em 2016, o centro está em avançado estado de degradação. E, embora exiba placas dizendo que está em reforma, o fato é que o Baby Barioni, palco de competições nos Jogos Pan-Americanos de 1963, está lacrado e caindo aos pedaços. E ninguém está trabalhando na obra.

Segundo outra placa que permanece à frente do Complexo, R$ 14,77 milhões, via financiamento da Caixa Econômica Federal, foram destinados a "restauros, reforma, adaptação e acessibilidade do Conjuntos Desportivo Baby Barioni". A mesma placa diz ainda que as obras deveriam acontecer entre 25 de junho de 2014 e 12 de agosto de 2016.

Do que era previsto, apenas parte foi feito. Um ginásio, vestiários e espaços administrativos foram reformados. Mas, na área externa, existem materiais de construção e entulho abandonados. Os prédios, que costumavam servir de alojamento para vários atletas de outras partes do Brasil, têm rachaduras. As piscinas, uma interna e duas externas, estão com água parada. Uma das quadras virou depósito.

O prédio que abriga a piscina olímpica, a primeira coberta e aquecida do Estado de São Paulo, projetado por ninguém menos que o Oscar Niemeyer, tem rachaduras por toda sua extensão. E o prédio de alojamentos tem até árvores germinando em suas rachaduras.

O fechamento, além de degradar um espaço nobre da cidade - havia lixo e muitas bitucas de cigarro, inclusive de maconha, jogadas em seu jardim exterior, quando ele foi visitado pelo ESPN.com.br -, deixa órfãos o boxe nacional, além de fechar a porta de entrada de vários atletas iniciantes. Aulas de 14 modalidades eram dadas gratuitamente para crianças a partir de 6 anos e adultos no local.

(Nota: o nome "Baby Barioni" homenageia Horácio G. Barioni. Descendente de italianos, carinhosamente chamado de “Baby”, ele foi jogador de “bola ao cesto” e cronista esportivo, além de incentivador e idealizador dos Jogos Abertos do Interior, em 1936.)

BERÇO DO BOXE

Aos 93 anos, Newton Campos, lendário presidente da Federação Paulista de Boxe, lamenta o fechamento do Baby, onde por muitas décadas aconteceram a "Forja de Campeões", o mais célebre torneio amador de Boxe, responsável pela revelação de diversos atletas, e o "Luvas de Ouro", outro importante torneio da modalidade.

"Miguel de Oliveira, Maguila, Servílio de Oliveira, Popó: os melhor lutadores dos últimos 50 anos passaram por lá", afirmou Campos, em entrevista à ESPN.

"E o pior é que a gente não consegue nenhuma informação sobre quando vai ser reaberto", diz ele, que conta com o apoio de clubes filiados à entidade, como o Pinheiros, que cedem suas dependências para manter vivas as disputas.

"Lutei lá contra o Tomás da Cruz", contou à ESPN Popó, falando sobre o combate que fez em 1998 pelo cinturão brasileiro dos médios contra o lendário e, àquela época, já veterano oponente.

"Mas assisti a outras lutas por lá, também. Era um local que reunia muitas pessoas ligadas ao boxe, sempre tratado com importância. É uma pena que esteja fechado", diz ele.

Foi no Baby Barioni também que Edmilson Lima Santos, o Maguilinha, meio-pesado, filho de Maguila, enfrentou o pugilista Laudelino José Barros - com o campeão no corner, em 1997.

Um ano antes, o local recebeu também a primeira luta de boxe feminina oficial no Brasil entre as lutadoras Cristiane Bibiane e Julice dos Santos, vencida pela segunda.

No âmbito completamente amador, o espaço também serviu como primeiro contato de atletas com uma piscina olímpica e competições. O complexo de natação do Defe (Departamento de Educação Física) foi a escola de natação de muitas crianças da cidade, em especial dos bairros de Perdizes, Barra Funda e Pompéia, adjacentes à Àgua Branca.

No auge, mais de 3500 pessoas chegaram a desfrutar do local.

BUROCRACIA

O ESPN.com.br procurou a Secretaria de Esporte do Estado de São Paulo para tentar entender os motivos do atraso na realização da reforma.

Por meio de uma nota oficial, o órgão comandado por Aildo Rodrigues Ferreira explica que a questão é burocrática e envolve também a Caixa Econômica Federal, com quem tem se reunido, desde o início do ano, para derrubar entraves.

Mas, em outras palavras, o contrato que garantia o repasse para as obras simplesmente não existe mais. Ou seja: a reforma não tem prazo, tampouco orçamento, para ser retomada.

"A primeira reunião ocorreu na primeira quinzena de janeiro para expor os problemas de formalização. Na segunda, realizada em 19 de fevereiro, na Secretaria de Governo, a Caixa pontuou os procedimentos para regularização do contrato de repasse. Dentro do prazo estipulado de dez dias, a Secretaria de Esportes atendeu à solicitação e enviou o replanilhamento do processo e os relatórios técnicos enviados pela Construtora Roy Ltda. e CPOS, para que os documentos pudessem ser analisados", diz a nota.

No dia 7 de março, foi protocolado o recebimento de um documento, enviado por Sedex, com data retroativa de 8 de janeiro, informando a rescisão do Termo de Contrato de repasse.

No dia seguinte (8/3), o chefe de gabinete da Secretaria de Esportes Jefferson Nogoseki enviou um e-mail à Caixa desconsiderando a anulação.

Na terça-feira passada (2), o chefe de gabinete recebeu documento informando que o contrato fora revogado pela Caixa Econômica Federal devido à extrapolação do prazo de vigência, impedindo a sua prorrogação.

A secretaria, contudo, não entrou no mérito de por quê a obra não foi concluída no prazo inicialmente estipulado, pelas gestões anteriores.

Também por meio de nota oficial, a Caixa econômica diz:

"A Caixa informa que no caso em questão, a validade do contrato se encerrou sem que fosse encaminhado ao banco o Termo Aditivo. Esclarecemos que a Caixa atua nos contratos de Repasse como Mandatária da União em obediência ao regramento estabelecido pela legislação e pelos ministérios, inclusive prazos de vigência."

Na época da contratação, assim como atualmente, com João Dória, a gestão do Baby Barioni era responsabilidade do PSDB - gestão Geraldo Alckmin.

José Auricchio Júnior (PSDB, 2013 a 2014), Jean Madeira (PRB, 2014 a 2016) e Gustavo Maiurino (Delegado Federal, 2016 a 2018) foram os secretários estaduais durante o período em que as obras deveriam ter sido concluídas.

Maiurino é hoje subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado de Segurança Pública de Wilson Witzel, no Governo do Rio de Janeiro.

Jean Madeira é pastor licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e Vereador em São Paulo.

Seu antecessor, Auricchio, é prefeito de São Caetano.