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Sem patrocínio, segunda maior equipe de atletismo do Brasil corre o risco de fechar as portas

Atletas da Orcampi Unimed celebram conquista de medalhas em 2015. Divulgação

Não bastassem os problemas de corrupção que assolaram a Confederação Brasileira de Atletismo, (CBAT) e a Federação Paulista da modalidade, (FPA), investigadas por suspeitas de desvio de dezenas de milhões de reais de dinheiro público, agora a péssima notícia vem de Campinas, no interior de São Paulo, onde a segunda maior equipe do atletismo de alto rendimento do país corre o risco de morrer e desempregar mais de 100 atletas, técnicos e profissionais da área.

A notícia vem da classe de atletas que nos procurou para informar que lá no Orcampi Unimed os salários estão atrasados e que não há nenhuma expectativa de que eles sejam pagos. Entre os atletas afetados pela grave crise da equipe estão competidores olímpicos e nomes como o de Frank Caldeira, campeão pan-americano de 2007 e vencedor da maratona de Nova Iorque do mesmo ano.

O fim de um gigante

Até o último troféu Brasil de 2018 a equipe Orcampi Unimed tinha cerca de 100 atletas inscritos no torneio mais importante do nosso país.

Para se ter uma ideia do tamanho dessa equipe, o medalhista de ouro Thiago Braz conquistou o feito no Jogos do Rio 2016 sob o patrocínio da equipe de Campinas.

Acontece que a fonte de patrocínio da poderosa equipe secou e a verdade é que, hoje, se a equipe não conseguir um parceiro forte para bancar o alto-rendimento, as portas do time serão fechadas, definitivamente.

Segundo informações de vários atletas, desde fevereiro de 2019 os salários de todos estão cortados e muitos nem sabem o que farão da vida com a notícia.

Segundo o presidente da equipe, Ricardo Dangelo, mais de 60 atletas deixaram de treinar com a equipe por falta de salários.

A reportagem do ESPN.com.br entrou em contato com o dirigente. Leia o que ele respondeu quando perguntado porque a Orcampi Unimed não está pagando mais os salários aos atletas.

“Os salários não estão atrasados, eles simplesmente não existem, pois não temos patrocinadores para a equipe ORCAMPI para o alto rendimento em 2019. Todos os atletas receberam seus salários em janeiro, referente a dezembro de 2018, e mesmo ao término de 2018, todos os treinadores foram avisados que não teríamos recursos diretos (dinheiro bom, como se diz no meio) para sustentar o tamanho da equipe herdada da extinta B3. Como se sabe, a B3 patrocinou a equipe ORCAMPI em 2018 por conta da migração de seus atletas para aquela agremiação, entretanto, esses recursos eram suficientes para apenas uma temporada (2018). Nesse cenário, orientamos os atletas a terem liberdade para seguirem os caminhos que melhor lhe convierem, alguns se aposentaram, outros se transferiram para outras equipes, outros estão por conta própria e outros se transformaram em guias de atletas paralímpicos. Os que permanecem conosco, ao redor 30 a 40 atletas, são resilientes a ponto de se submeterem a trabalhar sem salário do clube.” , afirmou Ricardo.

Diante desse cenário devastador o dirigente tenta explicar a origem e o destino das verbas de patrocínio, hoje completamente escassas e o dinheiro que vem das Leis de incentivo ao esporte. Ricardo ainda entra no assunto do desenvolvimento da base, na formação de crianças de 11 a 18 anos que terão o projeto garantido apenas para o ano de 2019.

“No ano de 2018 competimos no Troféu Brasil com 100 atletas e são esses os que consideramos de "alto rendimento", hoje a redução é significativa, cerca de 60% no quadro de atletas. Por outro lado, estamos desde outubro de 2018 mantendo contato com potenciais apoiadores, empresas alinhadas com o perfil de investimento na ferramenta mais eficaz de formação do jovem: o esporte, porém, infelizmente, sem sucesso até o momento. Por meio de projetos de Lei de Incentivo, temos aprovado e já captado recursos na Lei Estadual e Federal, os quais estão em fase de liberação por essas esferas governamentais. Tais recursos serão suficientes para sustentar o belíssimo trabalho que fazemos aqui no Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima (IVCL) e na ORCAMPI nas categorias de base. Atendemos aproximadamente 120 jovens entre 11 e 19 anos. Ainda a respeito do mencionado acima, sobre os projetos de Lei de Incentivo, é importante destacar que os mesmos apresentam limitações para o investimento em alto rendimento, por exemplo, a LPIE (ICMS) não prevê pagamento de salários aos atletas, já na LIE (IR), as bolsas auxílio tem teto de R$ 2.400,00, sendo que o atleta não poderá receber nenhum outro benefício oriundo do mesmo projeto (transporte, alimentação, hospedagem, material esportivo, etc), entre outras limitações.”, decretou o presidente da Orcampi.

Tempos sombrios

Há quase 45 anos no atletismo, Dangelo não consegue enxergar um momento positivo que poderá salvar o atletismo brasileiro. De qualquer forma, ele não desiste e segue batendo de porta em porta pedindo uma parceria que possa salvar, não só os atletas que ainda estão em atividade, mas principalmente as gerações que certamente estarão comprometidas nas Olimpíadas que virão após Tóquio, no ano que vem. Portanto, leia com atenção o triste diagnóstico que o dirigente de mais uma equipe fadada à falência tem para falar.

“Entre tempo de atleta e treinador, estou no atletismo desde 1975 e nunca vivi momento pior que o atual. As instituições gestoras da modalidade demonstraram, a partir dos acontecimentos recentes, falta de respeito, má fé e indiferença com a comunidade atlética. Os reflexos serão sentidos a médio e longo prazos, uma vez que os bons resultados da temporada passada estão apoiados em projetos e trabalhos iniciados 10 anos atrás (Clube BM&F Bovespa, por exemplo). A falta de um projeto de desenvolvimento da modalidade, com diretrizes desde a base até o alto rendimento, apoiado em uma política estrutural e financeira bem definida, comandado por pessoas sérias, nos leva a não projetar perspectivas positivas a curto, médio e longo prazos.

Para os ciclos Tóquio (2019-2020) e Paris (2021-2024) a equipe ORCAMPI está em busca de parceiros e apoiadores para encaminhar seus atletas ao mais alto nível do atletismo internacional. No Rio 2016 a equipe contou com 8 atletas na seleção olímpica, sendo um deles o medalhista Thiago Braz. Temos um corpo técnico da mais alta qualificação, sob a mentoria do atleta Vanderlei Cordeiro de Lima, medalha de bronze em Atenas 2004. Trabalhamos apoiados no conceito de educar por meio do esporte, acreditando que podemos transformar jovens e formá-los integralmente, da base até o alto rendimento no atletismo nacional e internacional.”, concluiu o presidente da segunda maior equipe de atletismo do Brasil que aos poucos está se desmantelando.

O desabafo do dirigente representa o sentimento de muita gente que vive e ama o atletismo, gente que corre atrás não só de resultados, mas principalmente de um prato de feijão com arroz para a auto-sustentação. O atletismo merece todo o nosso respeito e olhar porque é um esporte acessível, pois toda criança pode correr, saltar e disputar uma prova, mesmo que seja na terra, mesmo que esteja descalça.

Que os “homens do esporte” pensem nisso e que honrem os nomes e os feitos de grandes ídolos do esporte como Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Nélson Prudêncio, Joaquim Cruz e outros tantos que suaram litros e derramaram muitas lágrimas por esse tão nobre esporte.

Que o dirigente, Ricardo Dangelo também leve essas ideias. Sugestões e críticas às assembleias promovidas pela CBAT onde, segundo informações ele não costuma dar as caras.

Que haja luta, transparência, fiscalização e respeito com o pobre e mal tratado atletismo brasileiro.

Em nota, a Secretaria Especial do Ministério da Cidadania respondeu à reportagem dos canais ESPN. Confira:

A Secretaria Especial do Esporte do Ministério da Cidadania não formalizou nenhum convênio com a ORCAMPI, núcleo esportivo do Instituto Vanderlei Cordeiro de Lima.

A entidade tem dois projetos em execução apoiados pela Lei de Incentivo ao Esporte (11.438/2006). Cabe ressaltar que, pelo artigo 2º, § 2º desse instrumento, é vedada a utilização dos recursos para o pagamento de remuneração de atletas em qualquer modalidade desportiva.

Desde a criação da Lei de Incentivo, o instituto apresentou dez projetos. Além dos dois em execução, três estão com prestação de contas em análise, um em captação, três já finalizados e um rejeitado pela Comissão Técnica da Lei de Incentivo ao Esporte.

Att Assessoria de Comunicação da Secretaria Especial do Esporte