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Para Bob Burnquist, Olimpíada é oportunidade de crescer, e medalhas serão consequência: 'O skate é maior que isso'

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Bob Burnquist faz sessão em pista inaugurada por ele em Florianópolis (1:26)

Inauguração faz parte de projeto de popularizar modalidade no país (1:26)

Bob Burnquist não queria ser presidente da Confederação Brasileira de Skate (CBSk), cargo que ocupa desde setembro de 2017.

"Caiu no meu colo. Puta cadeira quente", disse ele, entre risos, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br. "A primeira resposta que eu dei foi não. Mas, depois, pensei: se eu não fizer nada, não vou poder reclamar", conta.

E foi assim que o maior skatista brasileiro de todos os tempos se tornou o líder da primeira ida do skate brasileiro a uma olimpíada, em Tóquio-2020. O que acaba sendo justo, dada a representatividade dele como atleta e aquilo que ele pode ajudar o esporte a conquistar nesta jornada.

É com ele capitaneando a confederação e a seleção que o skate pode ser o carro-chefe da delegação brasileira no ano que vem. Ao lado de Judô e Vôlei (praia e quadra), o esporte sobre rodas tem tudo para ser um grande ímã de medalhas. Algo que Burnquist, na realidade, coloca em segundo plano.

"Medalhas vão ser consequência. A Olimpíada é uma consequência. Em todo evento, nossos atletas pegam pódio, então, provavelmente ganharemos medalhas", reconhece. "Mas esse não é o nosso objetivo máximo. O que queremos é fazer o skate crescer", diz.

"Falo para os caras irem lá e injetarem a alegria do skate brasileiro, mostrarem nossa alegria com o skate no pé, a emoção, a garra e o coração. Se voltarem com medalha, beleza", conta.

"O esporte olímpico, a gente está trabalhando agora. Mas o skate é maior do que isso", afirma. "O importante é que a questão olímpica será um impulso ao skate que não vai mais parar" .

"Quem teve a ideia (de eu concorrer ao cargo) foi o Duda (o profissional de marketing e praticante Eduardo Musa), que hoje é meu vice", conta. "Estávamos em vias de perder verba e espaço para outra confederação e ele acreditava que eu pudesse influenciar politicamente nessa questão", diz Bob, em relação à disputa com a Confederação Brasileira de Hóquei e Patins (CBHP).

De imagem e representatividade, afinal, Duda, que já foi marqueteiro de Neymar, entende.

Em janeiro de 2017, o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) determinou que caberia à CBHP liderar o time do skate brasileiro em Tóquio. O que descontentou os praticantes brasileiros de alto nível, há muito tempo filiados à CBSk. Com a entrada de Bob, que tinha a seu lado os melhores atletas da modalidade, como Letícia Bufoni e Pedro Barros, o COB acabou reconhecendo a entidade presidida por Burnquist.

"Se posso fazer diferença e falo não, viro a cara para o skate. Convidei o Sandro Dias (Mineirinho, diretor de esportes da CBSk) e outros e pensei: se vamos todos juntos, então vamos", diz.

OPORTUNIDADE PARA CRESCER

O agora dirigente não quer ficar muito tempo na posição.

"Tenho muita coisa pra fazer como skatista ainda, minha ideia ainda é evoluir, competir, continuar na mesma pegada. Vamos trabalhar esse momento agora, por enquanto", diz, sem conseguir disfarçar um certo orgulho (justo) inerente ao cargo.

Bob concedeu entrevista enquanto inaugurava uma pista pública de skate em Florianópolis, no projeto em que toca com parceria com a BV Financeira, marca de varejo do Banco Votorantim.

"A ideia é reformar pistas pelo País em parceria com meu projeto 'Burnkit', de pistas modulares que podem ser instaladas em quadras poliesportivas de escolas públicas", conta. "Vamos aproveitar essa empolgação olímpica para inaugurar o máximo de pistas possíveis pelo Brasil. É uma oportunidade muito grande", diz.

Oportunidade de crescimento é o maior ganho da transformação do skate em modalidade olímpica, na visão de Burnquist, que nem vê aspectos negativos decorrentes da inclusão no programa olímpico.

"O skate tem bastante espaço para crescer em várias vertentes. A gente tinha essa preocupação, 'pô, agora a gente vai ser só olímpico, vamos perder nossa identidade', mas não. Essa é só uma das oportunidades. Quem estiver na pegada de ser olímpico, vai seguir. Quem não estiver, vai procurar outro caminho", acredita.

Quem resolver se dedicar ao skate olímpico, crê Bob, terá como maior dificuldade a questão do doping. Mas se engana quem pensa que ele se refere à maconha, por exemplo.

"Como nunca tivemos que nos preocupar com isso, o skatista não sabe nem se pode tomar uma Neosaldina", diz. "O que disse ao pessoal é 'não tomem nada sem consultar o médico da confederação. Se estiver com dor na unha, consulte alguém antes de se medicar'", revela.

Médico e nutricionista, aliás, são profissionais que passaram a fazer parte da CBSk depois da chegada de Burnquist, que assegurou o recebimento da verba que o COB destina às confederações pelo mecanismo da Lei Agnelo Piva (cerca de R$ 800 mil em 2019).

Com ele, chegou também o patrocínio da Nike. E Burnquist quer mais.

"Vamos procurar patrocinadores privados. Estamos atrás de um banco, por exemplo, e já sabemos que não será nem Banco do Brasil nem Caixa", diz ele, ao comentar o desinteresse do Governo Federal, manifestado via Ministro da Economia, Paulo Guedes, de usar verba de marketing dos bancos públicos para apoio ao esporte.

"Se o Paulo Guedes ajudar, ele ajuda. Se não, ele não ajuda. O skate sempre sobreviveu sem dinheiro", diz.