<
>

Servílio relembra como foi de 'peão de fábrica' a 1º medalhista olímpico do boxe brasileiro há 50 anos

Sozinho, como há meio século, Servilio Sebastião de Oliveira, 70, pegou o passaporte, dirigiu-se ao aeroporto e embarcou para a Cidade do México. Lá, voltou a encontrar nomes do esporte que conheceu em 1968. Reviu palcos de glórias olímpicas. E recebeu homenagens. Além de uma aventura para contar, ele também fez uma viagem no tempo.

Foi em solo mexicano que Servílio conquistou o bronze olímpico na categoria mosca, em 24 de outubro de 1968, o que fez dele o primeiro pugilista brasileiro medalhista nos Jogos. Durante 44 anos, ou seja, até a Olimpíada de 2012, ele permaneceu como o único nessa condição.

O motivo que, 50 anos depois, o levou de volta ao país de uma das suas maiores glórias foi um convite do comitê olímpico local (com indicação feita pelo COB) para participar dos festejos do cinquentenário da Olimpíada de 1968.

"Tive de esperar 50 anos para receber a melhor homenagem da minha vida. Tive a felicidade de representar nosso país nos festejos do México e tive a grata satisfação de conviver e de rever amigos", disse Servílio para a ESPN Brasil.

Um dos encontros foi com Ricardo Delgado, o mexicano que o derrotou na semifinal dos Jogos de 1968.

Também esteve junto do queniano Kipchoge Keino, que há 50 anos foi campeão nos 1.500 m; do americano Bob Beamon, campeão e recordista mundial e olímpico em 1968 no salto em distância; e do americano Dick Fosbury, primeiro atleta a utilizar a técnica de saltar de costas no salto em altura. Ele também foi campeão olímpico naquele ano.

Ainda teve um encontro com Enriqueta Basilio, a primeira mulher a acender a pira olímpica.

O peão que virou lutador

Servílio de Oliveira nasceu em 6 de maio de 1948 no bairro do Ipiranga, em São Paulo. O parto foi na casa dos pais, com ajuda de uma parteira, como era comum na época. Foi o sétimo filho de um total de 13 irmãos (sete homens e seis mulheres)

"Meu pai era um simples pedreiro. Minha mãe era uma simples dona de casa. Naquela época, nas famílias humildes como era a minha, o sujeito estudava até o quarto ano e já recebia um diploma. Eu com 11 anos recebi um diploma. Depois meu pai me colocou para aprender mecânica. Eu também fazia carreto na feira. Comecei a trabalhar muito cedo", disse Servílio.

"Com 17 para 18 anos, eu fui convidado pelo senhor Antonio Angelo Carollo para trabalhar na Pirelli. Naquela época, você não tinha no Brasil leis de incentivo ao esporte. Quem mantinha os atletas eram empresas que tinham departamento de esporte. E foi na Pirelli que eu me desenvolvi, mas tinha de trabalhar. Eu entrava às 8h e ficava até às 17h. Depois desse horário é que eu ia para o treinamento. Eu era peão de fábrica", relembrou.

Servílio entrou na Pirelli em 25 de novembro 1966, após ter conquistado o torneio Forja de Campeões, promovido pelo jornal "A Gazeta Esportiva". Trabalhou na expedição condutores e depois no laboratório merceológico.

Inspiração em Éder Jofre

A motivação para o medalhista iniciar no esporte foi Éder Jofre, campeão mundial em 1960 e o melhor brasileiro da modalidade. Servílio começou a praticar boxe por volta dos 17 anos ao lado dos irmãos.

Ao longo da carreira como pugilista amador, ele colecionou mais vitórias do que derrotas. Classificou-se aos Jogos Olímpicos de 1968 tendo 20 anos, com dois títulos de Campeonato Paulista, uma participação no Pan-Americano de Winnipeg e um Torneio Latino-Americano.

Aliás, foi este último que o credenciou para disputar a Olimpíada, algo que por pouco não aconteceu.

"Na época, o Comitê Olímpico Brasileiro não queria mandar ninguém do boxe por falta de verba. Eles tinham dito que os boxeadores que tivessem bom resultado no Latino-Americano no Chile iriam representar o Brasil. Nós fizemos quatro campeões lá. Depois de muita dificuldade eles decidiram mandar somente dois boxeadores, o Expedito Alencar e eu".

A medalha olímpica

"Eu sempre soube que os Jogos Olímpicos são o máximo. São a melhor e a maior manifestação esportiva do mundo".

É assim que Servílio define o que viu e o que passou a admirar desde 1968. E ele nem se considerava um candidato ao pódio.

"Era totalmente utópico para mim. Eu sabia que eu era muito novo. Tinha apenas dois anos de boxe, poucas lutas, embora eu até soubesse que eu já tinha um certo potencial", disse Servílio, que fez três lutas em solo mexicano.

"A primeira luta que eu fiz foi contra um boxeador de um país que não tem muita trajetória, mas o cara era bravo. Foi o turco Engin Yadigar. A segunda luta foi contra um lutador de Gana: Joseph Destimo. Ele havia vencido um canadense por nocaute. E quando veio lutar comigo ele veio para me nocautear. E ele me deu uma direita muito pesada na minha cabeça. Eu senti a mão dele. Pensei: ‘Com esse cara aqui vou ter que tomar cuidado’. Ele era muito mais alto do que eu. Eu procurei encurtar a distância. Trabalhei duro na linha da cintura dele, na zona hepática. Dei dois KOs em pé e sai vencedor por pontos", disse Servílio.

A terceira luta foi válida pela semifinal e foi contra o mexicano Ricardo Delgado. Servílio perdeu por pontos. Como não havia disputa de terceiro lugar, ele acabou premiado com a medalha de bronze ao lado de Leo Rwabwogo, de Uganda, derrotado na outra semifinal.

Para muitos, Servílio foi o legítimo vencedor naquele dia 24 de outubro de 1968, mas acabou prejudicado pela arbitragem do francês Gondrez.

Os jurados também teriam dado peso maior ao mexicano, com os placares: 60 x 57; 60 x 56; 60 x 57; 60 x 59; e 59 x 57.

O técnico Antonio Carollo não aceitou a derrota do pupilo e no mesmo dia afirmou que ele fora roubado.

"Nunca vi atuação tão vergonhosa como a do árbitro francês, que somente não permitiu que o mexicano desse pontapés", disse Carollo, em depoimento reproduzido no jornal "O Estado de S. Paulo" de 1968.

"Eu acho que eu poderia ter chegado mais longe. Eu assisti a luta muitas vezes e o que vejo sou eu indo para frente, colocando a mão no adversário... Acho que eu poderia ter tido o braço erguido, mas como estava em solo mexicano... Para sair vencedor na terra do adversário, você tem de ser realmente superior. Não deixar dúvidas da sua vitória", disse Servílio, 50 anos depois, sem mágoas.

Black Panthers e lições

Foi na Olimpíada de 1968 que Servílio de Oliveira, então um jovem de 20 anos, se deparou com os Black Panthers e o movimento Black Power (gesto em que o braço fica estendido e o punho enluvado permanece fechado).

Tommie Smith e John Carlos, que ganharam a medalha de ouro e de prata nos 200 m rasos, respectivamente, foram os primeiros a fazer o gesto ao subirem no pódio. A imagem se repetiu outras vezes e entrou para a história.

"Eu era um ignorante político na época. Não tinha dimensão do que aquilo significava. Fui entender anos depois. Eles tinham uma mente melhor, mais voltada para a política. Eram melhor informados. Eram professores de educação física. E eles usaram aquele gesto para dizer: 'Nós negros ganhamos medalhas para o nosso país, nós levamos nosso país nas costas e somos discriminados'", disse Servílio.

"Percebi a diferença com o boxeador George Foreman. Ele ganhou a medalha de ouro [como peso pesado]. Na celebração, pegou uma bandeirinha dos Estados Unidos, foi aos quatro cantos do ringue e acenou para o público. Esse foi o contraponto daqueles que tinham noção do que acontecia no país deles. Ao passo que o Foreman, um menino de apenas 19 anos, talvez também ignorante politicamente, teve outra reação. Tanto que foi recebido pelo presidente Lyndon Johnson quando chegou aos Estados Unidos".

Uma luta que nunca acaba

Servílio sabe o peso que carrega por ser um atleta negro em um país que valoriza pouco a prática esportiva e ainda discrimina seus negros. Viveu experiências que admite jamais poderá esquecer.

"Já sofri muitos casos de discriminação. Um dos mais fortes aconteceu há alguns anos. Eu estava dirigindo e fui abordado por policiais no Sapopemba, quando retornava para casa de um evento esportivo. Havia um policial que que estava meio alterado. E esse camarada não esperou eu me explicar. O sujeito me deu um chute na perna que quase me quebrou", disse Servílio.

Trajetória interrompida

A vida de Servílio no boxe mudou em 3 de dezembro de 1971. Foi no dia que ele venceu a luta contra o americano Tony Moreno, mas também sofreu o descolamento da retina do olho direito. Ele fez uma cirurgia, mas foi obrigado a parar.

Naquele momento, ele somava 15 lutas como profissional e tinha 15 vitórias. Nesse período, foi campeão brasileiro (1969) e campeão sul-americano (1970). Estava subindo para desafiar o detentor do título mundial e teve de parar quando estava em terceiro no ranking.

Ficou afastado até 1975, quando voltou a treinar. Fez a primeira luta no ano seguinte. Venceu. Depois fez mais três, também com vitórias, e aí foi obrigado a parar mais uma vez, proibido de entrar nos ringues por não enxergar nada com o olho direito.

Servílio deixou de lutar profissionalmente sem nunca ter conhecido uma derrota. É um dos maiores pugilistas de todos os tempos do Brasil e continuou no esporte como técnico e comentarista, profissão que abraçou a partir de 1991.

Utilizando as palavras dele, Servílio de Oliveira sempre foi um homem aguerrido!