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Cartas revelam desejo de organizadores olímpicos de conterem protestos americanos nos Jogos de 1968

Momento icônico na Olimpíada de 1968 Getty

Cinquenta anos atrás, os velocistas John Carlos e Tommie Smith fizeram sua icônica Black Power Salute no pódio dos Jogos Olímpicos de 1968. No entanto, uma carta recentemente descoberta corrobora a crença que eles o fizeram sob ameaça de expulsão do chefe americano do Comitê Olímpico Internacional - uma ameaça que acabou sendo executada depois que também foi aplicada a toda a delegação olímpica dos EUA na Cidade do México.

Correspondência entre Avery Brundage, presidente que serviu o COI de 1952 a 1972, e Pedro Ramirez Vazquez, presidente do Comitê Organizador de México City Games, foi recentemente entregue a ESPN pelo filho de Ramirez, Javier, durante uma entrevista na televisão sobre a preparação e consequências do protesto.

Em uma das cartas, as primeira de 31 de julho de 1968 - apenas dois meses antes da cerimônia de abertura - Brundage escreveu a Ramirez sobre seu desejo de "evitar quaisquer ocorrências [que] vai pôr em perigo a dignidade dos Jogos", em referência a potenciais protestos relacionados ao movimento dos Direitos Civis de atletas americanos. "[Os participantes] em uma demonstração devem ser removidos dos Jogos. Os competidores dos EUA devem ser avisados de que serão mandados para casa".

Em 16 de outubro de 1968, Smith venceu a corrida de 200 metros com um tempo de 19,83 segundos, recorde mundial na época.

"O que Brundage fez em 1968 foi colocar uma barreira no Comitê Olímpico dos Estados Unidos proclamando que se qualquer atleta entrasse e protestasse na frente do mundo, a equipe olímpica inteira dos Estados Unidos seria desclassificada", disse Smith à revista Vice Magazine em 2012.

Carlos, um companheiro de equipe de Smith na Universidade de San Jose State, levou o bronze. O velocista australiano Peter Norman terminou em segundo lugar. Nem o Comitê Americano nem o Comitê Olímpico Mexicano responderam aos pedidos para responderem sobre a situação.

Carlos e Smith fizeram o protesto apenas seis meses após o assassinato do líder dos direitos civis Martin Luther King Jr., que havia pedido aos atletas afro-americanos que boicotassem os Jogos em apoio à igualdade racial.

Brundage esteve presente durante a final masculina dos 200 metros no Estadio Olímpico Univeristário, mas silenciosamente deixou o estádio para assistir a outro evento em um local diferente. Smith e Carlos deveriam receber suas medalhas de Brundage.

"De repente, o chefe dos prêmios me disse que os vencedores não receberiam suas medalhas e não deveriam ficar no pódio, porque Brundage deveria dar-lhes as medalhas", disse Cesar Moreno, chefe de competição nos Jogos.

Outro oficial do COI, David Cecil, da Inglaterra, entregou aos velocistas suas medalhas.

Enquanto o Star-Spangled Banner (hino nacional americano) tocava para homenagear o medalhista de ouro americano na frente da multidão, Smith e Carlos tiraram os tênis - cada um exibindo meias pretas - inclinaram a cabeça e ergueram os punhos com uma luva. Norman, que foi informado do protesto de antemão, mostrou apoio aos americanos usando um distintivo olímpico do Projeto de Direitos Humanos.

Horas depois, o COI caracterizou o protesto como "uma violação deliberada e violenta dos princípios fundamentais do espírito olímpico". O gesto foi suficiente para Brundage ordenar ao Comitê Olímpico dos Estados Unidos que expulsasse os atletas que protestavam.

Quando o Comitê Americano tentou resistir, Brundage ameaçou mandar toda a delegação americana de volta.

"O COI indicou, foi dito [pelo Comitê Americano], que poderia proibir toda a equipe dos Estados Unidos de participar se os atletas não fossem disciplinados", informou o New York Times em 1968.

Foi só então que Carlos e Smith foram expulsos dos Jogos. Uma declaração do Comitê Americano considerou suas ações como "exibicionismo atípico" e as acusou de "violar os padrões básicos de boas maneiras e esportividade". Ao chegar nos EUA, Carlos e Smith relataram ameaças de morte e discriminação decorrentes de suas ações.

"Eu não tinha dúvida de que isso estava por vir. Quando você choca alguém, como nós fizemos na entrega das medalhas, eles entram em uma situação de pânico porque nunca experimentaram estar chocados", disse Carlos em entrevista à revista semanal The Nation.

Os problemas de Brundage com a saudação não terminaram aí. Ele continuou expressando seu descontentamento um ano depois, quando o documentário oficial dos Jogos, “Olimpiada en México”, seria lançado nos cinemas.

"Foi muito perturbador ter que você confirmar os rumores que chegaram aos meus ouvidos sobre o uso de imagens da desagradável demonstração contra a bandeira dos Estados Unidos por negros no filme oficial dos Jogos da XIX Olimpíada", escreveu Brundage a Ramirez em uma segunda carta, datada de 19 de agosto de 1969. "Como você sabe, a reação foi imediata e os culpados foram mandados de volta para casa."

O cartaz promocional do filme apresentava uma imagem de Smith, Carlos e Norman, durante o momento icônico. Isso levou José de Jesus Clark Flores, um dos homens responsáveis por trazer os Jogos para a Cidade do México, a encontrar Ramirez e o diretor do filme, Alberto Isaac, em um esforço para convencê-los a tirar o protesto do documentário e da publicidade.

"Uma análise de tudo me leva a uma única conclusão: implorar a você [Ramirez] que essa cena seja omitida do filme oficial dos Jogos Olímpicos", escreveu Clark, um dia depois de Brundage ter escrito sua carta. "Temo que vá tirar um pouco o sucesso [dos Jogos] e ofender uma pessoa [Brundage] que é amigo do México há muitos anos, além de excelente amigo pessoal".

No entanto, Ramirez e Isaac acreditavam que a importância histórica do momento valeria a pena preservar.

"Foi um momento icônico das Olimpíadas, que muitas pessoas acharam que poderia ser uma coisa passageira", disse Javier Ramirez Campuzano, filho de Ramirez e guardião do arquivo histórico de seu pai. "O momento estava de acordo com o ideal olímpico de igualdade. O protesto não foi inconsistente com esse ideal".

A cena foi mantida no corte final e Brundage não compareceu a estreia do filme. Após a aposentadoria de Brundage do COI, a postura da organização em relação a Carlos e Smith suavizou-se. No site oficial do COI para os Jogos de 1968, o protesto é reconhecido como um dos momentos emblemáticos do torneio.

O repórter da ESPN mexicana Tlatoani Carrera foi responsável pela pesquisa e entrevistas da reportagem.