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Veneno de suplemento: a 'bomba' que quase matou o marchador brasileiro Caio Bonfim

Brasileiro Caio Bonfim foi bronze na marcha atlética no Mundial de Londres, em 2017 Getty

Ele já foi xingado nas ruas de Sobradinho, cidade satélite de Brasília, por praticar a marcha atlética, uma das modalidades mais extenuantes do atletismo.

Enfrentou doenças na infância que quase tiraram sua vida.

Agora, o melhor marchador da história do esporte no Brasil fala sobre os piores momentos que viveu na carreira ao testar positivo no exame antidoping.

Caio Bonfim quer falar abertamente como caiu, como ele mesmo diz, em uma cilada. Quer ser ouvido, como não foi até hoje, depois da confirmação de substância proibida em seu organismo.

São os bastidores de uma história ainda não contada.

Foi há seis anos que os canais ESPN conheceram o menino que ainda não era considerado o mais bem-sucedido marchador brasileiro.

Para conhecer a trajetória de vida, no esporte da família Sena Bonfim, resgatamos reportagem que o “Histórias do Esporte”, da ESPN Brasil, fez em janeiro de 2012, antes da primeira participação de Caio nos Jogos Olímpicos de Londres.

Os anos passaram, e Caio conquistou o mundo com a marcha atlética. Na Olimpíada do Rio 2016, esbarrou na medalha ao conquistar um inédito e honroso quarto lugar. No ano seguinte, entrou para a história da marcha atlética ao ganhar a primeira medalha da modalidade em mundiais.

Não deu muito tempo para Caio e toda a sua família de marcha comemorarem o tão sonhado bronze, pois um erro de manipulação de um suplemento, usado pelo atleta, quase pôs tudo abaixo.

Armadilhas da manipulação

As histórias que envolvem atletas brasileiros pegos em exames de doping quase sempre têm o mesmo enredo. A maioria consome suplementos confeccionados em farmácias de manipulação, e a maioria acusa as empresas por erro e contaminação na manipulação dos produtos.

Não é de hoje que os atletas olímpicos do Brasil tomam algum tipo de suplemento para repor o que perderam nos treinos do alto rendimento.

No caso dos atletas olímpicos, a orientação vem por intermédio de um profissional da área. Caio Bonfim conta, por exemplo com o acompanhamento da nutricionista Érica Reinehr que prescreveu a receita que, de alguma forma, não foi cumprida à risca pela empresa de manipulação e culminou na punição de seis meses do atleta brasileiro por testar positivo para doping.

Nela estão escritas as substâncias que deveriam fazer parte do suplemento de Caio eram: Ferro quelado, Zinco acetato, Cobre quelado, Vitamina A, Ácido fólico, Metilcobalamina, Riboflavina, Benfotiamina, Niaciamida, Vitamina B6 e Vitamina K (MK7). A receita original que está abaixo:

O problema é que, na manipulação das vitaminas, entrou uma substância proibida pela Agência Mundial Antidoping (Wada), a Bumetanida, um diurético que mascara outros tipos de substâncias que podem melhorar o desempenho dos atletas.

E por causa da Bumetanida, Caio Bonfim acabou pegando a pena mínima, seis meses de afastamento das competições oficiais.

Como o exame foi realizado bem antes do Mundial, Caio não teve que devolver a medalha de bronze conquistada em julho de 2017.

Entre o exame que testou positivo para Bumetanida até a competição, Caio passou por mais de 10 testes antidoping e esse foi o primeiro passo para ele provar a inocência diante da Federação Mundial de Atletismo.

Com isso, a punição de caráter educativo passou a contar a partir do dia 1º de março de 2018 e terminou agora, no primeiro dia de setembro – neste sábado, ele volta a competir, no Troféu Brasil.

Suplemento mortal

A prova na qual o marchador Caio participou em abril do ano passado, em Lima, no Peru poderia ter sido mortal para o atleta.

Sempre acompanhado pela mãe, a ex-marchadora e hoje treinadora, Gianetti Sena, Caio logo percebeu que havia algo errado com sua saúde. Ele terminou a prova em estado degradante, preocupante.

Foi parar no hospital em Lima, onde foi internado com uma grave desidratação e uma infecção na garganta. Não era nada disso, como relembra o próprio Caio a reportagem.

“Teve algumas vezes que eu passei mal, inclusive uma competição que eu fui, onde eu vomitei muito, durante a prova. Tive os batimentos muito altos e depois fui internado, fui para o hospital, tive como se fosse desmaios e a minha urina estava preta. A princípio pensávamos que eu tinha tido uma hiper-hidratação, pois tinha urinado muito antes da prova e aí durante a prova eu estava desidratado e tive falta de alguns minerais, por isso tudo aconteceu. E aí quando a gente descobre que a cápsula está contaminada com diurético, aí a gente consegue colocar as pecinhas todas e entender que o que fez eu estar desidratado e perder tantos minerais e passar mal na prova foi o diurético, né? E aí a gente consegue entender que para uma atividade de longa duração, uma prova sofrida dessa e a continuidade de suplementação poderia ter me levado a óbito. Isso foi o que mais chocou”, afirmou Caio.

Provando o veneno

Sem desconfiar que havia algo de errado no suplemento, Caio seguiu tomando as cápsulas contaminadas. E logo foi visitado em casa por membros da agência antidoping, em mais um de tantos testes-surpresa. A coleta do material ocorreu em maio de 2017.

Em junho do mesmo ano, Caio partiu com a mãe-treinadora Gianetti para uma competição em La Coruña, na Espanha. Dianetti lembra que em uma noite, semanas antes ainda no Brasil, o filho havia levantado dezenas de vezes para urinar. Então, ela resolveu tirar a dúvida, provando as cápsulas com o suplemento em território espanhol.

“Aí eu e a fisioterapeuta dele, a Flávia Farias, decidimos tomar a cápsula para tirar a prova. Tomamos uma cápsula cada uma e depois de duas horas começamos a sentir os mesmos sintomas, a minha frequência cardíaca foi para 154 batimentos por minuto, andando e 100 batimentos quando estava deitada. E fazendo xixi toda hora, nós duas.E aí, por via das dúvidas, não deixamos mais o Caio tomar e ele não tomou. Só que ele já tinha feito o exame antidoping, um mês antes”, relembrou Gianetti.

Sem desconfiar do que viria pela frente, Caio e Gianetti seguiram, ainda na Espanha para uma série de treinamentos na altitude de Serra Nevada. Foi aí que um comunicado da IAAF, (Federação Internacional de Arletismo) alertou que o atleta testou positivo para doping.

A partir dali, Caio teria cinco dias para explicar porque foi encontrada a tal “Bumetanida”, substância proibida, em seu organismo.

Fatos e provas

Desesperados com a notícia, o pai João Sena, que também é treinador foi com a nutricionista, Érica Reinehr, até a farmácia onde o suplemento havia sido manipulado.

Segundo Gianetti, tanto João como Érica foram desrespeitados pelos funcionários, que zombaram da cara dos dois, expulsaram Érica da farmácia.

Como a família Sena Bonfim abriu um inquérito policial para apurar as responsabilidades, Gianetti não quis falar o nome da empresa que está sendo processada. Disse apenas que é uma rede de farmácias de manipulação com loja em Brasília e Goiás.

Para provar a inocência do filho, Gianetti levou algumas cápsulas para ser analisadas por uma amiga, doutora em química, de um laboratório de uma Universidade de Brasíla.

Lá finalmente foi constatada a contaminação dos suplementos, apresentando a substância Bumetanida. Mas o pior ainda estava por vir.

Depois de contratar o advogado Marcelo Franlklin, especialista em casos de doping, para fazer a defesa junto à IAAF, a entidade solicitou que Caio enviasse amostras do suplemento para que eles enviassem para análises no laboratório oficial, no Canadá. O resultado foi assustador, conforme explicou Gianetti.

“A IAAF pediu para que enviássemos as capsulas contaminadas para que eles realizassem novos testes no laboratório da WADA, em Quebec, no Canadá. E foi aí que eles encontraram uma grande quantidade de diuréticos nos suplementos. 8 miligramas, uma quantidade que, segundo especialistas, poderia matar uma pessoa idosa, uma pessoa que não fosse atleta e que tivesse algum problema no coração, ou até uma criança. Outra coisa que o laboratório mostrou foi que algumas vitaminas que a nutricionista tinha receitado não estavam nas capsulas, ou pouca quantidade. Mas tinha essa que ela não tinha prescrito. E a IAAF viu isso, os documentos que a gente mandou e terminada as investigações eles concluíram que o Caio não havia feito uso intencional da substância proibida”, emendou Gianetti.

Além do doping, dois cânceres

O ano de 2017 Caio e a família foram do céu, com a conquista da inédita medalha de bronze para o Brasil em mundiais, ao inferno com a notícia do doping. Mas nada foi mais desafiador que a batalha pela vida travada por seus pais.

“Para mim, o mais difícil foi, minha mãe estava com câncer na tireoide. Meu pai estava fazendo radioterapia porque tinha acabado de tirar um câncer na próstata... Aliás, ele tirou a próstata também. Então esse momento foi muito difícil, o meu pai entrou em depressão, chocou muito a gente porque os meus pais fazem esporte há 40 anos, já fizeram atletas olímpicos, medalhistas em Pan-Americanos e agora, ver pessoas apontando o dedo, eles sendo julgados, isso os machucou muito, era um momento delicado em nossas vidas e isso foi difícil.”

Caio têm muitas coisas para falar sobre o momento mais difícil da carreira e da vida. Faz, também questão de deixar um pedido às pessoas e à imprensa.

“O atleta precisa ser ouvido logo após o anúncio. Porque é muito fácil as pessoas escreverem que o cara foi pego e não falarem mais nada pra ver se tem uma audienciazinha. 0 ser humano chegou a um nível muito miserável, porque eu sai em veículos de comunicação que, nem quando eu ganhei, medalha no mundial saiu. É incrível como se valoriza mais a desgraça dos outros do que os bons resultados”.

Um mal necessário

Caio diz que toma suplementos há muito tempo e que erros podem acontecer. Ele não acredita em maldade humana e explica porque o atleta do alto rendimento tem que recorrer a suplementos industrializados e manipulados em farmácias.

“As pessoas perguntam: tem que tomar alguma coisa mesmo? Não tem como. A minha dieta é de 4 mil e 500 calorias, eu faço em média 30 km de marcha por dia. Eu tenho que tomar suplemento de ferro, vitamina B12, de potássio e magnésio...para um atleta não tem como não tomar vitaminas. Tanto que na alimentação, a gente mesmo comendo de tudo, às vezes não é suficiente porque o treino é muito forte”.

Nada a temer

Caio faz parte de um grupo de atletas que, desde 2011, tem o passaporte biológico, em que IAAF tem todos os dados e estudos os dados do atleta, por intermédio de exames de sangue e urina. Já fez dezenas de testes, desde 2007 quando começou a competir. E deixa claro que nunca fugiu da agência antidopagem, como muitos fazem mundo afora.

“Eu estou sempre em casa e sei de “conhecidos” que moram em países distantes porque sabem que o doping não chega. Eu não, estou aqui na minha cidade onde a agência antidoping do meu país vem aqui. Tenho feito exames regularmente. Fiz mais de 12 exames depois desse acontecimento que provou que eu não tinha tomado nada. Exames de sangue que detectam drogas que você tomou 6 meses antes e descobriram que não tinha nada para mascarar, que foi uma falha na manipulação do meu suplemento, foi a IAAF que disse isso, não sou eu, então isso é que prova a minha inocência”.

Faça o que eu digo

Segundo a Wada, a regra é clara: o atleta é responsável por tudo aquilo que ele toma. Caio sabe disso, tem noção dos problemas que as farmácias de manipulação causaram nas carreiras de vários atletas brasileiros. Promete ficar muito mais atento.

“O atleta realmente tem que viver nessa neurose. Tomar cuidado com tudo que ele toma. Com o que ele passa na pele. Se eu tivesse acreditado mais em outros atletas que tomaram manipulados e foram pegos, talvez eu não teria caído nessa”.

No caso de Caio, a punição de seis meses foi mínima, uma espécie de punição didática-educativa, para que o erro nunca mais se repita.

Briga na Justiça

Gianetti quer provar, definitivamente, a inocência de Caio. E promete ir às últimas consequências. Entrou na Justiça com uma ação contra a rede de farmácias de manipulação, a fim de responsabilizar a empresa. Gianetti ainda afirmou que, em conversas com químicos, eles acreditam que a quantidade de substância proibida encontrada nos suplementos de Caio, dificilmente aconteceria por intermédio de contaminação. Há suspeitas de que a ação teria sido intencional. O caso segue em segredo de Justiça.

“Nós vamos à justiça brasileira provar que eles agiram errado. Não queremos expor vingança. Mas queremos expor justiça porque, quantas pessoas por aí não passaram mal? Ou um remédio de manipulação que não fez efeito algum? Ou até mesmo ter morrido por conta disso, né? E nós vamos provar na justiça que o laboratório errou na manipulação do suplemento do Caio”, disparou Gianetti.

Manipulação nunca mais...

Se o episódio serviu para alguma coisa? A mãe garante que sim. Aliás, ela que ia buscar os suplementos de Caio na farmácia termina o depoimento dizendo que, se soubesse que o filho estava correndo risco de vida, jamais permitiria que o atleta-filho tomasse tal substância.

“Daqui para frente a gente vai usar o mínimo possível de suplementos. Porque a IAAF tem um pé atrás com o Brasil com relação aos remédios de manipulação. Porque quase 100% dos atletas que são pegos no doping são casos envolvendo farmácias de manipulação e aí, eles perguntam: por que os brasileiros sabem que as farmácias de manipulação não são confiáveis, que acontece contaminações, por que os atletas continuam usando? Diante disso, conversamos com a nutricionista do Caio e a gente vai fazer o possível para ficar só na alimentação. E farmácia de manipulação a gente não vai mais usar, de espécie alguma”.