Bem-vindo a Conmebol: a região mais difícil das eliminatórias para a Copa do Mundo

Andy Mitten, para o ESPN.com.br

Lionel Messi e Neymar, duas das maiores estrelas da região da CONMEBOL
Lionel Messi e Neymar, duas das maiores estrelas da região da CONMEBOL []

“A forma mais difícil de chegar à Copa do Mundo é por meio das eliminatórias sul-americanas”, diz o capitão equatoriano Antonio Valencia. “Você pode jogar em Barranquilla, no norte da Colômbia, próximo ao mar do Caribe, onde é úmido e a temperatura é de 40 graus. Em La Paz, na Bolívia, a altitude é de quase 4.000 metros. Leva de dois a três dias para se preparar para um jogo lá e, depois, de dois a três dias para se recuperar fisicamente. É muito difícil e quem está dizendo isso é um equatoriano que está acostumado a jogar a quase 3.000 metros em Quito.”

Na próxima semana, as seleções dos 10 países sul-americanos jogarão as duas últimas das 18 partidas das eliminatórias, encerrando uma campanha que começou em outubro de 2015.

O que faz as eliminatórias da CONMEBOL serem tão difíceis? Bem, elas reúnem alguns dos melhores jogadores do mundo, como Lionel Messi, Neymar, Radamel Falcao e Luis Suarez, dentre outros, assim como seis das 16 melhores seleções classificadas: Brasil (segundo), Argentina (quarto), Chile (quinto), Colômbia (10º), Peru (12º) e Uruguai (16º). Além disso, existem os problemas logísticos associados à viagem e a jogar na altitude, ou em relação a encarar o calor ou a umidade.

“Eu olho para as outras (regiões) e vejo equipes mais fracas, situações em que você tem praticamente certeza de quem será o vencedor, onde há placares bastante elásticos e jogos desequilibrados”, diz o ex-capitão uruguaio Diego Forlan. “Não há placares de 6 x 0 e 7 x 0 na América do Sul.”

O formato de eliminatórias em que todos jogam contra todos ocorre na América do Sul desde 1996 e a competição é acirrada, mesmo nessa última etapa em que apenas o líder Brasil já confirmou passagem para a Rússia no ano que vem.


Outras três equipes se juntarão à seleção brasileira e apenas sete pontos separam o segundo colocado Uruguai do oitavo, que é o Equador. A Argentina de Messi ocupa o quinto lugar, fora da zona de classificação automática, ao passo que o Chile, vencedor das últimas duas Copas América, está em sexto.

Entretanto, seja lá qual for a equipe que terminar em quinto terá que disputar um mata-mata contra a Nova Zelândia em novembro. Os All Whites estão na 113ª colocação no ranking mundial, 45 posições abaixo da pior equipe sul-americana classificada, que é a Venezuela, na 68ª posição. 

A seleção venezuelana é a única equipe da CONMEBOL que nunca chegou à Copa do Mundo e, juntamente com a Bolívia, classificada em 46º, à frente da Austrália, Coreia do Sul, Grécia, Costa do Marfim e Gana, são os únicos dois países que não têm chances de classificação nos últimos dois jogos.

Há rivais em toda parte, alguns que transcendem o esporte e que refletem inimizades históricas de longa data entre os países. Com a competição tão acirrada, não é difícil de explicar o porquê de os grupos sul-americanos terem mais cartões amarelos, que são 4,6 por partida, do que os demais por todo o mundo.

Sampaoli: 'Estou com uma segurança e convicção de que vamos estar na Copa do Mundo'

Pode ser dramático, mas deveria ser assim? Valencia diz: “Não acho que seja justo que apenas quatro equipes se classifiquem automaticamente”. Enquanto o ex-jogador internacional da Venezuela e atual comentarista da ESPN, Alejandro Moreno, argumenta que não há comparação favorável com o sistema em outras regiões. A CONCACAF, que é a confederação dos países da América do Norte, América Central e Caribe, tem três vagas automáticas, por exemplo.

“Jogar contra Brasil, Argentina, Uruguai, Colômbia, Equador, Paraguai ou Chile não é a mesma coisa que jogar contra equipes da CONCACAF”, diz Moreno. “Eu olho para algumas daquelas equipes e penso que 'isso não me parece justo, não considero justo'. Mas é assim que é. Se você se classificar nas eliminatórias sul-americanas, sabe que fez isso contra concorrentes da mais alta qualidade de qualquer grupo. É muito desafiador para todos e, quando você joga para um país como a Venezuela como eu fiz, você não apenas tem de estar sempre no melhor da sua forma, mas também tem de ter esperança de que outras equipes passem por um momento ruim para conquistar resultados, para que assim você tenha a oportunidade de lutar por uma vaga na Copa do Mundo”.

Outras equipes em outras regiões devem viajar distâncias consideráveis, enfrentar dificuldades logísticas e jogar contra adversários de qualidade em condições adversas, mas ninguém enfrenta esses desafios tanto quanto aqueles envolvidos nas eliminatórias sul-americanas.

As condições de jogo

Na quarta-feira de manhã, o selecionado brasileiro treinará próximo ao Rio de Janeiro, depois pegará um voo de quatro horas até Santa Cruz de la Sierra, segunda maior cidade da Bolívia, que é localizada próxima à fronteira dos países e que fica 416 metros acima do nível do mar. Porém, a partida entre Bolívia e Brasil, agendada para o dia seguinte, não será em Santa Cruz.

“Os brasileiros vão dormir por seis horas e depois, seis horas antes do jogo, pegarão um voo até os Andes em direção a La Paz”, diz Sergio Rangel, um jornalista que acompanha a seleção brasileira pela Folha de São Paulo. “Isso é loucura. O jogo vai começar às 15h, quando as pessoas ainda estão trabalhando. A equipe voltará ao Brasil no mesmo dia após a partida. Quanto mais eles ficarem, pior será a altitude para os jogadores. Não é o ideal, mas os médicos disseram que é o melhor a se fazer.”

Os jogos da CONMEBOL são normalmente disputados na altitude de La Paz, que fica 3.600 metros acima do nível do mar, e na capital equatoriana, Quito.


“É difícil jogar em Quito, a 2.800 metros”, diz Forlan. “A bola fica mais rápida porque o ar é mais rarefeito. Não é como em La Paz, na Bolívia, onde você tem dificuldade para respirar cada vez que corre, mas há uma diferença que atrapalha seu tempo de bola e reflexos, até sua coordenação motora. Então é um tipo diferente de futebol: mais lento, com mais paciência.”

No que se refere à vantagem de jogar em casa, considere que a Bolívia venceu quatro dos oito jogos como mandante nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2018, mas perdeu oito vezes seguidas jogando fora, marcando dois gols e sofrendo 22. O Chile perdeu jogando lá mês passado, assim como a Argentina em março.

“É difícil até mesmo quando você senta no banco de reservas em La Paz”, afirma o zagueiro argentino Marcos Rojo. “Meu segundo (jogo lá) foi este ano quando joguei os 90 minutos e nós perdemos de 2 a 0. Foi um péssimo resultado para nós e significa que temos de vencer nossos últimos jogos para garantir nossa ida à Rússia”.

Em 2007, a FIFA proibiu que partidas internacionais fossem disputadas em mais de 2.500 metros acima do nível do mar, mas a proibição durou menos de um ano. No dia 1º de abril de 2009, uma seleção argentina com jogadores como Messi, Carlos Tevez e Javier Mascherano, e treinada por Diego Maradona, foi vencida por 6 a 1 em La Paz.

Moreno explica que os jogadores da Venezuela receberam instruções para utilizarem câmaras hiperbáricas por seis semanas antes da partida, mas acrescenta que o clube de futebol dificultou a preparação adequada: “O Barcelona não liberará Messi por seis semanas”, ele brinca.

“E quando você chega na Bolívia, a primeira coisa que vê no vestiário são os tubos de oxigênio. Torna-se não apenas um desafio físico, mas também mental. Você dá alguns piques quando chega e os pulmões começam a queimar. Daí você pensa: "Espera. Pensei que eu estava preparado para isso. Você está também sob pressão na iminência do jogo, então você tem de acreditar em seu corpo para seguir em frente porque você tem uma chance de chegar à Copa do Mundo. Ganhamos de 1 a 0 (em 2009), mas a Bolívia meteu três bolas na trave.”

Porém, a desvantagem de uma equipe é a vantagem de uma outra e isso se estende por toda a região.

“Utilizamos o calor venezuelano para nos ajudar”, diz Moreno. “Sabíamos que Uruguai e Argentina estavam vindo do frio, então pressionamos durante toda a partida na esperança de que eles ficariam sem ar. Equipes como a Venezuela se apegam a artifícios como esses e tentam compensar a diferença de talento e tirar vantagem do fato de que os adversários não querem estar lá, de que estão desconfortáveis.”

Ao mesmo tempo, o lateral direito da Colômbia, Santiago Arias, diz: “O ar é mais pesado no norte e o sol é mais forte. Barranquilla é muito difícil para os adversários. Eles não gostam de vir jogar contra nós aqui”.

“Joguei em Barranquilla três dias depois de jogar 90 minutos contra o Brasil”, diz Rojo em referência a um jogo em novembro de 2015. “Não era a temperatura, mas sim a umidade. Era de 93%. Vencemos de 1 a 0. Às vezes, ter jogadores melhores que seus adversários pode fazer a diferença.”

Argentina só ganhou uma vez em seis eliminatórias da Copa do Mundo no Estadio Hernando Siles, em La Paz
Argentina só ganhou uma vez em seis eliminatórias da Copa do Mundo no Estadio Hernando Siles, em La Paz []

A viagem

“Vi alguns treinadores [europeus] reclamarem sobre os voos de quatro horas para a Rússia ou Ucrânia, mas quatro horas não é nada para mim”, diz Forlan rindo. 

“Disputei jogos internacionais dois dias após viajar pelo mundo. Aquelas primeiras viagens transatlânticas de Manchester de volta ao Uruguai foram um choque. Deixei um inverno inglês e cheguei no calor do verão sul-americano. Mas isso foi apenas para me reunir com meus companheiros de equipe. Viajaríamos de Montevidéu para países no norte da América do Sul, como Colômbia ou Venezuela. De Montevidéu a Bogotá ou Quito são sete horas e tínhamos sempre que fazer uma conexão em São Paulo, Panamá ou qualquer outro local".


“Não voávamos com luxo também”, continua ele. “Os jogadores do Uruguai voavam em classe econômica quando eu comecei, mas eu logo comecei a pagar um valor extra do próprio bolso para ficar na classe executiva ou primeira classe. Isso fez uma grande diferença e eu conseguia dormir um pouco, especialmente porque eu poderia pegar voos de quatro a cinco horas só para chegar a um jogo do Uruguai na América do Sul. O retorno à Europa pode ser cansativo também. Pode ser que você chegue tarde na quinta-feira e tenha de treinar na sexta para um jogo no sábado. Pode ser que você tenha de responder a questionamentos ou fique um pouco decepcionado porque não jogou bem ou sua equipe perdeu.”

Nos últimos anos, os clubes europeus ricos têm fretado aeronaves para buscar suas estrelas o mais rápido possível: “Se a Argentina tem seis ou sete jogadores na Espanha, por exemplo, faz sentido para eles voarem juntos em voo privado, mesmo se jogam em clubes rivais”, diz Forlan.

“Muitos jogos não são disputados nas capitais”, diz Moreno. “Viajar na América do Sul não é como estar em locais do primeiro mundo. Os jogadores acabam pagando o preço por isso. Se não estiverem preparados para a transição e entrarem em estádios em que pode não haver água aquecida, isso pode impactar o desempenho.”

Jogadores do Brasil durante viagem em outubro de 2016
Jogadores do Brasil durante viagem em outubro de 2016 Reprodução

A atmosfera

Jogar futebol na América do Sul significa atmosferas barulhentas e apaixonadas, tomadas por um quê de ilegalidade que pode intimidar os adversários. As partidas ocorrem em alguns dos mais emblemáticos locais do futebol mundial. O Brasil espalha seus jogos pelos locais que foram reconstruídos para a Copa do Mundo de 2014, embora o famoso Maracanã, no Rio, não tenha sido utilizado durante essas eliminatórias por causa de um impasse com os proprietários do estádio.

Ao mesmo tempo, a Argentina também espalha seus jogos, mas joga muito mais no Monumental de Nuñez, do River Plate, onde conquistou a Copa do Mundo de 1978 em meio a uma chuva de papel picado. Entretanto, é a casa dos grandes rivais do River que receberá a importantíssima partida de quinta-feira contra o Peru.

Claudio Tapia, presidente da Associação de Futebol Argentino (AFA) e um detentor de ingressos da temporada para jogos do Boca Juniors, decidiu que La Bombonera seria o melhor local, porque o estádio é famoso por sua atmosfera intimidadora. Tapia tem um bom argumento, mas a história dá um alerta: em 1969, a Argentina jogou contra o Peru precisando vencer para se classificar. A partida foi mudada para La Bombonera por motivos similares relativos à atmosfera: a Argentina empatou em 2 a 2 e não foi para o México em 1970.

Ônibus da seleção peruana sai do aeroporto em Buenos Aires e multidão de torcedores fica louca

O grandioso Estádio Centenário de Montevidéu, que foi palco da Copa do Mundo de 1930, recebe todos os jogos das eliminatórias com mando do Uruguai. Sua reconstrução é planejada como parte de uma proposta conjunta com a Argentina para sediar a Copa do Mundo de 2030, mas, por enquanto, as arquibancadas principais possuem bancos de madeira arcaicos com visão precária para o campo. Os ventos podem ser uivantes vindos do Rio da Prata no inverno, mas, apesar disso, o estádio se torna um caldeirão em ebulição quando o Uruguai tem uma grande partida.

“O Centenário é o lugar mais difícil para se jogar”, diz Arias, da Colômbia. “É o público, mas a seleção uruguaia também é sempre forte, sempre muito forte.”

“A melhor memória que tenho é a de vencer a seleção argentina completa por 1 a 0”, diz Moreno em relação a um jogo pelas eliminatórias em outubro de 2011. “As ruas estavam cheias de torcedores, cercando o ônibus. Isso permitiu que os torcedores sonhassem com a possibilidade de que poderíamos chegar à Copa do Mundo.  O entusiasmo dos torcedores jogou ao nosso favor e contra a Argentina.”

“Os torcedores jogaram ovos no nosso ônibus a caminho do treinamento”, diz Forlan a respeito de uma viagem ao Peru em 2013, quando os anfitriões tinham a esperança de chegar à primeira Copa do Mundo desde 1982. “Eles estavam do lado de fora do nosso hotel cantando de noite também. Esperávamos aquilo. Vencemos de 2 a 1. Você realmente percebe que conseguiu algo quando vence um jogo como esse.”

Além disso, Forlan acrescenta que os ambientes que as equipes enfrentam nas eliminatórias podem preparar para a Copa do Mundo em si, citando o torneio de 2010 na África do Sul como exemplo.

"Jogamos as quartas de final contra Gana em Soweto e 80.000 pessoas queriam que perdêssemos. Porém, pelo fato de estarmos acostumados com aquela adversidade, aqueles jogos realmente duros, estávamos acostumados com aquela mentalidade do ?nós contra o mundo’ desde o primeiro jogo do grupo. Ovos, música, adversários. Eu gosto muito das eliminatórias sul-americanas. Não há um jogo fácil sequer”.

Torcedores na partida do Uruguai contra o Peru, em 2016, no Estádio Centenário em Montevidéu
Torcedores na partida do Uruguai contra o Peru, em 2016, no Estádio Centenário em Montevidéu []

Os rivais 

Existe uma piada que, para vencer a Copa do Mundo, um país sul-americano deve evitar eliminatórias tranquilas. Um dos motivos pelos quais futuros campeões muitas vezes sofrem na etapa preliminar é explicado pelas rivalidades construídas entre os países que se encontram com tanta frequência.

“Em 1985, a Argentina marcou um gol 10 minutos depois do tempo regulamentar contra o Peru para empatar e se classificar para a Copa do Mundo”, diz o jornalista brasileiro Alex Sabino, que tem viajado muito pela Argentina para escrever sobre futebol. “O gol foi marcado por Ricardo Gareca, hoje treinador da seleção peruana.”

Após momentos de muitas dificuldades, a Argentina inspirada por Maradona se tornou a campeã mundial em 1986. Algo similar ocorreu sete anos mais tarde quando, com equipes divididas em dois grupos de cinco, o Brasil começou sua última partida, contra o Uruguai, no Maracanã, fora dos três que se classificariam de forma automática.

Romário foi chamado de volta depois de um período de afastamento e jogou a partida da sua vida, marcando os dois gols na vitória do Brasil por 2 a 0. Antes disso, na mesma campanha, houve um choque quando a Bolívia venceu o Brasil em La Paz. Os torcedores queriam a demissão do técnico Carlos Alberto Parreira, mas ele se manteve no cargo e por fim venceu a Copa do Mundo nos Estados Unidos.

Tite aplicou 'treinamento fantasma' na seleção nesta quarta; Ortega explica

O Brasil, como o maior vencedor da história das Copas do Mundo, é visto como uma equipe a ser batida por todos os adversários, não importa se são grandes ou pequenos.

“Quando você joga pela Argentina em uma partida importante contra o Brasil, é uma das melhores sensações que um jogador pode ter”, diz Rojo. “É um jogo que poderia facilmente ser a final da Copa do Mundo, mas é apenas um jogo pelas eliminatórias para a Copa. Nunca vou esquecer o jogo contra o Brasil (em 2015) em Buenos Aires pelas eliminatórias para a Copa do Mundo da Rússia.”

“A rivalidade Brasil e Argentina cresceu por causa da geografia, pois raramente podíamos jogar contra Inglaterra ou França nos anos de 1920”, diz Rangel. “É a maior rivalidade na América do Sul, entre dois estilos contrastantes. O estilo brasileiro é o de jogar bonito. O argentino é mais físico".

“O Uruguai também é um grande rival do Brasil. Não conseguimos esquecer o que aconteceu em 1950 (quando o Uruguai venceu a Copa do Mundo com uma vitória por 2 a 1 no Rio). Eu estava no jogo em Montevidéu quando o Brasil venceu por 4 a 1 este ano e foi uma grande satisfação entre os jogadores, pelo aspecto histórico e também porque o Uruguai tem excelentes jogadores como Suarez e [Edinson] Cavani.

Toda equipe tem rivais.

“Todos os vizinhos da Colômbia querem nos vencer, o que é normal, mas eles querem nos vencer mais agora, pois estamos sendo vistos como uma das melhores equipes”, diz Arias. “Temos jogadores que todos ouviram falar no mundo todo: Radamel [Falcão], James [Rodriguez] e Juan [Cuadrado]. Estamos em um bom momento no futebol colombiano, que nos faz ser uma outra equipe mais forte no grupo. Isso também complica muito as coisas para nós, mas é algo que temos de superar e estamos fazendo isso bem.” 

Ao mesmo tempo, além do futebol, as rivalidades se dão em decorrência da condição em que muitos países se encontram.

“Muitos países da América do Sul, e em particular a Venezuela atualmente, passam por desordens políticas, sociais e financeiras, além de instabilidade econômica”, diz Moreno. “Eles têm uma forma de mostrar no campo que está acima do poder do jogador e que é algo que as pessoas fora da América do Sul podem não gostar. O jogo com seleções de cada um desses países é um período em que todos esses problemas são esquecidos e isso se torna uma forma de acalmar as coisas e permitir que você tenha sonhos grandes e pense grande. O país como um todo confia em suas equipes para que elas ofereçam um pouco de felicidade e alegria. Os jogadores sentem essa emoção. Se você puder dar esse momento de alegria, nunca será esquecido. É muito mais que três pontos.”

David Luiz, à esquerda, e Luis Suarez, direita, fizeram parte da rivalidade Brasil x Uruguai nos últimos tempos
David Luiz, à esquerda, e Luis Suarez, direita, fizeram parte da rivalidade Brasil x Uruguai nos últimos tempos []

A qualidade

“Há 10 equipes muito fortes e cada um desses países começa o grupo achando que tem uma chance real de se classificar para a Copa do Mundo”, diz Arias. “Isso não acontece em outras partes do mundo, onde há equipes muito mais fracas".

No mínimo metade das equipes sul-americanas não irá à Rússia no ano que vem, mas não se classificar não quer dizer perda de tempo. Com o padrão de jogo tão alto, o interesse continua depois e é possível se preparar para o futuro.

“A força das eliminatórias da CONMEBOL ajudou países como a Venezuela a diminuírem a diferença”, diz Moreno. “Isso faz com que o grupo seja ainda mais intrigante. A equipe venezuelana pode ir à Argentina e conseguir um empate em 1 a 1 como o fez recentemente. Não se trata de um resultado estranho também. Todos ficaram mais competitivos e os países aprenderam a maximizar seus talentos. Argentina ou Brasil tem muito mais talentos do que a Venezuela. Então, cabia a nós utilizar o que temos de bom.”

O Equador, ao mesmo tempo, tinha vencido apenas cinco jogos de eliminatórias antes de 1996, mas, desde sua primeira participação em Copa do Mundo, que foi em 2002, já se classificou mais duas vezes. Os países sul-americanos têm o privilégio, devido a um difícil caminho para a Copa do Mundo, de estarem prontos quando começam a competir. Na última Copa do Mundo, apenas o Equador não passou da fase de grupos.

“Somos um país de três milhões de pessoas, mas chegamos às semifinais da Copa do Mundo de 2010”, diz Forlan. “Três milhões é a metade da população da Escócia. O Uruguai é muitíssimo orgulhoso das nossas conquistas como seleção. Mas o que nos ajuda na preparação além dos jogadores, motivação e técnico? Jogar contra algumas das melhores equipes nas eliminatórias. Terminamos em quinto lugar nas eliminatórias para 2010 e tivemos de vencer a Costa Rica para chegarmos à Copa do Mundo.”

Com exceção das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, quando o Uruguai perdeu para a Austrália, as equipes sul-americanas têm dominado os recentes mata-matas intercontinentais. O Uruguai derrotou a Costa Rica e a Jordânia em 2009 e 2013, respectivamente, e espera-se que quem fique em quinto lugar neste ano vença a Nova Zelândia, representante da Oceania.

“Costumava ser apenas os maiores jogadores sul-americanos dos melhores países da Europa”, diz Forlan. “Agora, toda seleção vai ter jogadores de alto nível nas ligas europeias. Eles melhoraram. Os que jogam na Espanha se acostumaram a jogar contra o Messi. Então, não se assustam com ele. Eles se acostumaram com centros de treinamento, campos e preparações melhores. Por isso, quando voltam para casa, exigem melhorias lá. Isso aumenta ainda mais o padrão.” 

O Chile conquistou títulos consecutivos da Copa América, mas enfrenta uma batalha para se classificar para a Copa do Mundo de 2018
O Chile conquistou títulos consecutivos da Copa América, mas enfrenta uma batalha para se classificar para a Copa do Mundo de 2018 []

O futuro

“Quatro ou cinco equipes [para classificar] é o suficiente”, diz Rangel. “As eliminatórias da CONMEBOL funcionam porque são bastante competitivas. Sete de 10 países indo para uma Copa do Mundo é demais.”

Por causa da força de seu próprio país, o Brasil é a única equipe que jogou todas as Copas do Mundo. Rangel pode estar predisposto a manter seu ponto de vista, mas é apoiado por outros da América do Sul.

“Quando ouvi que a FIFA aumentaria o número de participantes da Copa do Mundo (48 equipes se classificarão a partir de 2026, incluindo seis da América do Sul) para dar a países como a Venezuela uma chance, percebi que talvez eu seja a minoria, porque não acho que isso seja uma boa ideia”, diz Moreno. “A Copa do Mundo deve ser a elite da elite. É um torneio exclusivo. Expandir isso diminuiria a significância. Se tivermos que continuar a aumentar nossos padrões e a fomentar talentos, continuar a ir aos lugares mais difíceis, que assim seja. Já trilhamos um longo caminho. Não somos mais três pontos garantidos e estou orgulhoso disso. Nós temos importância. Podemos conseguir resultados e a próxima geração pode melhorar e chegar à Copa do Mundo.”

“Quando a Colômbia chegou à Copa do Mundo de 2014, era a primeira vez desde 1998 e milhares de torcedores compareceram”, diz Arias. “Alguns foram de carro. Levaram dois dias para atravessar a Amazônia. Eu era reserva na nossa primeira partida na Copa do Mundo contra a Grécia em Belo Horizonte. Fiquei olhando os torcedores colombianos, talvez 25.000 deles, na maior parte do jogo. Aquilo me encheu de orgulho. E depois eu entrei em campo. Nós vencemos. Foi um momento maravilhoso.” 

“Ficamos próximos de chegar à Copa do Mundo de 2010 na minha época e tínhamos dois jogos restantes, mas perdemos em casa para o Paraguai”, diz Moreno. “Temos de conviver com isso e o que fez disso mais decepcionante foi que empatamos com o Brasil na última partida. O Uruguai nos passou para jogar o mata-mata.”

 A equipe uruguaia, que era apenas a quinta melhor na América do Sul, acabou como quarta do mundo. Só para saber se você ainda estava se perguntando sobre como podem ser difíceis as eliminatórias da CONMEBOL.

Comentários

Bem-vindo a Conmebol: a região mais difícil das eliminatórias para a Copa do Mundo

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.