Nova aposta de Tite na seleção, volante de R$ 150 milhões era desprezado no Grêmio: 'Felipão e Roger nem falavam com ele'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Jorge e Arthur sonham com Copa-2018: 'Se der uma brechinha ali...'

Uma das grandes novidades na lista do técnico Tite para as partidas do Brasil contra Bolívia e Chile, pelas últimas rodadas das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 2018, foi o volante Arthur, de apenas 21 anos, do Grêmio. O jovem conquistou o treinador com suas ótimas atuações no Campeonato Brasileiro e na Libertadores, e agora luta por uma vaga entre os 23 convocados que estarão no grupo verde e amarelo no Mundial da Rússia.

Sua chance pode vir já nesta quinta-feira, quando a seleção brasileira encara os bolivianos, às 17h (de Brasília), em La Paz, pela penúltima rodada. 

Considerado um dos atletas mais promissores do futebol brasileiro, com uma multa rescisória de 40 milhões de euros (quase R$ 150 milhões), ele chama a atenção principalmente por sua qualidade no toque de bola e polivalência em campo. Nascido em Goiânia, deu seus primeiros chutes na bola no Goiás, ao lado de seu irmão, que também queria ser jogador. No entanto, apenas Arthur seguiu esse caminho.

"Nossa família tem uma fábrica de roupas femininas. Eu tenho o Paulo Henrique, que é mais velho que o Arthur. Os dois jogavam em uma escolinha e foram juntos para o Goiás, mas o Paulo parou de jogar aos 15 anos, enquanto o Arthur ficou até o final de 2010, por sete anos. Ele sempre se destacou lá, mesmo jogando na categoria acima da idade dele", contou Aílton Melo, pai do volante gremista, em entrevista ao ESPN.com.br.

O meio-campista foi descoberto pelo Grêmio aos 13 anos, durante um campeonato sub-15 na cidade de Londrina, no Paraná. O pai pediu apenas que o "Imortal" esperasse Arthur terminar o ano escolar em Goiânia. Aprovado, o garoto se mudou nas férias de dezembro de 2010 para Porto Alegre em busca do sonho.

O hoje jogador da seleção brasileira, porém, quase foi parar em outro time. 

Arthur em ação pelo Grêmio no Brasileiro
Arthur em ação pelo Grêmio no Brasileiro Lucas Uebel/Getty Images

"O Santos entrou em contato e tinha interesse no Arthur, mas um amigo próximo conhecia a estrutura do Grêmio e disse que era muito boa. Como o Arthur era muito jovem na época e ia morar em Porto Alegre sem a família, senti segurança por indicação do meu amigo. Foi isso que acabou pesando para ele ir para o Rio Grande do Sul", revelou Aílton.

Ir tão jovem para outro Estado e ficar tão longe dos pais, porém, provou-se difícil no início para a família de Arthur. Principalmente para sua mãe, Lúcia, com quem o atleta é muito ligado.

"Ele passou as festas de fim de ano com a gente e depois foi para São Paulo jogar a Copa Votorantim com o Grêmio, e eu fui acompanhá-lo. Aí ele entrou de férias e voltou para casa comigo. Era para retornar a Porto Alegre em fevereiro, mas a mãe não queria deixar (risos), pois eles são muito apegados. Ele ficou ainda umas três semanas depois das férias", lembrou o pai. 

Arthur comemora gol pelo Grêmio
Arthur comemora gol pelo Grêmio Ricardo Rimoli/Agif/Gazeta Press

Aílton, porém, acabou convencendo a esposa a "liberar" Arthur de volta para o Grêmio.

"Falei que a vontade dele ser jogador seria respeitada, e que ele não tinha nada a perder. Era melhor tentar, porque depois, um dia no futuro, ele poderia ficar arrependido e se remoendo por não ter tentado. O pessoal do Grêmio ligou bastante para a gente pedindo para o Arthur voltar, e no final eu falei com ela e deu tudo certo", relatou.

Como as categorias de base gremistas são conhecidas por sua força, porém, Arthur teve que suar a camisa para virar titular.

"Quando ele chegou ao Grêmio, o meio-de-campo da base era muito forte. A concorrência era complicada, mas ele sempre foi um menino muito dedicado. Com três meses, ele foi disputar um torneio e na segunda partida jogou muito bem e acabou virando titular. Em seguida, continuou atuando muito bem e se manteve como titular durante toda a base, se destacando em todas as categorias", exaltou.

 Enquanto isso, Arthur tentava viver a vida de um adolescente em Porto Alegre.

"Ele morou o primeiro ano no alojamento gremista, mas aí a gente alugou um apartamento bem de frente ao Estádio Olímpico para ele. O Arthur morava sozinho e se virava: comia nos restaurantes perto de casa e levava as roupas para lavar na lavanderia. A gente seguiu morando em Goiânia e dava todo o suporte necessário, mesmo de longe. Fizemos tudo para ele ficar no Sul", contou. 

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Ainda assim, às vezes era necessário que Aílton fosse pessoalmente à capital do Rio Grande do Sul para tranquilizar o filho em momentos difíceis, como as lesões que quase fizeram o volante desistir da carreira de jogador.

"Ele sentiu vontade de largar tudo e ir embora depois que se lesionou e teve uma tendinite em seguida, aí demorou para recuperar. Nessa época, o Arthur ficou muito chateado e pensou em ir embora. Aí sempre que ele passava por isso eu ia para Porto Alegre dar uma ajuda e fazer o papel de pai", salientou.

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Destaque na base gremista desde cedo, Arthur rapidamente despertou o interesse das seleções brasileiras inferiores. Em 2013, por exemplo, disputou o Sul-Americano sub-17 com o Brasil, ficando em 3º lugar e se classificando para o Mundial da categoria. No entanto, acabou ficando ausente da lista final do torneio.

Já em 2015, ele explodiu de vez na Copa São Paulo de Futebol Júnior, na qual o Grêmio chegou às quartas de final, sendo eliminado pelo Botafogo-SP. Logo em seguida, já foi promovido ao elenco profissional pelo técnico Luiz Felipe Scolari.

"Ele se destacou na Copinha aos 18 anos. O Felipão era o treinador e o chamou para o profissional. Ele perdeu as férias, mas foi todo animado, porque aquilo era o sonho dele. Ele começou treinando muito bem e teve algumas chances no Campeonato Gaúcho, não jogou mal. Só que depois ele foi tirado pelo treinador e nunca mais teve chances", lamentou Aílton.

Quando Felipão foi demitido, Roger Machado também não se encantou por Arthur, que, com a falta de chances, por muito pouco não trocou o Grêmio pelo São Paulo. 

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"Com o Roger ele ficou só treinando também. Eu perguntava aos outros jogadores como o Arthur estava, e eles me respondiam: 'Se ele tiver oportunidade e jogar como treina, não sai mais do time'. Eu fiquei cheio de esperança, mas nunca chegou a chance. Nessa época ele ficou bastante chateado, e o São Paulo tentou até tirá-lo do Grêmio, mas ele acabou ficando", revelou Aílton, que deu mais detalhes.

"Eles (São Paulo) me ligaram, mas no fim o Grêmio não quis se desfazer do Arthur. Na última negociação de contrato, quase não renovamos, porque ele só estava treinando e não tinha chances. Até gostavam dele, mas ao mesmo tempo ninguém explicava por que ele não jogava... Nós tentamos até para ele ser emprestado, mas o Grêmio também não quis. No fim, porém, optamos por seguir em Porto Alegre e ele continuou treinando enquanto esperava uma chance", rememorou.


Em 2016, apareceu o "salvador": Renato Gaúcho, que assumiu o "Imortal" em setembro de 2016, após a demissão de Roger. Ele imediatamente viu que tinha um "diamante bruto" em Arthur, e avisou que em breve ele teria uma oportunidade.

"O Renato é um cara muito brincalhão e lida bem com os jogadores. Ele incentivava o Arthur o tempo todo e falava para ele que, se seguisse treinando daquele jeito, teria uma chance em breve. Aí o garoto ficou muito mais motivado. Os outros treinadores nem falavam com ele", detonou Aílton. 

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E Portaluppi cumpriu sua promessa já na virada do ano.

"O Renato falou para Arthur jogar como treinava, passou muita tranquilidade e o levou para o jogo contra o Flamengo, em Brasília, pela Primeira Liga. Eu viajei para ver esse jogo e ele foi muito bem. Depois, jogou contra o América-MG, foi bem de novo e ganhou mais chances. Tudo mudou depois que o Renato chegou!", celebrou.

 Aílton, aliás, não cansa de expressar sua gratidão a Renato Gáucho.

"Só tenho que agradecer ao Renato, porque se ele não tivesse chegado, talvez o Arthur nem estivesse jogando no Grêmio hoje. Poderia estar lá só treinando ainda, como era com os treinadores anteriores...", cutucou. 

Arthur durante treino da seleção
Arthur durante treino da seleção EFE/MARCELO SAYÃO

Com o tempo, Arthur tornou-se titular absoluto do Grêmio, tornando-se um dos destaques da equipe gaúcha na disputa do Brasileirão e da Libertadores. Com passes perfeitos e um estilo de jogo diferenciado, ele também encantou Tite, que ligou para Renato Gaúcho e pediu referências sobre o volante. Ao receber muitas recomendações positivas, o treinador do Brasil resolveu acompanhá-lo in loco e comprovou: ali estava um jogador de nível de seleção. 

A notícia da primeira convocação veio no último dia 15 de setembro, e deixou a família do meio-campista exultante.

"A gente já tinha informações de que o Tite estava observando o Arthur, principalmente depois que ele falou com o Renato. Eu tinha esperanças de que o Arthur um dia seria chamado, mas não achei que já seria agora. Só que depois do jogo contra o Botafogo pela Libertadores, em que ele foi muito bem, fiquei com ainda mais esperanças. Quando ouvi o Tite falar o nome dele, foi uma surpresa, mas também uma felicidade muito grande. O sonho ficou completo", encerrou.

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