40 anos após a despedida do Cosmos, Pelé continua o maior, o mais carismático e inigualável nos EUA

José Antonio Cortés, do ESPN.com*
40 anos do adeus de Pelé aos Cosmos
40 anos do adeus de Pelé aos Cosmos ESPN.com.br

Se o futebol mundial for dividido em duas eras, algo como antes de Pelé e depois de Pelé, os Estados Unidos podem se vangloriar de ter contado por três temporadas com o cidadão Edson Arantes do Nascimento. Ele também foi um divisor de águas no país, mudando para sempre a história do esporte por lá.


O homem nascido em Três Corações, no interior de Minas Gerais, em 1940, continua sendo o maior atleta que jogou nos Estados Unidos, país que tem uma liga de futebol que se orgulha por sempre recrutar grandes astros.

Nem Cruyff, Beckenbauer, George Best, Chinaglia. Menos ainda Beckham, Keane, David Villa, Kaká, Lampard e Pirlo. Todos eles grandes jogadores em seus tempos, mas incapazes de se aproximarem dos feitos Pelé.

E eles não alcançam Pelé porque nenhum deles chegou aos Estados Unidos como o melhor jogador de futebol do mundo. Somente Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo, caso um dia sejam contratados por uma equipe da MLS, poderiam equiparar o que o mítico camisa 10 brasileiro fez na liga americana.

Pelé em ação pelo Cosmos em 1975
Pelé em ação pelo Cosmos em 1975 GettyPress

Cruyff? Um gênio que nunca ganhou uma Copa do Mundo, chegou ao país em 1978, aos 32 anos, após perder todo o seu dinheiro em  fazendas suínas. Jogou uma temporada pelo Los Angeles Aztecs e outra pelo Washington Diplomats, mas mesmo demonstrando toda sua classe não alcançou o mesmo impacto de Pelé, um homem que era conhecido até mesmo por aqueles que não sabiam como o futebol era jogado, em uma época que não havia internet para que se pudesse ficar famoso mundialmente e que por isso o brasileiro revelou-se como algo único.

Beckenbauer?  Um mestre do futebol, campeão do mundo em 1974 com a Alemanha Ocidental e talvez o sujeito mais elegante que se viu em campo. Uma lenda que foi três vezes campeão com o Cosmos, contribuiu muito com o futebol nos EUA, mas, assim como Cruyff, nunca causou o impacto de Pelé.

Beckham? Um grande cobrador de faltas, um jogador talentoso e midiático. Talvez seja aquele que tenha causado mais impacto na mídia quando foi contrato pelo Los Angeles Galaxy, mas, honestamente, o inglês teve uma atuação irregular nos gramados, algo que contrastava com sua regularidade nos tapetes vermelhos.

  • A assinatura impossível

Mas como convenceram Pelé a ingressar nas fileiras do Cosmos? 

O autor desse contrato improvável foi o inglês Clive Toye, que já se fazia presente em Nova York desde 1969, antes mesmo da equipe nascer e que percebeu que a liga norte-americana precisava de Pelé para conseguir se erguer.

Toye e Phil Woosman, dirigente da NASL, perceberam que a Liga estava afundando após três temporadas e que só um nome como Pelé poderia salvar o "soccer" e despertar o interesse dos fãs nos Estados Unidos. 

Devaneio? Missão impossível? É possível que qualquer um pensasse assim, mas a teimosia de Toye o levou a perseguir, sim, foi uma perseguição, Pelé. Segundo o escritor Gavin Newsham em seu livro "Uma vez na vida, a incrível história do New York Cosmos", o brasileiro reagiu assim ao primeiro contato: "Diga-lhes que estão loucos! Eu nunca vou jogar em outro time que não seja o Santos!".

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É preciso lembrar que Pelé, estrela do Santos, nunca defendeu outro time e que havia uma lenda de que o presidente do Brasil, Jânio Quadros, aprovou um decreto-lei em 1961 declarando o camisa 10 como "Tesouro Nacional", proibindo assim a transferência do jogador para o exterior.

Esse extravagante ato presidencial era o mínimo que você poderia esperar de um chefe de Estado que também proibiu o uso de biquínis no Brasil! Mas nenhum dos presidentes e ditadores militares revogou o decreto. Por que?

O fato é que Pelé estava no crepúsculo de sua carreira e não tinha experiência fora do Brasil jogando por outro clube, apesar de ter estado em quatro Copas do Mundo e tendo vencido três edições do torneio. Foi assim que Toye o perseguiu por quase cinco anos, dezenas de viagens e milhas percorridas, até o dia 3 de junho de 1975, quando finalmente o Rei de Futebol assinou contrato com o Cosmos. 

Pelé é carregado pelos jogadores no jogo de despedida do futebol, há 40 anos
Pelé é carregado pelos jogadores no jogo de despedida do futebol, há 40 anos GettyPress

 O primeiro passo do cortejo a Pelé ocorreu em 1971, quando Toye, durante um amistoso do Santos no estádio do Yankees, entregou ao atacante brasileiro uma camisa do Cosmos com o número 10, dizendo que ninguém usaria esse número no clube até o dia de sua chegada. A ousadia de Toye era tamanha que ele escolheu como cores do Cosmos o verde, o amarelo, o branco e o azul, que coincidiam com a mistura das cores da bandeira do Brasil e do Santos. Tudo para tentar agradar Pelé.

O brasileiro assinou um contrato de três anos para receber US$ 2,8 milhões, cerca de US$ 18 milhões em valores de hoje, e passou a ser seguido por todos como a grande estrela do futebol norte-americano. Em uma carreira que fez incríveis 1.281 gols, decidiu parar em 1977 nos EUA, mas não sem deixar uma legião de sonhadores.

Reunir Pelé, Beckenbauer, Carlos Alberto e Chinaglia em feito inédito, que nem mesmo um clube europeu foi capaz de conseguir. O Cosmos foi capaz graças ao apoio da Warner, que era a dono do clube nova-iorquino.

O time conseguiu conquistar o título norte-americano em 1977, justamente no último ano de contrato com Pelé. Ao todo, ele fez 64 gols em sua passagem pelo time dos EUA, que naquele ano passou a jogar no Giants Stadium por causa da média de 70 mil espectadores. Mas, após Pelé se despedir naquele 1º de outubro de 1977, a liga começou enfraquecer até desaparecer.

A semente do futebol germinou nos Estados Unidos graças a Pelé e 40 anos depois de sua aposentadoria os EUA tentaram uma retomada nos últimos anos, buscando jogadores famosos como David Beckham. Toda nova estrela é a esperança de um boom ao estilo que Pelé causou, mas isso não é possível.

Pelé chegou aos Estados Unidos aos 34 anos, a mesma idade que Lionel Messi terá daqui quatro anos e que Cristiano Ronaldo terá em dois... Talvez, se um deles, quando tiver 34 anos, se deixar seduzir pelos dólares, quem sabe podemos ver um fenômeno semelhante ao de Pelé nos anos 70, enquanto isso nada consegue se comparar ao que o Rei do Futebol fez. Ele é inigualável.

*Repórter do ESPN.com. Tradução do ESPN.com.br

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