Campeão por 4 gigantes e pela seleção, ele decreta: Romário foi melhor que Ronaldo 'Fenômeno'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Romário e Ronaldo comemoram gol da seleção na Copa das Confederações de 1997
Romário e Ronaldo comemoram gol da seleção na Copa das Confederações de 1997 Matthew Ashton/EMPICS via Getty Images

Hoje fazendo sucesso como técnico do Fortaleza, que acaba de garantir o acesso à Série B, Antônio Carlos Zago foi um dos grandes zagueiros da história do futebol brasileiro. Durante sua carreira, foi campeão pelos quatro grandes paulistas (São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Santos) e também levantou a Copa América de 1999 pela seleção brasileira. Também ganhou títulos e virou ídolo da Roma, na Itália, e do Besiktas, na Turquia, antes de se aposentar, em 2007, pelo Santos. 

Foram ao todo 21 anos de carreira, desde que começou em 1986, no pequeno Ubiratan Esporte Clube, do Mato Grosso do Sul. E, nessas duas décadas, Zago marcou outros grandes nomes da história do futebol, principalmente os grandes craques dos anos 90. Por isso, tem conhecimento de causa para falar de muitos deles.

"Eu tive a chance de jogar contra todos os melhores atacantes do mundo nessa época. Marquei o George Weah, que era muito forte e rápido, logo no meu primeiro ano de Roma. Senti muita dificuldade de jogar contra ele. Também era muito difícil marcar o Vieri, que era um 'touro'", lembrou o ex-defensor, em entrevista ao ESPN.com.br.

Zago, aliás, também marcou dois dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro: Romário e Ronaldo "Fenômeno". E se há uma eterna discussão sobre quem foi melhor entre os dois, o hoje treinador não se omite de dar sua opinião, reforçada pelo fato de ter enfrentado ambos no mano-a-mano (e no auge) em várias ocasiões. 

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"No auge, o Romário foi melhor e mais difícil de marcar. Foi o cara que mais me impôs dificuldades durante minha carreira", decretou Antônio Carlos.

"Ele era mais imprevisível que o Ronaldo. Não teve um outro jogador de área no futebol como Romário. Ninguém! Era pura velocidade aliada à técnica. Os movimentos que ele fazia já 'queimavam' os zagueiros na saída. Foi o melhor atacante que marquei, um cara que fazia coisas inacreditáveis", exaltou. 

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Para justificar sua opinião, Zago se lembrou de um episódio que lhe marcou a memória. Aconteceu em 3 de setembro 1995, quando ele era um dos grandes nomes do Palmeiras da Parmalat, e foi ao Maracanã enfrentar o Flamengo do "melhor ataque do mundo", pelo Brasileirão. O "Verdão" até venceu por 2 a 1, mas o "Baixinho" quase fez Antônio Carlos perder os poucos cabelos que lhe restavam. 

"Fomos para o Rio enfrentar aquele Fla de Sávio, Romário e Edmundo. Eu falava para o Célio Lúcio [seu companheiro de zaga] toda hora: 'Vamos prestar atenção no Romário, tem que ficar de olho nele'. Porque o Sávio e o Edmundo estavam em má fase, mas o Romário era herói do Tetra e estava vivendo o auge", recordou. 

Zago marca Euller na Libertadores de 94
Zago marca Euller na Libertadores de 94 Gazeta Press

"Aí abrimos 1 a 0 e estávamos controlando a partida. Só que, numa bobeira, o Romário fez sei lá o que, acho que ele 'cavucou' a terra, saiu do outro lado e fez o gol na gente (risos)! Eu olhei para o Célio e falei: 'E aí?', e ele me olhou de volta assustado e respondeu: 'Antônio, não vi por onde ele passou, te juro por Deus!' (risos)", gargalhou. "Ele estava morto em campo, sumido, e, de repente, num lance de gênio, fazia isso. Por isso eu te falo que o melhor atacante que marquei na vida foi o 'Baixinho'. Ele enlouquecia qualquer zagueiro", elogiou. 

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E apesar de ter ficado atrás de Romário na lista, Ronaldo "Fenômeno" também ganha muitos elogios do ex-defensor. Mas Zago bate o pé e reafirma: era mais difícil anular o eterno camisa 11 do que o icônico 9 de Real Madrid, Barcelona, Inter de Milão, Milan, PSV Eindhoven, Corinthians, Cruzeiro e seleção brasileira.

"Joguei bastante contra o Ronaldo também, mas ele se movimentava mais em campo, então você conseguia vê-lo na maioria das situações e tê-lo como referência. Dava para ver o que ele estava fazendo e tentar antecipar ou ao menos atrapalhar. Já o Romário às vezes 'sumia', e, quando aparecia, já estava na cara do gol e comemorando. Aí não tinha mais o que fazer... Só lamentar (risos)", brincou.

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Nascido em Presidente Prudente, no interior de São Paulo, Antônio Carlos ficou na cidade até os 10 anos, jogando na escolinha do Corinthians de Presidente Prudente. Como seu pai era caminhoneiro, porém, o jovem Zago teve que se mudar.

"Meu pai era caminhoneiro e apareceu para ele um emprego em Dourados, no Mato Grosso do Sul. Nós nos mudamos para lá e com 13 anos eu comecei a trabalhar em um depósito de verduras. Ele levava verduras de Campinas para Dourados umas três vezes por semana, e eu dava uma mão no que precisasse", rememorou.

Enquanto trabalhava, Zago tentava realizar o sonho de ser jogador de futebol. 

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"Desde cedo tive que trabalhar para ajudar a colocar as coisas dentro de casa. Mas, com 14 anos, eu tinha 1,80m e já jogava bola no meio dos adultos. Aí fiz um teste, passei e comecei a jogar no Ubiratan, que era o time da cidade, na 1ª divisão do Campeonato Sul-Mato-Grossense. Conciliava a rotina com o trabalho", relatou.

"Eu chegava às 4h da manhã três vezes por semana no depósito de verduras. Na segunda-feira, fazia a cobrança na rua. Ao mesmo tempo, treinava duas vezes por semana e estudava de noite. Eu dormia no máximo 5h por noite. Sábado ainda trabalhava o dia todo. Saía umas 3h da manhã e no domingo já estava na feira às 7h. Fiquei nessa rotina uns três anos, e era bem cansativa", contou Zago. 

Zago (esq) e Muller em treino do São Paulo
Zago (esq) e Muller em treino do São Paulo Gazeta Press

Antônio Carlos acabaria virando um excelente zagueiro no futuro. Nessa época, porém, ele ainda jogava como atacante, já que era muito alto e subia de cabeça como poucos.

"Com 16 para 17 anos, eu virei profissional e fui artilheiro do Sul-Mato-Grossense, acredita (risos)? Eu era centroavante nessa época, atuava como camisa 9, mas às vezes até de meia (risos). Em 1986, eu comecei a receber salário do clube e aí parei de trabalhar de vez com meu pai. Foi quando deixei o depósito de verduras e passei a me dedicar totalmente a ser jogador", salientou.

Aquele atacante matador que começava a despontar em Mato Grosso do Sul chamou a atenção do São Paulo, que, através de sua rede de olheiros, convidou Zago para passar por um período de experiência no clube do Morumbi. 

Zago em sua apresentação no Santos
Zago em sua apresentação no Santos DJALMA VASSÃO/Gazeta Press

"Chamei a atenção do São Paulo em 1987, quando o Pupo Giménez era olheiro e viu dois jogos meus. Fiz gols nessas partidas e fui chamado para fazer uns testes no time principal. A zaga do Tricolor nessa época era só Oscar e Darío Pereyra. Tá louco! (risos)", divertiu-se.

"Só que, logo no primeiro treino, eu fiz dois gols! Era coisa de Deus, mesmo (risos). Eu era bom cabeceador e tinha uma técnica até boa. O Gilmar Rinaldi era o goleiro do São Paulo nessa época e falou muito bem de mim. Aí já fui para o 'Expressinho', que era o time da molecada que havia subido da base, mas não era aproveitada na equipe principal. Fomos fazer vários jogos no interior de São Paulo, eu segui me destacando e fui aprovado, mas aí a diretoria do Ubiratan pediu muito dinheiro e o São Paulo não quis me comprar", lembrou Zago. 

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Zago, então, voltou para Dourados frustado por ter pedido a chance de jogar em um dos gigantes do futebol brasileiro. Apenas seis meses depois, todavia, o São Paulo voltou à carga e contratou em definitivo, no final de 1987. Foi nessa época que ele também se descobriu zagueiro, sendo recuado e mudando de vez de posição. 

Zago em ação pela Roma, time do qual é ídolo
Zago em ação pela Roma, time do qual é ídolo Tony Marshall/EMPICS via Getty Images

"Quando cheguei ao São Paulo, era aquele time do Muller, Silas, Sidney, Lê... Não tinha vaga para mim no ataque, então foram me recuando e primeiro me colocaram de volante. Só que aí o Pupo Giménez começou a jogar com três zagueiros e me testaram como líbero. Viram que eu tinha facilidade em sair jogando e depois o Pablo Forlán me testou de lateral e zagueiro algumas vezes. Quando veio o Telê Santana, o Pupo falou para ele: 'Telê, pode colocar o grandão ali que ele sabe jogar na zaga'. Em dois anos, fui de centroavante matador para zagueiro, e acabei ficando como zagueiro mesmo (risos)", contou.

Antônio Carlos, aliás, considera que o fato de ter jogado como centroavante no início da carreira foi essencial para que ele se tornasse um craque da zaga. 

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"Por conhecer a outra função, eu entendia muito bem o posicionamento dos adversários. Então, eu sempre conseguia antever e antecipar o que eles iam fazer. Isso me ajudou demais, principalmente no início, quando eu estava me firmando como defensor. Sempre fui muito observador, e isso, aliado à técnica boa e à saída de bola de tranquilidade, me ajudaram a seguir evoluindo", ressaltou. 

Zago em ação pela seleção
Zago em ação pela seleção STF/AFP/Getty Images

Pelo São Paulo, Zago ganhou uma Libertadores, um Brasileiro e dois Paulistas antes de ser vendido ao Albacete, da Espanha, em 1992. Já no ano seguinte, porém, foi levado pela Parmalat para o Palmeiras, no qual tornou-se ídolo conquistando dois Brasileiros, dois Paulistas e um Rio-São Paulo.

Na sequência da carreira, o zagueiro ainda ganhou um Paulista pelo Corinthians e mais um Brasileiro e um Paulista pelo Santos. Pela Roma, foi campeão Italiano e da Supercopa da Itália, e ainda ganhou um Campeonato Turco pelo Besiktas. Pela seleção brasileira, faturou a Copa América de 1999, arrasando o Uruguai na final.

Aposentou-se em 2007, pelo Santos, e começou a carreira de treinador em 2009, no São Caetano. Como técnico, passou também por Palmeiras e Internacional, sendo campeão da Recopa Gaúcha pelos Colorados neste ano. Atualmente, ele comanda o Fortaleza e está em busca do título da Série C do Brasileiro.

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