Há 40 anos, Pelé despedia-se do Cosmos, clube que o salvou da falência e que revolucionou salários de atletas

Rafael Valente, para o ESPN.com.br

Do "não" ao "love"

Há 40 anos, Pelé discursava sobre o amor ao se despedir do Cosmos, clube que havia recusado durante 4 anos 

 

 

"Love, love and love."

Quatro palavras pronunciadas por um Rei e repetidas por 75.646 súditos entristecidos, que há 40 anos lotaram as arquibancadas do Giants Stadium, em New Jersey, para assistir o jogo de despedida de Pelé do New York Cosmos. O adversário escolhido para coroar o momento foi o Santos, reunindo assim o primeiro e o último clube do camisa 10.

Naquele 1º de outubro de 1977, Pelé jogou a primeira metade do confronto com a camisa verde dos Cosmos, sua equipe desde 1975. Fez até um gol, de falta, o 1.283º da carreira. Depois voltou a vestir o uniforme branco do Santos na metade final da partida, em sinal de agradecimento ao clube onde iniciou a vida como jogador, em 1956, quando tinha só 15 anos.

Terminado o amistoso, ele tirou a camisa 10 do Santos e a entregou ao ex-jogador Waldemar de Brito, seu descobridor. O manto verde também com o número 10 já havia sido entregue ao pai, Dondinho, no intervalo. Ao final da cerimônia, foi carregado pelos companheiros de Cosmos, saudado pelos santistas e concluiu tudo com uma volta olímpica.

Acompanhado pelo som da valsa da despedida, levava na mão direita a bandeira do Brasil e na esquerda a dos EUA, pátria que adotou definitivamente como sua segunda casa e que ajudaria na vitoriosa campanha para ela ser sede da Copa do Mundo de 1994.

Antes da partida Pelé fez seu famoso discurso de despedida. Mencionou que era importante o mundo olhar e cuidar dos mais jovens, das crianças. Ao final, pediu ao público para repetir com ele três vezes a palavra Love. Na sequência chorou. E revelou tempos depois que sentiu-se lisonjeado por ver que seu discurso também tocou outro campeão.

"Somos personalidades diferentes. Porém quando falei em amor e vi Muhammad Ali chorando, compreendi então que há um terreno em que todos somos iguais", disse Pelé, alguns dias depois do jogo, quando já estava no Brasil, para o jornal "Folha de S.Paulo".

Muhammad Ali ao lado de Dondinho assistem ao jogo em 1977
Muhammad Ali ao lado de Dondinho assistem ao jogo em 1977 Acervo/GazetaPress

Uma lista de convidados especiais assistiu ao amistoso. Nomes como Ali, o ator Telly Savalllas (famoso por interpretar Kojak), a cantora Roberta Flack (do hit "Killing Me Softly"), o rolling stone Mick Jagger, o ator Robert Redford (que havia concorrido ao Oscar de Melhor Ator em 1974 por "Um Golpe de Mestre"), Henry Kissinger (ex-secretário de Estados dos EUA) e Jeff Carter (filho do presidente americano Jimmy Carter, que teve de se ausentar).


Brasileiros ilustres também se fizeram presentes no Giants Stadium. Casos de Antonio Azeredo da Silveira, então ministro das relações exteriores, Odilon Andrade, prefeito de Três Corações, cidade natal de Pelé, Athiê Jorge Cury (ex-presidente do Santos) e Bellini, Mauro e Carlos Alberto, os três capitães da seleção nas conquistas mundiais de 1958, 1962 e 1970, respectivamente.

"O mais importante pra mim na despedida do Cosmos foi ter promovido o Brasil pois tinha a imprensa de todo mundo acompanhando aquele evento. E tão importante também é que o nosso futebol ficou sendo conhecido dentro dos EUA. Ainda acho que foi a melhor decisão para o atleta Pelé e o cidadão Edson Arantes do Nascimento em termos culturais [ter parado naquele momento]. Alguns times europeus e principalmente do Japão e México tentaram me contratar depois. Mas decidi sair por cima", disse Pelé especialmente ao ESPN.com.br.

Ao anunciar o fim oficial da carreira, Pelé saiu de cena com a incrível marca de 1.365 jogos e 1.283 gols para dar início a uma nova fase em sua vida, a de embaixador do Brasil e do futebol.

Pelé ajudou a colocar o Cosmos no mapa do futebol, mas também foi ajudado pelo clube americano, que salvou suas finanças ao propor um salário milionário para os padrões da época, revolucionando a partir de então o mundo esportivo.

Estou muito feliz de estar aqui com vocês em um grande momento da minha vida. Agradeço a todos pelo que fazem por mim e quero aproveitar está oportunidade, em que todos no mundo olham para mim, para pedir atenção e cuidados aos jovens e para as crianças ao redor do mundo. Creio e acredito que o amor é o mais importante que podemos oferecer. Tudo passa. Por isso peço que digam comigo três vezes: amor, amor e amor. Muito obrigado.

Pelé, em seu discurso de despedida em 1977
 

 

Pelé abraça Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, em 1977
Pelé abraça Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos EUA, em 1977 GettyPress
 

Pelé estava quebrado

Foi ele próprio quem constatou isso após concluir a carreira no Santos, em 1974, e iniciar o que ele imaginava ser uma vida tranquila longe do futebol.

Pelé despediu-se do Santos em 2 de outubro de 1974, na Vila Belmiro, na Baixada Santista. Foram mais de 20 mil espectadores que assistiram a vitória por 2 a 0 sobre a Ponte Preta pelo Campeonato Paulista. O camisa 10 jogou 22 minutos, depois ajoelhou-se no campo e disse adeus.

A expectativa que ele criara era viver em Santos com a mulher Rosemery e os filhos Edinho e Kelly. Mas tudo mudou após uma visita de seu contador, como ele mesmo relatou sem sua autobiografia "Pelé: A importância do futebol", publicada em 2013.

Pelé ajoelha-se na Vila Belmiro em sua despedida do Santos, em 1974
Pelé ajoelha-se na Vila Belmiro em sua despedida do Santos, em 1974 Divulgação

"Eu ainda me lembro do suor na testa do contador quando ele entrou no meu escritório. Parecia que ele estava prestes a desmaiar. Senti na hora que alguma coisa estava errada e tentei aliviar o clima com um pouco de alegria."

"'E aí', eu disse sorrindo, 'Quantos milhões nós temos?'. O contador ficou pálido. Eu deveria ter chamado um médico ali mesmo. 'É complicado', disse ele."

"Na verdade, não era nem um pouco complicado. Eu não tinha milhões. Eu devia milhões. Enquanto tinha acumulado vários bens, eu não tinha prestado muita atenção no que eram esses bens - eu deixei que outras pessoas fizessem isso. Havia uma empresa que praticamente cancelava todas as coisas boas que havíamos conseguido. Ela se chamava Fiolax, uma fabricante de peças de borracha. De forma imprudente, eu assinei um documento como garantia de um empréstimo ao banco, garantindo também as obrigações, ainda que eu não fosse um sócio majoritário. Quando a empresa não conseguiu pagar o empréstimo, o banco veio atrás de mim. Também havia uma multa porque a empresa havia violado algum regulamento de importação. No fim das contas, a empresa devia alguns milhões de dólares e eu havia sobrado com a conta", escreveu Pelé.

A notícia fez com que Pelé repensasse toda a sua vida. Aos 33 anos, tricampeão do mundo pela seleção e bicampeão mundial pelo Santos, ele não imaginava que teria de voltar ao futebol. Foi o que aconteceu, e o salvador da pátria foi o Cosmos.

Não vou tentar disfarçar. Um grande motivo para minha mudança de pensamento foi aquela terrível visita do meu contador no final de 1974. Eu devia milhões, estava determinado a pagar minhas dívidas e eu sabia que jogar futebol era de longe a melhor coisas que eu podia fazer. Os valores que Clive Toye havia mencionando correspondiam a um dos contratos mais lucrativos da história de qualquer esporte.

Pelé, em seu livro de 2013
 

 

Pelé em ação pelo Cosmos em 1976, ano do título
Pelé em ação pelo Cosmos em 1976, ano do título GettyPress
 

Cosmos, a luz no fim do túnel

O responsável por convencer Pelé a defender o Cosmos foi o britânico Clive Toye, que era vice-presidente e gerente geral da equipe norte-americana, criada em 1970.

O primeiro encontro foi em 31 de janeiro de 1971. O Santos estava na Jamaica para fazer alguns amistosos. Toye se aproximou de Pelé e fez uma oferta para que ele fosse jogar no New York Cosmos e ajudasse a espalhar a febre do futebol pelos EUA. A proposta para defender uma equipe que nem sequer tinha um ano e de um país sem tradição no futebol não empolgou nem um pouco o camisa 10, acostumado a rejeitar clubes dos quilates de Real Madrid, Barcelona e Juventus.

Pelé em sua despedida, em 1977
Pelé em sua despedida, em 1977 GettyImages

"Professor, diga para ele que ele é louco! Nunca, jamais, vou jogar por outra equipe que não seja o Santos", disse Pelé em português para Julio Mazzei, preparador físico do Santos, que traduziu a explicação para o inglês, respondendo Toye.

Mas o britânico não desistiu. De 1971 até 1975 ele encontrou Pelé inúmeras vezes.

"Não importava quantas vezes eu educadamente dissesse não ou quantas vezes eu havia dito com todas as letras que eu nunca, jamais, iria sair do Brasil, ele sempre aparecia de novo, à espreita no saguão do hotel ou se esgueirando nos intervalos das minhas partidas. Cada vez ele agia como se a gente nunca tivesse conversado antes'", escreveu o camisa 10 em "Pelé: A importância do futebol".

A história mudou de figura em 1975, ano que Pelé soube que estava em péssima situação financeira. Toye encontrou o Rei do Futebol no hotel G.B. Motor Inn, em Bruxelas, em 27 de março, um dia após um amistoso com várias estrelas internacionais contra o Anderlecht.

Pelé pensou em falar não mais uma vez. Mas ficou interessado em ouvir os valores. Em seu livro, ele revelou que o relato de uma camareira do hotel também o ajudou. Ela lhe contou que havia comprado dois ingressos para ver o jogo entre as estrelas do futebol e o Anderlecht. O marido dela era fã do Rei do Futebol e estava muito empolgado por ter a primeira chance de ver o jogador ao vivo, mas morreu alguns dias antes da partida sem realizar o sonho. A camareira fez Pelé chorar.

Diante desse relato e também diante Toye, Pelé confessou em seu livro de 2013 que acabou aceitando convite do New York Cosmos unindo o útil ao agradável. Iria resolver os problemas financeiros da melhor forma que sabia: jogando bola.

Para que Toye voltasse tranquilo aos EUA, Pelé revelou que assinou um pedaço de papel qualquer, em que havia até o nome do hotel, como prova de que não mudaria de ideia. Era o começo de uma curta, mas empolgante nova era.

'Nós temos este time incrível que estamos montando em Nova York', ele começava como se fosse a primeira vez que a gente se encontrava. 'Achamos que você deveria vir jogar com a gente por uns três anos.'

Pelé sobre Toye e o Cosmos, em seu livro
 

 

Pelé e o presidente dos EUA, Gerald Ford, batem bola na Casa Branca, em 1975
Pelé e o presidente dos EUA, Gerald Ford, batem bola na Casa Branca, em 1975 GettyPress
 

Um novo patamar de salários

Do encontro em março de 1975 até a estreia em junho de 1975 passaram-se 80 dias em que o contrato entre Pelé e Cosmos foi discutido.

Além de ser contratado para jogar, o camisa 10 fechou um acordo que incluía todo tipo de promoção e merchandising, o que multiplicou seus ganhos. O Cosmos pertencia a Warner Communications, que passou a fazer uso da marca Pelé para publicidade e relações públicas. Era uma novidade.

No livro "Pelé: A importância do Futebol", o Rei do Futebol afirma que acordou receber US$ 1 milhão por ano por sete anos de contrato. Os números contrariam tudo que já foi publicado sobre o tema. Algumas fontes apontam de US$ 2,8 milhões por três anos, o que significaria mais ou menos US$ 930 mil anuais.

Já reportagem do "The New York Times" de junho de 1975 atesta que foram US$ 7 milhões por três anos, sendo que US$ 2 milhões seriam destinados a pagar impostos no Brasil. Um salário anual de cerca de US$ 1,7 milhão. 

No Brasil, "O Estado de S.Paulo" registrou que foram US$ 4,5 milhões por três anos, ou seja, US$ 1,5 por ano.

De qualquer modo, a verdade é que os valores significaram uma revolução no que se refere ao salário de atletas. Também mudaram a forma de o mercado ver os atletas, passando a explorá-los mais comercialmente, transformando seus nomes em verdadeiras marcas.

Foi o próprio "The New York Times" que atestou isso.

"O acordo faz Pelé, 34 anos, cujo verdadeiro nome é Edson Arantes do Nascimento, o atleta de equipe mais bem pago do mundo", registrou o jornal, em 1975.

Uma comparação com as três principais ligas americanas mostra que, fosse qual fosse o salário de Pelé entre os citados acima, ele era estava mesmo acima do patamar de qualquer outro esportista.

Na época, o atleta mais bem pago da NBA era Kareem Abdul-Jabbar, do Los Angeles Lakers, que recebia US$ 450 mil por ano.

Segundo a "Sports Ilustrated", o salário médio dos jogadores da NFL em 1974 era de US$ 30 mil por temporada, enquanto a WFL (a liga concorrente) pagava cifras astronômicas. O mais bem pago era Ted Hendricks, do Green Bay, que que recebeu 340 mil dólares em 1974.

Já a MLB pagava US$ 240 mil para Hank Aaron, do Atlanta Braves, o atleta de melhor remuneração em toda a liga de beisebol, segundo ampla pesquisa do site especializado "Society for American Baseball Research".

Na Itália ou na Espanha você vencerá campeonatos. Mas no New York Cosmos, nos Estados Unidos, ganhará um país.

Clive Toye em uma das tentativas de contratar Pelé
 

 

Pelé defendendo a seleção de estrelas do Campeonato Norte-Americano, em 1976
Pelé defendendo a seleção de estrelas do Campeonato Norte-Americano, em 1976 GettyPress
 

Sucesso e despedida

“Brasil, vamos ver Pelé pela última vez”.

Foi assim que o locutor Walter Abrahão, um dos mais importantes narradores esportivos da TV brasileira, iniciou a transmissão de New York Cosmos x Santos, no Giants Stadium, naquele 1º de outubro de 1977.

A partida foi transmitida ao vivo para o Brasil pela extinta Rede Tupi. No Rio de Janeiro, o sinal foi compartilhado com a TV Studio. O evento teve ao todo 650 jornalistas cadastrados e foi visto em 38 países.

Os números ajudam a entender não apenas o fenômeno Pelé, mas sobretudo o efeito dele no futebol americano.

Quando chegou ao país, deparou-se com times semiamadores, estádios com grama artificial ou gramados pintados de verde para que as falhas fossem ocultadas.

A média de público do Cosmos era de 3.578 pessoas por jogo em 1974. Aumentou para 10.450 (1975), 18.227 (1976) e 34.142 (1977).

O time de New York jogava no pequeno Downing Stadium. Em 1976, mudou-se para o Yankee Stadium e, na temporada seguinte, para o Giants. Seguidas vezes bateu o recorde de público da NASL (North American Soccer League).

Pelé teve um início difícil em 1975, dada a fraqueza do time. No ano seguinte, chegaram Beckenbauer e Chinaglia, e ele foi eleito o MVP da Liga. Em 1977, foi a vez da vinda de Carlos Alberto Torres. Foi o ano em que o time sagrou-se campeão.

No total, entre jogos oficiais e amistosos, foram 106 jogos e 64 gols, embora alguns locais registrem 111 jogos e 65 gols.

Sem Pelé, o futebol nos EUA prosseguiu bem até o início dos anos 1990. A seleção americana retornou ao Mundial naquele ano quebrando um jejum de 40 anos e candidatou-se para receber a Copa de 1994 (ganhou com ajuda de Pelé).

Pelé chegou a entrar outras vezes em campo após 1977, mas todas já devidamente aposentado e só para homenagens.

O futebol nos EUA viveu anos de altos e baixos e tentativas seguidas de tentar renascer uma liga que empolgou muitos nos anos 1970. Mas é possível que somente outro Pelé seria capaz de proporcionar algo parecido.

Talvez por isso, ao final do jogo em 1º de outubro de 1977, o painel eletrônico do Giants Stadium exibiu a frase "Pelé, the man!"

O pior momento da vida é quando alguém encerra a sua carreira. Mas é maravilhoso concluí-la quando se quer. Alguns jogadores querem e não conseguem por falta de dinheiro.

Pelé em sua despedida

Pelé é carregado pelos jogadores no jogo de despedida do futebol, há 40 anos
Pelé é carregado pelos jogadores no jogo de despedida do futebol, há 40 anos GettyPress

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Há 40 anos, Pelé despedia-se do Cosmos, clube que o salvou da falência e que revolucionou salários de atletas

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