Há 40 anos, histórias em quadrinhos ganhavam 'Pelezinho'; mas rei do futebol queria que personagem fosse o 'Pelezão'

Rafael Valente e Rafael Belattini, para o ESPN.com.br
Mauricio de Sousa conta como transformou Pelé em personagem de quadrinhos há 40 anos

Foi durante um voo partindo de Roma, na Itália, que dois dos brasileiros mais famosos nos anos 1970, cuja fama ultrapassava até as fronteiras nacionais, tiveram a chance de conversar e bolar o que naquele momento parecia uma grande loucura. Um personagem de quadrinhos inspirado em um jogador de futebol. Talvez fosse mesmo loucura se de um lado não estivesse Pelé, o "atleta do século", e do outro Mauricio de Sousa, o "pai" da Turma da Mônica.


Pelé virou Pelezinho nas mãos de Mauricio de Sousa, numa versão que retratava a infância do Rei do Futebol. Apareceu primeiramente em tirinhas de jornal, em 1976, e ganhou vida própria, virando revista, em agosto de 1977, há exatos 40 anos.

A parceria entre Pelé e Mauricio de Sousa teve vida longa. De agosto de 1977 até dezembro de 1986, sendo que Pelezinho chegou a reaparecer em 1990 - como parte dos festejos de 50 anos do Rei do Futebol - e em 2012.

A data do encontrou aéreo que serviu de pontapé inicial perdeu-se na memória dos protagonistas, mas a história ainda arranca emoção.

"O primeiro personagem de sucesso de um astro de futebol no mundo foi o Pelezinho. Depois houve algumas outras propostas, muito fracas, que não duraram muito tempo.Pelezinho realmente foi o mais longevo. Fico feliz com isso, e o Pelezinho é um dos meus troféus", disse Mauricio para o ESPN.com.br.

"Eu agradeço ao Mauricio por ter me convencido a fazer esse  projeto do Pelezinho com ele. Porque isso fez com que eu tivesse um contato direto com as crianças e as novas gerações", acrescentou Pelé para a reportagem.

Mas como um astro de futebol se transforma em um personagem de quadrinhos?

Mauricio de Sousa e Pelé na assinatura do acordo nos anos 70
Mauricio de Sousa e Pelé na assinatura do acordo nos anos 70 Divulgação
  • Um encontro nas alturas

A história de que como Pelé virou Pelezinho poderia até ser tema de uma história em quadrinhos dada a série de coincidências para tudo virasse real.

"Muitos anos atrás, num voo de Roma para São Paulo, eu embarquei junto com o Pelé. Ele tinha feito alguns jogos lá na Europa e estava voltando, e eu também estava voltando de um festival de histórias em quadrinhos em Lucca, na Itália. Sentamos lado a lado e começamos a conversar sobre histórias em quadrinhos. E coloquei uma ideia que já estava rodando minha cabeça já há algum tempo: por que não criar um personagem baseado no Pelé?", contou Mauricio.

O encontro ocorreu quando Pelé era jogador do Santos, tinha pouco mais de 30 anos, mas a criação só virou realidade quando ele estava no New York Cosmos. O Rei do Futebol já era tricampeão mundial pela seleção, bicampeão mundial pelo clube alvinegro e acumulava inúmeros outros troféus relevantes.

Mauricio de Sousa durante conversa com a ESPN
Mauricio de Sousa durante conversa com a ESPN ESPN.com.br

Mauricio de Sousa estava com quase 40 e vivia uma fase especial. Após longos anos batalhando, foi na década de 1970 que o desenhista viu as personagens criadas a partir de 1959 explodirem. Em 1970, lançou o primeiro gibi, com a revistinha da Mônica. Dois anos depois recebeu o prêmio Yellow Kid,  o Oscar dos desenhistas, no festival de quadrinhos de Lucca. Em 1976, exportou pela primeira vez seus personagens para a América Latina.

O encontro ocorreu aéreo, portanto, no período em que ambos já tinham se consolidado em suas áreas, mas ao mesmo tempo preparavam-se para novos saltos. Pelé ajudaria a difundir o futebol nos EUA. E Mauricio queria inovar...

"Pelé campeão internacional, conhecidíssimo e tudo mais, fatalmente seria um personagem de sucesso. E a personalidade e a história de vida dele também diziam isso. Consegui convencê-lo a me dar subsídios, a me ensinar como eu deveria tratar o personagem. Foi uma beleza. A conversa correu durante horas sobre a ideia do personagem, alguns momentos da infância dele", disse Mauricio.

Mas a transformação de Pelé em Pelezinho não foi nada fácil...

  • Pelezinho x Super Pelé

Mauricio de Sousa tinha uma explicação simples para que o personagem retratasse a infância do Rei do Futebol. "Criança gosta de brincar com criança". Mas a visão de Pelé era totalmente diferente e estava mais próxima dos quadrinhos americanos.

"Eu fui para Nova York para ter um encontro com ele, conversar com ele, mostrar os desenhos, e ver se ele concordava com tudo o que eu estava fazendo. Marquei, nós nos encontramos, mostrei para ele os rascunhos, ele ficou meio vai não vai, não sei bem", disse Mauricio, em um diálogo que fez questão de reproduzir:

Mauricio - "Pelé, não gostou?”

Pelé - “Não, o desenho está bonitinho, mas eu pensava que devia ser outro personagem, diferente.”

Mauricio - “Diferente como?”

Pelé - “Devia ser um atleta. Vitorioso, campeão. Um super atleta.”

Mauricio - “Pelé, não é essa a ideia. A ideia é chegar para a criançada, e criança gosta de brincar com criança. Se eles veem um personagem infantil, eles vão se sentir muito mais atraídos do que se verem mais um ‘super’. Tá cheio de ‘super’ por aí. Eu não vou botar você de Super-Homem, com poderes especiais. Você já tem isso naturalmente. Você é o maior jogador do mundo, faz jogadas mirabolantes. Você já tem tudo, não precisa se transformar para inventarmos nada."

Pelé - “Ah, não sei...”

Tirinha Pelezinho em 1976
Tirinha Pelezinho em 1976 Divulgação MSP

Percebendo que não iria conseguir convencer o Rei do Futebol, Mauricio fez uma sugestão para que ambos saíssem daquele impasse. 

Aconselhou que Pelé recorresse aos filhos Edson (o Edinho) e Kelly, perguntando a eles qual ideia gostavam mais. Eles tinham entre cinco e dez anos, pela ordem.

"Naquele tempo o Edinho e a Kelly eram bem pequenos, crianças, mas muito espertos e inteligentes. Ele levou para eles verem o desenho que eu tinha feito. Eu sabia qual seria o resultado. Só fiquei esperando no dia seguinte pela nossa reunião a resposta, já apostando na aceitação plena dos garotos. E foi o que aconteceu. Ele chegou meio chateado", disse Mauricio, aos risos.

“Poxa vida, você tinha razão, Mauricio! Eles escolheram a versão criança. Então está bom. Pode fazer esse aí mesmo", relembrou Mauricio, reproduzindo qual teria sido a resposta do Rei do Futebol.

Em contato com a reportagem, Pelé foi mais econômico na lembranças. "A primeira ideia era um Pelezinho criança, mas, com 16 anos eu já estava na seleção brasileira na Copa Roca, por isso a minha dúvida [sobre um personagem criança ou adolescente]. Mas estou  feliz pelo jeito que ficou o Pelezinho".

"Ainda bem, deu tudo certinho, porque o personagem foi um sucesso durante muitos anos. E até hoje o pessoal lembra com saudades do Pelezinho, das histórias em quadrinhos que eu criei", completou Mauricio.

Um quadrinho do Pelezinho em ação
Um quadrinho do Pelezinho em ação Divulgação MSP

  • A inspiração para as histórias

Para conceber o Pelezinho, Mauricio passou um bom tempo ao lado de Pelé observando suas características, seu jeito de falar. O desenhista afirmou que esse é o método utilizado para personagens inspiradas em pessoas reais.

Também fez entrevistas com Pelé para conhecer mais sobre a infância do craque. Como as historinhas iriam rememorar a vida dele em Bauru, no interior de São Paulo, era preciso obter o máximo informações sobre aquele período.

Assim, inspirados no jovem Pelé, personagens como Cana Brava, Frangão, Teófilo, Samira, Bonga e até o cãozinho Rex surgiram (veja todos eles na tirinha abaixo, em reprodução originalmente publicada na Folha de S.Paulo, em 1976).

A turma do Pelezinho publicada na Folha de S.Paulo em outubro de 1976
A turma do Pelezinho publicada na Folha de S.Paulo em outubro de 1976 Reprodução

Aquele contato mais próximo foi suficiente para Mauricio abastecer as tirinhas publicadas nos jornais. Mas a revistinha, que seria lançada em agosto de 1977, exigia uma quantidade maior de histórias.

"Fizemos uma combinação que consistia em ele me mandar de vez em quando bilhetinhos com lembranças da infância. Quem eram os amiguinhos, o que acontecia quando eles se encontravam, como é que eles jogavam, como é que brincavam, as molecagens que faziam", disse Mauricio.

"De vez em quando, recebia um bilhetinho do Pelé falando: 'Olha, Maurício, uma vez aconteceu isso. Os meu amigos eram fulano, beltrano e sicrano'. Foi uma beleza. Foi uma criação mútua: ele lembrava, eu desenhava e mandava para ele. Foi uma coisa gostosa durante muitos anos", completou.

A história também foi relembrada por Pelé com carinho.

"Como eu viajava muito, o Mauricio me pedia para que eu escrevesse várias historinhas da minha infância e mandasse para ele. De vez em quando eu falava com ele pessoalmente também", disse o Rei do Futebol.

Mauricio ainda relembrou que tomava cuidado para que sua criação mantivesse as crianças sempre entretidas e mencionou que o tema não era tão fácil.

"Nós temos de ter cuidado quando fazemos histórias sobre futebol porque os acontecimentos do jogo não são muito interessante para o leitor porque o gibi não tem movimento. Então, a gente faz uma história onde o mais importante é o antes e o depois do confronto. Ali tem coisa acontecendo, tem dramas, tem aventuras, tem perigos e tudo mais. É por isso que, raramente, nas histórias do Pelezinho a gente colocava uma descrição total, completa, de um jogo futebol", explicou.

Primeira edição da revista do Pelezinho
Primeira edição da revista do Pelezinho Divulgação MSP

  • Pelezinho e Mônica?

Para muitos leitores da revista do Pelezinho uma situação chamava a situação. Nunca houve um encontro dele com a Mônica e sua turma. Por quê?

"Porque eles são famílias diferentes e, logicamente, as histórias do Pelezinho tem uma combinação só. Há um contrato que rege tudo o que produzimos e fazemos com o Pelezinho. E aí o direito autoral é dividido, e tudo mais. E na Turma da Monica não tem divisão nenhuma", explicou Mauricio.

E a possibilidade de um dia ocorrer esse encontro é mínima...

"Não dá para misturar, comercialmente, não dá para misturar as figuras, os personagens. É lamentável. Lógico, eu posso um dia combinar alguma coisa nesse sentido de 'todo mundo ganha, todo mundo recebe' e tudo mais, com o Pelé. Mas como agora acabou o tempo do Pelezinho, também é difícil de acontecer agora".      

Uma das tirinhas do Pelezinho publicada por Mauricio de Sousa
Uma das tirinhas do Pelezinho publicada por Mauricio de Sousa Divulgação MSP

                 

  • Mauricio, o futebol e outras experiências

Mauricio gosta de futebol, é torcedor do São Paulo, embora quando deu a entrevista estivesse chateado com a temporada tricolor.  Até brincou com a situação. "Eu torço para o time que está ganhando. E eu torço para que o São Paulo seja esse time, na medida do possível", disse, aos risos.

Admitiu que tem como ídolo o ex-goleiro Rogério Ceni, que neste ano treinou o São Paulo por seis meses. "Gosto dele como pessoa e tudo mais. E também, logicamente, foi um goleirão. Não deu certo aí como técnico. Acho que se adiantou um pouquinho, mas ele foi um dos jogadores que eu admirei muito".

O gosto por futebol fez com Mauricio de Sousa ousasse criar outras personagens. Após o Pelezinho, a primeira tentativa foi com o Dieguito, inspirado em Diego Maradona. Teve a aprovação do craque argentino e chegou até a fazer a revistinha, desistiu por causa dos problemas extracampo, além de notícias sobre o uso de drogas envolvendo o campeão da Copa do Mundo de 1986.

O encontro entre Pelezinho e Dieguito
O encontro entre Pelezinho e Dieguito Divulgação MSP

Houve uma tentativa de transformar Ronaldo Fenômeno em personagem de quadrinhos, em 2002, já após o pentacampeonato mundial. Mas também sem sucesso. Dessa vez barreiras comerciais impostas em contrato com o Real Madrid, então time do brasileiro, acabaram impedindo qualquer acordo.


Mas Mauricio conseguiu lançar a Turma do Ronaldinho Gaúcho, em 2006, e um personagem do Neymar, em 2013, na sua última aventura misturando quadrinhos com futebol. Mas ambas as publicações duraram pouco. 

Mauricio de Sousa junto com Neymar, em 2013
Mauricio de Sousa junto com Neymar, em 2013 GazetaPress

Conhecido por ser um inovador, o desenhista não descartou a possibilidade de um dia Gabriel Jesus, astro do Manchester City, virar história em quadrinhos ou até mesmo de Pelezinho retornar, algo que o anima e o enche de orgulho.

"Formamos uma seleçãozinha de dois para cuidar de um.. Se o Pelé tem alguns troféus maravilhosos no museu dele, eu coloco o Pelezinho no meu museu do coração pelo que nós passamos juntos, criamos juntos e fizemos a diversão de muitos leitores.  Foi um bom tempo. Foi gostoso. Quem sabe ele não volta...".

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