Para se manter competitivos, jogadores profissionais de 'Hearthstone' precisam abrir a carteira

Bhernardo Viana, em colaboração para o ESPN.com.br

Cavaleiros do Trono de Gelo é a nova expsanão de Hearthstone.
Cavaleiros do Trono de Gelo é a nova expsanão de Hearthstone. Divulgação/Blizzard

"Gasto, em média, uns 200 a 240 reais por coleção por ser um jogador profissional". É esse o dinheiro que Paulo "Loxodontes" Ramos, o brasileiro campeão da Copa América de Hearthstone de 2016, investe a cada três meses para se manter em alto nível no cenário competitivo do jogo. 

Diferente de títulos como Counter-Strike ou League of Legends, nos quais os jogadores profissionais não precisam gastar para ter novas armas ou podem comprar campeões novos com pouco dinheiro do jogo, em Hearthstone, o jogo de cartas colecionáveis da Blizzard, os reais são essenciais para disputar as maiores competições em alto nível. Todo trimestre, aproximadamente 135 cartas inéditas são lançadas no jogo na forma de uma expansão, o que força os jogadores a abrirem a carteira regularmente para se manterem atualizados.


A Blizzard adotou um formato de rotação das coleções no jogo para os torneios oficiais, chamado formato "Padrão". Somente expansões dos últimos dois anos - atualmente Sussuros dos Deuses Antigos, Uma Noite em Karazhan, As Gangues de Geringontzam e Jornada a Un’Goro - e os conjuntos Básico e Clássico podem ser utilizados. Hoje, Loxodontes e outros profissionais só precisam se preocupar em ter cartas destas seis coleções ao invés de juntar tudo das 11 disponíveis, o que já é suficiente para deixá-los com pressa para obtê-las por completo no menor tempo possível.

À beira do lançamento de Cavaleiros do Trono de Gelo, a nova expansão do jogo que se juntará à lista do Padrão, Loxodontes calcula e justifica seus gastos. "Normalmente eu faço sempre a compra antecipada, que seriam 50 pacotes, e compro mais 40. Então compro, em média, 90 pacotes quando sai uma coleção". Dessa forma, ele garante que terá 450 cartas novas, entre únicas e repetidas, ao abrir todos os pacotes. "Gasto isso para otimizar o meu tempo, porque a partir do momento que eu comprei tudo, consigo testar exatamente o que quero. Tem muita carta nova, então você precisa testar frequentemente", afirma.

"O dinheiro no Hearthstone nada mais é do que o pay-to-fast. Você paga para conseguir os recursos mais rapidamente", comenta Loxodontes. A cada 100 de ouro, a moeda do jogo, um jogador consegue comprar um pacote de qualquer coleção. "Você consegue jogando, mas vai demorar muito mais".


Essa demora não é um luxo que os jogadores profissionais podem ter. É preciso ter cartas na manga o quanto antes para ter uma vantagem sobre seus oponentes. "Saiu a coleção nova,  no primeiro dia já tem torneio", afirma Loxodontes. Como o objetivo maior dos jogadores profissionais de Hearthstone é acumular pontos em torneios locais, como a Copa América, para poderem jogar campeonatos internacionais - e eventualmente o mundial na BlizzCon -, quanto mais rápida for a adaptação às novas listas, melhor. "A cada três meses você acumula pontos para jogar a qualificatória [internacional]. Você pode juntar pontos baseado na ranqueada ou pontos por campeonato. Você só pode juntar até 5 pontos por mês nesses campeonatos, que é vencendo. A partir daí, não adianta você vencer outro, você não vai acumular o ponto dos dois", explica.

Este ciclo trimestral de lançamento de conjuntos de cartas em Hearthstone podem afetar bruscamente a rotina de um jogador profissional e sua forma de disputar os torneios. "Você consegue treinar e montar quatro baralhos em uma semana, mas eu te dou certeza que em uma semana você não consegue montar os quatro melhores baralhos da expansão", comenta Loxodontes. "Para você decidir se o seu baralho é bom para o ambiente, você precisa de mais tempo para esculpir essa ideia."

Paulo 'Loxodontes' Ramos levanta o troféu de campeão da Copa América de Hearthstone.
Paulo 'Loxodontes' Ramos levanta o troféu de campeão da Copa América de Hearthstone. Distribuição/Copa América

Esculpir é um trabalho que requer visão e execução impecáveis, mas, diferente de modelar um bloco de mármore, modelar seus baralhos pode ser caótico e precisar de erros. "Sempre que sai uma coleção nova é uma selva", brinca. "Todos os jogadores ficam na apenas na sua opinião, e você vai acabar testando". Ele comenta que é preciso, em média, três semanas para que haja um consenso entre os profissionais. "No Hearthstone, um jogo de cartas, o meta é muito flexível, então o que é bom em uma semana pode deixar de ser bom na semana seguinte".

Parte do que contribuiu para acalmar a selva são os geradores de conteúdo, que são especialistas no jogo e se dedicam a analisar as novas expansões e divulgar os possíveis novos baralhos e estratégias para os jogadores, principalmente para os casuais. Dayane Cris, uma das principais geradoras de conteúdo no Brasil, afirma algo semelhante ao que diz Loxodontes.

"Os primeiros dias [da expansão] são os mais difíceis para controlar a comunidade, e o gerador de conteúdo tem uma grande responsabilidade com o que vai postar". Ela comenta que há um estudo minucioso do que os competidores de elite estão testando e uma preparação dos dados antes de indicar para seus leitores o que é viável de início, mas dar as cartas em definitivo leva algum tempo. "Conteúdo bom sobre decks é após uma semana. Mas nos primeiros dias de expansão já temos as listas sugeridas, sempre com avisos para não prejudicar a coleção de ninguém", comenta.

Todo esse processo de descoberta, tanto por parte dos jogadores profissionais quanto dos geradores de conteúdo, requer dezenas de pacotes e centenas de cartas. Loxodontes afirma que, no entanto, os jogadores profissionais não recebem pacotes gratuitamente da Blizzard para poderem melhorar seus baralhos, e essa aquisição acaba ficando nas mãos de cada um. "De todos os profissionais que eu conheço, nunca ouvi ninguém falando que ganhou pacote. A Blizzard dá muito suporte para a comunidade, para geradores de conteúdo".

Dayane explica que sim, os principais criadores da comunidade recebem alguns pacotes da empresa. "Aos olhos da Blizzard, os geradores de conteúdo fazem marketing maior do que os profissionais", diz. Aos seus próprios olhos, enquanto um competidor tem chances de conseguir premiações da empresa através de campeonatos, os geradores não recebem dinheiro direto da Blizzard. "Geradores de conteúdo acabam precisando do material para usar nas divulgações, e nem todos os jogadores profissionais fazem o mesmo trabalho. [Alguns jogadores] usariam esse 'prêmio' para si só", afirma. Ela conclui dizendo que este material gratuito auxilia na disseminação do jogo, e que não vê sentido em jogadores de elite receberem pacotes.

Dayane Cris, uma das principais conteúdistas no Brasil de Hearthstone.
Dayane Cris, uma das principais conteúdistas no Brasil de Hearthstone. Arquivo pessoal/Dayane Cris

Loxodontes já daria as cartas de outra forma. "Isso bate bastante [nos jogadores profissionais] porque a gente pensa: poxa, eu [faço transmissão] de segunda, quarta e sexta, durante 6 horas. Eu, querendo ou não, também sou um gerador de conteúdo", explica. Ele acredita que a Blizzard poderia apoiar mais o cenário competitivo com esse tipo de suporte . "É o competitivo que acende o jogo, que o faz ser tão atrativo para muita gente assistir, para muita gente jogar".

No entanto, ele lembra que os pro players que chegam nos principais torneios patrocinados pela empresa recebem uma conta emprestada para disputar com todas as cartas disponíveis. "Todos os jogadores que estão classificados para o major vão jogar de igual para igual", diz.

Dayane comenta que vê como isso parece um jogo de cartas marcadas. "Entendo como deve ser frustrante. Muitas pessoas merecem receber, mas é uma porta que se abrir, oportunistas aparecerão de monte", afirma. Ela ainda complementa dizendo que não conhece os requisitos da Blizzard que enquadrem uma pessoa como geradora de conteúdo e, portanto, elegível a receber pacotes gratuitos. "Nunca nada me foi passado para seguir à risca, apenas fui gerando conteúdo que eu mesma um dia já busquei ler. Mas acredito que a fidelidade à qualidade é algo que eles avaliem, pelo feedback da comunidade", justifica.

Coleções de brinde ou não, o simples lançamento delas pode jogar no lixo estudos de semanas ou meses. "Os maiores problemas são quando as coleções novas surgem entre os grandes campeonatos", explica Loxodontes. "Por exemplo, isso aconteceu comigo ano passado na Copa América. Eu me classifiquei, quinta-feira saiu a coleção e sábado tinha Copa", conta. 

Em sua visão de jogador profissional, ele afirma ser totalmente contra modificações em cartas e a inclusão de conjuntos inéditos durante torneios. "Eu não acho justo você descartar todo o treinamento que o jogador teve durante aquela temporada com aqueles baralhos, tudo que ele usou para se classificar para o [campeonato] que ele vai jogar". Dayane, que já disputou torneios profissionalmente, lembra das consequências. "É injusto com quem se preparou por meses e, nas últimas semanas, o jogo é todo remodelado. Você fica muito mais suscetível a grandes erros que podem te custar uma vaga importante". 

Ao mesmo tempo, ela acredita que as cartas são colocadas na mesa com muita frieza pela empresa. "A Blizzard com certeza aproveita as atualizações [em combinação] com o competitivo justamente para que as competições sirvam de 'marketing' para a nova expansão", comenta.

Ambos comentaram sobre o perfil de pessoa que precisa de mais tempo de estudo e testes para jogar em nível profissional. "Tem jogador que tende a melhorar com prática. Isso é de pessoa para pessoa, não tem o que fazer", observa Loxodontes.  Quando sai uma coleção nova é totalmente prejudicial para esse tipo de jogador [estudioso], porque ele não teve tempo para treinar ainda", comenta Loxodontes. Ele complementa dizendo que os jogadores menos criativos, que preferem ver, entender e aprender a usar listas dos profissionais são punidos pelo ciclo também. "Surgiu um formato novo e ele não tem uma lista para ele olhar, para ele se adaptar. Ele tem que criar a dele, e alguns jogadores sentem dificuldade com isso".

Apesar disso, Loxodontes lembra que a mesa é igual para todos. "Você não pode falar que é injusto porque os jogadores estão na mesma situação. Do mesmo jeito que ficou difícil, para mim, ter que montar baralhos novos e tentar identificar o que é bom e o que não é, o oponente também está na mesma situação", lembra.

Troféu oferecido ao melhores competidores de Hearthstone da Blizzcon.
Troféu oferecido ao melhores competidores de Hearthstone da Blizzcon. Distribuição/Blizzard

Nestes primeiros dias confusos das novas 135 cartas, nos quais não há criatividade que preveja o que dominará Hearthstone pelos próximos três meses, alguns jogadores profissionais recorrem ao blefe nas competições. "Vai estar todo mundo testando os baralhos. Pega quatro baralhos da coleção antiga e joga o campeonato", aconselha Loxodontes. "Você tem certeza que os seus baralhos são bons e você vai tentar jogar contra o baralho novo. No primeiro dia, se você quiser jogar um campeonato com as estratégias antigas, funciona. Ninguém tem certeza do que é bom ou não".

Outra forma de contornar o período conturbado é arriscar jogar competições só depois de algumas semanas. "Como você tem até o fim do mês para conseguir ganhar um campeonato, eu acredito que é tempo tranquilo para você se adaptar a uma coleção nova", comenta Loxodontes. No entanto, se o jogador não conseguir vencer partidas o suficiente para acumular pontos, suas chances de botar as cartas na mesa de uma BlizzCon ficam muito menores.

Como se as incertezas pela rotatividade das expansões e da mudança de metagame não fossem suficientes, Loxodontes lembra que muitas vezes a cartada final é dada pela sorte. "Diferente de um League of Legends, um Dota, um Counter Strike, que são jogos que dependem 100% da sua [habilidade], um jogo de carta tem o fator sorte envolvido", lembra. Mesmo que seja possível um jogador tomar todas as decisões melhor que o oponente, montar baralhos com sinergias perfeitas e definir diferentes condições de vitória contra o baralho inimigo, ele ainda assim pode perder. "Por mais que você jogue melhor que seu oponente, dependendo da ordem de cartas que vier, você não vai conseguir vencer". Principalmente para os jogadores iniciantes, na visão de Dayane, a sorte - ou a falta dela - pode ser muito frustrante. "O objetivo é vencer o melhor, e não o mais sortudo", comenta.

O cenário de Hearthstone mesmo assim tem seus portos-seguros. Um jogador profissional que consegue boas posições em campeonatos pode ter a chance de fazer parte de um time. "A organização te traz estabilidade. Você não pode depender de vencer campeonato sempre para conseguir viver disso", explica Loxodontes. Atualmente na KEEP Gaming, o jogador recebe salário mensal e diz que se sente mais seguro para se dedicar exclusivamente ao jogo, o que não aconteceria se dependesse apenas de premiações dos torneios. "Se você ficar 6 meses sem ganhar um campeonato, você não ganha dinheiro. E se você quer ser um profissional e você quer viver disso, você não pode correr esse risco". Ele comenta que todos os jogadores da KEEP Gaming e da paiN Gaming de Hearthstone são assalariados, e supõe que de outras grandes organizações também.

Conhecendo a comunidade casual de perto, Dayane explica que criar baralhos a nível competitivo pode não ser uma tarefa tão assustadora quanto parece. "Por experiência com uma amiga que começou a focar recentemente [no jogo], ela em um mês conseguiu montar três baralhos do meta. Com um pouco mais de dedicação ou dinheiro, ela conseguiria montar [um conjunto] competitivo de quatro baralhos", conta. Ela explica que, com dedicação, é possível se aperfeiçoar, mas se manter no casual não é o caminho para isso. "Se o jogador entra apenas para as missões diárias e não joga nem 10 partidas por dia, fica realmente complicado ele querer ter uma boa coleção e alcançar boas posições".

Loxodontes concorda e fala que, por ser individual, o Hearthstone é mais acessível para iniciantes do que outros eSports. "[Em outros jogos] você depende de uma organização te chamar, você depende de um time, você depende se inscrever no campeonato com um time, você depende de ter sinergia com os colegas de equipe para você conseguir vencer um campeonato e se destacar. No Hearthstone já é totalmente ao contrário". Ele comenta que o que o fez migrar de outros jogos como League of Legends, onde era Desafiante e um dos melhores caçadores do servidor, para se dedicar ao Hearthstone foi a individualidade e independência no competitivo. "Se você gosta do jogo, sentar e se dedicar, você consegue, você tá de igual para igual com todo mundo. Você não depende de ninguém para se inscrever no campeonato. Todos os campeonatos são de graça".

No fim das contas, um jogador profissional de Hearthstone acaba precisando colocar várias cartas na manga para superar os problemas intrínsecos do cenário. Não conseguiu investir dinheiro o suficiente na nova coleção? Compre pacotes com seu ouro acumulado. Tem um campeonato quatro dias depois do lançamento da expansão? Jogue com baralhos antigos. Mesmo assim não consegue vencer campeonatos? Prove seu valor para uma organização e busque estabilidade.

Talvez por isso "esculpir" não seja o melhor termo para o que um jogador de Hearthstone precisa fazer para chegar ao topo. Estas cartas são colocadas na manga aos poucos, uma a uma, com experiência e tempo. O jogador deve "construir"seu caminho, colocando tijolo por tijolo e ajustando peça por peça. Se muitos hoje dizem que Hearthstone não é um eSport por depender muito da sorte, seus jogadores profissionais mostram o contrário. Para sobreviver no cenário é preciso, como em todo eSport, conseguir uma oportunidade e, a partir dela, criar seu próprio caminho com dedicação, estudo e um pouco de sorte.

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