Ex-Corinthians foi de catador de tomate a cobiçado pelos 12 grandes ao mesmo tempo; hoje, arrebenta na Série C

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Edno comemora gol pelo Botafogo-SP: líder da Série C e artilheiro do time
Edno comemora gol pelo Botafogo-SP: líder da Série C e artilheiro do time Rogério Morotti/Agência Botafogo

Dono de uma das mais fortes "bombas" de perna esquerda do Brasil, o atacante Edno segue na ativa aos 34 anos. Com passagens por times como Corinthians e Botafogo na carreira, ele hoje defende as cores do Botafogo de Ribeirão Preto, e vem justificando sua contratação: é o artilheiro da equipe do interior paulista e ajudou a colocar o time na liderança do grupo 2 do Campeonato Brasileiro da Série C. No último sábado, aliás, foi dele um dos gols do empate por 2 a 2 com o Mogi Mirim, fora de casa, que manteve o "Pantera" mais uma rodada no topo.

Dono de uma carreira vitoriosa no mundo da bola, com títulos de Brasileiro, Copa do Brasil e Paulista pelo Corinthians, Carioca pelo Botafogo e Série B pela Portuguesa, além de um Campeonato Polonês pelo Wisla Krakow, porém, Edno teve que suar muito a camisa durante a juventude em Santa Catarina, quando trabalhou em atividades bem diferentes do futebol. Mas bem diferentes mesmo! 

"Antes de jogar bola, eu trabalhei bastante tempo na roça, colhendo cenoura, tomate e batata. Também trabalhei com materiais de construção e em supermercados antes de ser descoberto pro futebol", conta o veterano, em entrevista ao ESPN.com.br.

Seu emprego favorito, porém, foi como garçom, para o qual foi levado por um gerente de hotel com quem jogava bola de maneira amadora.

"Comecei como garçom em um hotel 5 estrelas de Florianópolis em que muitos argentinos se hospedavam. No começo, eu só lavava e secava as louças. Depois, fui levado num teste para ser garçom, acompanhei o maitre e ficava vendo e aprendendo como trabalhar no salão, em cada praça e setor", recorda.

"Aí passei no teste de garçom e comecei a ter minha praça de atendimento. Tirava um sustento bom, porque os gringos davam boas gorjetas, e eu me relacionava bem com tudo mundo (risos). Isso me fez crescer muito como ser humano. Tenho muito orgulho de todos os meus trabalhos, porque de uma forma ou de outra todos eles acabaram me levando ao futebol", afirma.

Durante o tempo em que trabalhou no hotel, Edno manteve seu sonho de virar jogador e seguiu jogando na várzea. Com sua força física e forte chute de perna esquerda, chamou a atenção do Inter de Lages, de sua cidade, que o levou para a categoria juvenil - devido ao porte físico, porém, ele foi colocado sempre uma categoria acima de sua idade. Rapidamente se destacou e foi levado para a base do Avaí, onde as coisas começaram a dar certo de vez. 

Edno hoje veste a 9 do Botafogo-SP; relembre gols por Corinthians e Portuguesa

"Na época do Avaí, fui chamado para um campeonato de seleções estaduais em Curitiba, que tinha seleções de todos os Estados do Brasil. Eu era o capitão de Santa Catarina e terminei o torneio como artilheiro do time, com seis gols. Chegamos até as oitavas, quando enfrentamos o Paraná, que tinha Jadson, Rafinha, Fernandinho e Alan Bahia. Ruim o time dos caras, né (risos)? Perdemos, mas eu fui bem e já estava no profissional do Avaí", recorda.

"Quando voltei ao Avaí, a diretoria me chamou e me informaram que tinham me visto jogando e eu fui vendido para um time da Europa. Fiquei um mês treinando separado, sem saber pra onde ia. Só fui saber que era para o PSV, da Holanda, quando fui para São Paulo viajar pra lá. Eu tinha só 18 anos", relata.

  • 'O Van Bommel batia até no treino'

Ainda muito jovem, Edno chegou ao PSV, clube que sempre gostou de fazer investimentos em jovens talentos sul-americanos, em meio à temporada 2002/03. Lá, conheceu várias atletas que nos próximos anos viriam a estourar. 

Edno no PSV, ainda com cabelo
Edno no PSV, ainda com cabelo Divulgação

"O PSV nessa época tinha um timaço. Joguei com Van Bommel, Robben, Huntelaar e vários caras de seleção da Sérvia, de Gana... Aprendi muito ao lado deles. Foi bacana demais esse período, uma grande experiência de vida. Saí do Brasil para um time grande da Europa, com estrutura de Champions League. O mais bacana foi poder treinar em campos ótimos, com uma excelente estrutura de trabalho e com grandes profissionais", exalta.

O garoto de Santa Catarina, porém, passou pelas dificuldades de adaptação que muitos brasileiros passam quando chegam ao futebol europeu, principalmente quando saem ainda muito jovens do país natal.

"O começo na Holanda foi bem difícil. Não entendia nada daquela língua doida deles (risos). Também tive dificuldades com a comida e a cultura totalmente diferente da nossa. Além disso, o futebol deles era bastante diferente do que eu jogava no Brasil. Aos poucos as coisas foram melhorando, mas tive muitas dificuldades no início. Hoje, dou muito valor a tudo isso que aconteceu", conta.

Edno é muito grato aos companheiros da época pela boa recepção no PSV.

"Eles adoravam me zoar, principalmente quando a seleção brasileira perdia um jogo, e ainda mais se a Holanda ganhasse do Brasil. Eles adoravam falar do carnaval e do Rio de Janeiro. Eu nem sou tão fã de carnaval, mas os gringos gostam, né (risos)? Sempre levei tudo na brincadeira e a gente dava muita risada", lembra.

De seus colegas de equipe nessa época, o brasileiro guarda muitas recordações de um em especial: o volante Mark Van Bommel, capitão daquele time e que viria a se tornar capitão da seleção holandesa e jogador de Barcelona, Bayern de Munique e Milan alguns anos depois. Segundo Edno, houve poucos atletas com tanta disposição quanto o ex-meio-campista, fosse em treinos ou jogos.

"Rapaz, o Van Bommel gostava de bater até nos treinos (risos)", diverte-se.

"O jogo deles sempre foi bem agressivo, sem dar espaço e com marcação alta. Nos treinos, eu tinha que me cuidar pra não tomar pancada, porque quando o Van Bommel pegava era feio (risos). A função dele era essa: marcar, roubar a bola e entregar para os meias. Eu estava acostumado com o rachão do Brasil, então tinha que me adaptar, porque os treinos lá eram loucos de tão pegados. Aprendi a me proteger sempre com caneleira ou com botinha no pé", relata.

  • Cobiçado pelos 12 grandes

Depois da experiência na Holanda, Edno passou pelo Viktoria Plzen, da República Tcheca, e pelo Wisla Krakow, pelo qual foi campeão polonês. Em 2004, acertou seu retorno ao Brasil para jogar pelo Cruzeiro, que vinha do ano da "Tríplice Coroa".

O atacante, porém, só foi se firmar de vez no futebol quatro anos depois, após rodar por Figueirense, Novo Hamburgo-RS, Noroeste-SP e Atlético-PR. Em 2008, ele chegou à Portuguesa e foi um dos principais destaques da equipe na disputa do Campeonato Paulista e do Brasileirão.

Nesse mesmo tempo, ele ganhou o apelido que lhe acompanha até hoje. 

Edno foi o craque da Barcelusa
Edno foi o craque da Barcelusa Gazeta Press

"Arrebentei mesmo foi na Lusa, um time pelo qual tenho carinho enorme e que me fez ser conhecido no Brasil todo. Joguei muito bem aquele ano. Foi nessa época surgiu o apelido de 'PelÉdno', por causa do Milton Neves [apresentador da TV Bandeirantes]. Ele me chamava assim nos programas e pegou até hoje (risos)", brinca.

Seu ano de 2008 foi tão bom que ele diz ter recebido propostas dos 12 grandes do futebol brasileiro durante a temporada.

"Eu já tinha feito um Paulistão bom e depois arrebentei na Série B. Nessa época eu despertei interesse de todos os times grandes. Tive propostas de Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Vasco, Flamengo, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-MG, Inter e Grêmio, além de outras equipes. Eu estava vivendo um grande momento, foi uma época muito boa, com um elenco muito legal de jogar junto", conta, saudoso.

Na época, as propostas que mais lhe agradaram foram as de Santos e Corinthians. No entanto, a briga que a Portuguesa tinha com o "Peixe" por causa da conturbada transferência do atacante Ricardo Oliveira, ainda em 2003, fez com que a Lusa optasse por negociá-lo com o Timão.

"O Santos surgiu primeiro, e o Corinthians logo depois. Mas a Portuguesa avisou que só iria me liberar para o Corinthians, por causa da briga do tempo do Ricardo Oliveira. Os dirigentes eram brigados e nem se falavam. Aí acabei indo para o Corinthians, no começo de 2009", revela.

O canhoto, aliás, teria anos depois outra passagem marcante pela Portuguesa. Em 2011, ele foi emprestado ao clube do Canindé pelo Corinthians e foi um dos grandes destaques da equipe que conquistou a Série B de forma arrasadora.

O time acabou sendo apelidado de "Barcelusa", em referência ao Barcelona, que à época dominava o mundo. Também estavam no elenco jogadores como o goleiro Weverton, hoje do Atlético-PR e da seleção brasileira, e o atacante Ananias, que depois passaria por Palmeiras e Cruzeiro antes de falecer de maneira trágica na queda do avião da Chapecoense.

"Fizemos história com a Barcelusa. Ganhamos o apelido por merecimento e formamos um dos melhores times da história do clube. Foi um momento especial, em que pude fazer mais de 100 jogos e ser artilheiro do time. Conquistamos o título e conseguimos colocar a Lusa no lugar dela: a primeira divisão. Foi um momento bacana, que infelizmente não vai voltar mais. Ficou na história", ressalta.

  • 'Corinthians é o maior time do Brasil'

Quando chegou ao Corinthians, a pedido do técnico Mano Menezes, Edno deu de cara com um time recheado de estrelas e que faria uma grande temporada, conquistando o Paulista sobre o Santos e a Copa do Brasil em cima do Inter.

"Joguei com Ronaldo, Roberto Carlos, Jorge Henrique, Dentinho, Elias, Morais, Chicão, William, Alessandro, Paulo André... Um timaço, campeão paulista e da Copa do Brasil. Para mim, foi um salto enorme na carreira chegar ao Corinthians, que para mim é o maior time do Brasil. É um clube de massa, pelo qual tenho respeito até hoje, principalmente pelos amigos que fiz lá. Hoje não jogo mais lá, mas sigo muito ligado, pois deixei grandes amigos, com quem falo sempre que posso", conta.

Mesmo já rodado neste época, Edno diz que aprendeu muito com o "Fenômeno".

"Jogar com Ronaldo foi uma experiência única. É um cara que ganhou tudo na carreira e que era fora de série dentro de campo, um craque completo. Jogar ao lado dele foi algo sem preço. Fora de campo, é muito engraçado e brincalhão", elogia o atacante, que guarda até hoje um presente do eterno camisa 9. 

Edno comemora após marcar pelo Corinthians
Edno comemora após marcar pelo Corinthians Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians

"Tenho até hoje uma relíquia que ele me deu: um par de chuteiras com os nomes dos filhos dele, a Sofia e o Ronald, que ele me deu de presente. Foi um prazer enorme ter conhecido um dos maiores craques da história, e um prazer ainda maior ter jogado com ele", exalta.

Edno também afirma que ficou marcado na sua memória até hoje o momento em que teve o nome cantado pela torcida do "Timão".

"Vestir a camisa do Corinthians foi marcante demais. Quando cheguei, tive que me acostumar com aquela sala lotada de câmeras, um monte de jornalistas. Antes, era muito diferente (risos). Nisso eu percebi o tamanho do Corinthians, um time que gera muita mídia. Demorou para cair a ficha", salienta.

"Um dos momentos mais legais foi quando entrei em campo para ser apresentado para a torcida no Pacaembu. Quando vesti a camisa, aí senti o que é jogar no Corinthians e ter uma torcida apaixonada, que não para de cantar. Quando marquei meu primeiro gol, a torcida gritou meu nome, foi sensacional. É algo que está marcado na minha memória e que me emociona até hoje", diz. 

Edno foi campeão carioca pelo Botafogo
Edno foi campeão carioca pelo Botafogo Buda Mendes/LatinContent/Getty Images

O canhoto, porém, acabou não se firmando com a camisa alvinegra. Em 2010, foi emprestado ao Botafogo (pelo qual foi campeão do Carioca), e, no ano seguinte, foi novamente repassado, desta vez voltando à Portuguesa, time do qual virou ídolo de vez com o título da Série B e a "Barcelusa". Voltou ao Corinthians em 2012, sendo negociado depois em definitivo com o Tigres-MEX.

Muitos anos depois, ele explica o que deu errado para ele no Parque São Jorge.

"Não tive sequência. Não cheguei a fazer nem dois jogos seguidos como titular. Aí fica difícil não só para quem joga no Corinthians, mas em qualquer outro clube. Assim como o técnico precisa de sequência, jogador também precisa. Não é em um jogo só que você vai mostrar tudo o que sabe", dispara.

"Na nossa profissão, para você mostrar que pode ser titular, é só jogando várias partidas e sendo avaliado por uma sequência. No Corinthians, isso infelizmente não aconteceu comigo. Em quase todos os clubes que joguei, tive sequência, fiz gols e fui bem. Mas também entendo que o time daquele tempo era muito bom, e havia vários atletas em condição de serem titulares. Por isso, eu não fui o único a não ter sequência. Vários outros caras bons passaram pela mesma coisa", completa.

  • Sem previsão de se aposentar

No Tigres-MEX, Edno ficou até 2013, indo depois jogar no Cerezo Osaka-JAP. 

Edno comemora gol pelo Tigres-MEX
Edno comemora gol pelo Tigres-MEX Jorge Lopez/LatinContent/Getty Images

Retornou depois ao Brasil, passando por diversos times: Ponte Preta, Vitória, Portuguesa, ABC, São Bento-SP, Remo e São Bernardo, pelo qual disputou o Campeonato Paulista deste ano.

Após o Estadual, foi contratado pelo Botafogo de Ribeirão Preto para tentar levar o clube de volta à Série B. Até o momento, vem mostrando serviço como dono da camisa 9: são quatro gols marcados, número que lhe coloca como artilheiro do time.

Edno, porém, evita encarar sua boa passagem como um "recomeço".

"Não acho que seja um recomeço para a minha carreira. Tive uma carreira vitoriosa e muito legal. Hoje, me divirto mais jogando futebol, sempre com responsabilidade, é claro. Acho que as coisas estão dando certo porque estou jogando com tranquilidade e felicidade, então as coisas acontecem de forma natural. Estou em boa forma física e venho conseguindo manter um jogo de alto nível", garante. 

Edno durante sua passagem pelo Cerezo Osaka, do Japão
Edno durante sua passagem pelo Cerezo Osaka, do Japão Kaz Photography/Getty Images

Aos 34 anos, ele pensa apenas em conseguir o acesso com o Botafogo, e, quem sabe, o título da Série C. Pendurar as chuteiras, por enquanto, é pensamento que passa longe de sua cabeça.

"Ribeirão é uma cidade muito legal, o clube tem ótima estrutura e paga em dia. Não importa divisão ou tamanho do time. O que importa é estar feliz no lugar onde você está, e eu estou muito feliz agora, assim como minha família", afirma.

"E meu futuro pertence a Deus, ele que sabe de todas as coisas. Eu ainda estou preparado para todos os desafios que virão na minha vida, e vou procurar seguir fazendo meu melhor, como fiz durante toda a minha carreira", encerra.

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