Torcida do Paysandu que apoiou a causa LGBT sofre represálias e membros são agredidos em estádio

Gabriela Moreira, para o ESPN.com.br

Série B: Gols de Paysandu 1 x 1 Luverdense

A Banda Alma Celeste, torcida organizada do Paysandu que aboliu o grito de “bicha” e estendeu a bandeira LGBT nas arquibancadas, sofreu represálias, tendo alguns membros agredidos, na noite da última sexta-feira, no estádio da Curuzu, em Belém. Os agressores seriam vinculados a outra organizada do clube, a Terror Bicolor. As agressões ocorreram após o empate contra o Luverdense por 1 a 1, em jogo pela Série B.

Não bastasse a violência de fato, mensagens e áudios foram enviadas para integrantes da Banda Alma Celeste, com mais ameaças. Em um dos áudios, um torcedor prega a violência contra os membros da Banda Alma Celeste e afirma que é mascote oficial do Paysandu: "Tem de montar um bonde e sair quebrando, rasgando tudo".

"Mano, vou falar uma coisa para vocês. Essa onda dessa torcida, se quiser estrear no sábado, não cola, mano. Mas vou dar um papo. Não posso me meter na frente aí, cara, porque sou mascote e todo mundo me conhece lá no Paysandu. Se verem meu tiro nessa onda, os caras vão querer me barrar, vão querer me tirar.  Não cola. Não cola ficar esses caras lá não, porra! No estacionamento, com bandeira de veado e o caralho, no nosso meio, não. Tu é doido? Tem de tirar esses caras de lá. Eu vou, mano, despintado eu vou. Tem de montar um bonde e sair quebrando, rasgando tudo. Tu é doido. Eu não aceito esses bichos lá não. Os caras estão tirando a gente. Imagina quando as faixas deles tiver pendurada lá... Tu é doido!", disse um torcedor, que afirma ser mascote oficial do Paysandu.

Após o empate com o Luverdense, houve briga de torcedores no estádio da Curuzu
Após o empate com o Luverdense, houve briga de torcedores no estádio da Curuzu Divulgação/Paysandu

Outros dois áudios revelam a ira de mais membros da Terror Bicolor.

"Rapaz, eu acho que a a Alma vai acabar nesse jogo, cara [risos]. Tô te falando, mano. A Alma vai acabar nesse jogo. Todo mundo tá revoltando. Todo mundo tá revoltado, mano. Tá é doido. Esses bichos deram dois tiros no pé, de rocha. Pegaram um borozinho, né? Pegaram um borozinho. Vai Lobo, vai para cima deles, mano!", diz um torcedor.


"Os caras do outro lado tão falando que a Terror já não é a mais a mesma. É só moleque criado pela avó, moleque 'mamãezando', que deixaram levantar uma bandeira e que agora está com fama de gay em todo o brasil porque já saiu até em um negócio de torcidas do Brasil. A GLBT, a torcida do Paysandu, diz que já saiu no Face de todo o Brasil: a primeira torcida que leva o GLBT para os estádios. Eu tô é doido. Isso é sacanagem. Putaria e tudo. Agora dizem que vão abrir uma torcida, com CNPJ e tudo: Gay Paysandu! Égua. Não boto fé, mano! Não boto fé, mano!", diz outro.

Sentindo-se ameaçados, torcedores da Banda Alma Celeste informaram à reportagem que registraram dois boletins de ocorrência. Um para as agressões sofridas por membros. E outro pelo roubo de um instrumento musical.

A torcida tem ações contra a homofobia nos estádios e ganhou notoriedade por conta disso. Mas o assunto irritou alguns membros de outras torcidas, o que tem gerado ataques verbais e, agora, físicos.

Torcedor do Paysandu explica ações da torcida contra a homofobia

  • Paysandu diz que vai ajudar a polícia

Consultado pela reportagem, o Paysandu disse por meio de seu assessor jurídico, Alexandre Pires, que "vai discutir com a Polícia Militar quais medidas vão ser tomadas para o próximo jogo contra o Londrina". 

"Como já haviam poucos torcedores dentro do estádio no momento dos fatos, vamos ceder para a polícia as imagens do circuito de segurança, quando requisitado", disse Pires.

Sobre o possível envolvimento do profissional que atua como mascote nos jogos, o Paysandu prometeu apurar. "Não temos como afirmar e confirmar que trata-se da pessoa que veste o mascote do clube. Estamos apurando".

A reportagem também entrou em contato com a Polícia Militar de Belém. O primeiro contato foi com o coronel Hilton Begnino, que informou que não estava no estádio e, portanto, desconhece motivações homofóbicas no confronto. Mas ressaltou que por não estar no local não poderia avaliar. Já a assessoria da PM informou que "questões de ameaças devem ser denunciadas para que a Polícia Civil possa investigar o caso".

  • Futebol Fora do Armário

Os canais ESPN exibiram na última semana a série “Futebol Fora do Armário”, na qual colocou os holofotes sobre o tema, mostrando a intolerância que torcedores LGBT sofrem no estádio. Veja abaixo os capítulos da série:

Futebol Fora do Armário: a homofobia e a dificuldade de assumir a sexualidade no esporte; veja a 1ª reportagem

Futebol Fora do Armário: Por que os LGBTs continuam longe dos estádios? Veja a 2ª reportagem

Futebol Fora do Armário: Nos campos de pelada, o futebol LGBT já é realidade: veja a reportagem final da série

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