Messi, 30 anos, ou como não iremos aproveitar o icônico camisa 10 por muito mais tempo

Chris Jones, para o ESPNFC.com*
Trintou! No dia do aniversário de 30 anos de Messi, relembre 30 golaços do craque

O mundo sem Messi

 

Lionel Messi é a versão futebolística da Sagrada Família, de Gaudi, e, ao contrário de outros monumentos de Barcelona, não teremos a chance de visitar o icônico camisa 10 – que completa 30 anos em junho – por muito mais tempo.

 
 

 

 
 

LIONEL MESSI não é um remédio, mas ele pode se sentir como tal. Ver Messi com a bola a seus pés é um testemunho do resto de nossas possibilidades. Talvez não sejamos tão terríveis, porque ele é um de nós. Ele pode nos fazer parecer melhor do que nós somos.

Ele recompensa tantos tipos diferentes de atenção. Às vezes, é melhor vê-lo à distância. Se você estiver longe o suficiente da ação para que os nomes e os números tenham desaparecido, Messi ainda será fácil de detectar. É ele, mais para lá, o homem mais afastado do lance. É ele parado, em pé, sozinho.

No início do jogo, ele também será o homem que parece mais longe de tudo, mentalmente, como se um torcedor tivesse invadido o gramado e ninguém se incomodou em persegui-lo. Ele será o único que parece estar esperando um ônibus, talvez com as mãos nos quadris, ou passando as mãos pelos cabelos, ou ainda com as mãos esfregando os olhos. Ele será o único jogador a fazer mais com as mãos do que com os pés.

Na última partida do Barcelona em LaLiga, em casa, contra o Eibar, em 21 de maio, houve um momento em que Messi ficou surpreso com o pouco que ele parecia estar fazendo. Era um confronto importante - uma vitória, somada à uma derrota do Real Madrid em Málaga, teria dado o título ao time da Catalunha –, e o Eibar abriu o placar de forma inesperada aos 7 minutos. O caldeirão que é o Camp Nou expeliu o seu vapor com urgência, e quando o Eibar se alinhou para a cobrança de um escanteio, a sensação de preocupação era palpável.

Não para Messi. Ele estava lá, dentro do círculo central, assistindo à jogada, mas não realmente.

Então deu um passo e ficou distraído por algo sob seus pés. A grama não estava legal. Enquanto o Eibar cobrava o escanteio, sem sucesso, Messi estava agachado, de costas para o lance, arrumando a grama. Naquele instante, pelo menos, ele não parecia interessado em curar nada além da grama. Ele estava preocupado apenas com aquele reparo, o menor deles.

 
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TALVEZ ELE SOUBESSE que Cristiano Ronaldo já havia colocado o Real em vantagem contra o Málaga, e a luta havia acabado. LaLiga não seria sua apenas pela segunda vez em oito temporadas. Ou talvez Messi estivesse guardando suas forças para aqueles momentos em que ele sabia que fariam mais diferença. Ou talvez ele estivesse assistindo ao Eibar e procurando uma fraqueza. Talvez ele estivesse sendo apenas Messi na espera de Messi.

As oportunidades surgiram, mas ele não conseguiu convertê-las. Uma delas na linha da pequena área. Luis Suárez deu um passe açucarado, acompanhou o lance, olhou para ele e abriu a boca do mesmo jeito que um descrente encararia um fantasma.

Mais tarde, quando o placar mostrava 2 a 1 para o Eibar, Messi viu sua cobrança de pênalti ser defendida. Ele rasgou sua camisa com os dentes. Isso parecia purificá-lo, e ele decidiu jogar mais como Messi, como se a escolha sempre fosse sua. Agora, ele era fácil de ser visto, de ser detectado, e por melhores razões.

De novo e de novo ele demonstrou o mais sutil de seus talentos e, portanto, os mais belos deles: suas arrancadas perfeitamente ponderadas e os dribles por entre as pernas tão dolorosos, como se ele sentisse que a vítima tivesse que estar nele. O Barcelona empatou o jogo e, em seguida, Messi converteu sua segunda chance em cobrança de pênalti para dar a liderança do seu time, 3 a 2.

Então, ele deu a sua arrancada.

Restando segundos para o fim do jogo, ele pegou a bola dentro do círculo central, não muito longe do local onde ele havia arrumado a grama descuidada. Talvez ele soubesse o quanto isso seria importante.

Ele atravessou por dois jogadores do Eibar e, imediatamente, correu diretamente pelo meio do campo, como se estivesse em uma corda bamba, elaborando as mais delicadas fintas para passar por Galvez, que quase teve uma lesão muscular precipitando-se para o espaço vazio onde ele pensava que Messi estaria. Messi se esquivou de mais dois defensores, inclinou-se e deslizou a bola com o pé direito, colocando-o calmamente no canto inferior: 4 a 2.

Em alguns aspectos, foi apenas mais um gol para Messi, o 506º de sua trajetória no clube. Um gol sem significado, pela conquista maior de Ronaldo como vencedor da temporada. Mas para aqueles de nós que, com muita sorte, pudemos ver o objetivo de Messi na carne, isso permaneceria com um significado que vai além da razão.

Mesmo enquanto o Real celebrava o seu título em Málaga, Messi permaneceu desafiante, permaneceu determinado a escrever seu próprio final. Essa corrida foi uma mensagem para os seus rivais de Madri. Foi também uma mensagem para a doença, para desesperar: Isso é o que posso fazer. Quem se importa com você?

 
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EM 24 DE JUNHO, Messi completará 30 anos. Ele fez sua estreia profissional em outubro de 2004, quando tinha 17 anos, 3 meses e 22 dias de idade, o segundo jogador mais jovem a vestir a camisa do time ‘A’ do Barcelona. Isso foi há quase 13 anos. Hoje, há adolescentes que conhecem a vida apenas com Messi.

A matemática é fácil, mas também não é. Messi não vai jogar futebol quando tiver 43 anos. Sua carreira já passou da metade. Provavelmente, três quartos se foram. Seja qual for o número de jogos que ele ainda tem pela frente, e que nós temos para assistir, será um número muito menor do que ele já fez, e do que nós já desfrutamos.

É quase doloroso ver o filme dele desde o início de tudo. Ele jogou de forma diferente desde então. Ele não piscava, como uma criança. Sua pele não tinha nenhuma tatuagem. Seu cabelo era bem longo, repartido ao meio. Agora, sabemos a grandeza que o aguardava, mas, naquele dia, quando ele veio correndo no banco durante os 8 minutos finais contra o Espanyol, os primeiros 8 minutos de sua carreira, ele era todo o futuro.

O Messi de hoje é, principalmente, o passado. Cada vez que o vemos, ficamos um pouco mais próximos de nossa última chance.

 

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HÁ OUTROS MOTIVOS para a urgência. O Barcelona parece estar à beira de uma rotação para baixo, ou pelo menos a versão Barcelona disso. O Real Madrid, campeão da Espanha e da Europa, parece ascendente, excluindo o possível exílio fiscal de Ronaldo e apesar da memorável ataque de Messi no último instante do El Clasico em abril. (Alguma vez houve uma comemoração melhor do que levantar sua camisa para a multidão de Bernabeu?) Também as fissuras de descontentamento entre a coleção de estrelas de Barcelona começaram a aparecer, com os relatos que surgem na imprensa espanhola, primeiro no “Diario Gol”, ao dizer que o pai de Neymar quer que o filho escape da sombra de Messi. Ernesto Valverde, o novo técnico, ainda não estreou, e as negociações para a extensão de contrato de Messi foram prorrogadas, ainda incompletas.

A rádio espanhola “Cadena Ser” informou, no início deste mês, que os termos da renovação de Messi – mais três anos, com uma possível quarta temporada e uma cláusula de compra de £ 348 milhões – foram resolvidos. Mas o acordo não foi anunciado ou assinado oficialmente.

Messi rejeitou a primeira oferta do Barcelona, no valor de £ 29 milhões por temporada, dando espaço para a preocupação que ele deixasse o clube e fosse para, quem sabe, o Manchester City. Isso parece improvável. O CEO do City, Ferran Soriano, disse recentemente que espera que Messi se aposente no único clube que ele conhece. Messi e Barcelona, a cidade e os seus arredores, se tornaram quase impossivelmente entrelaçados. No início deste mês, ele comprou um hotel na costa; na primavera, sua noiva e a esposa de Suárez viraram sócias em uma loja de calçados de luxo na cidade. Em maio, o presidente do clube, Josep Maria Bartomeu, disse: "Não há dúvidas. O casamento entre Messi e Barcelona continuará."

Casamento, com todo seu amor e ressentimentos, com a certeza do dia e as dificuldades da dúvida da tarde e da noite, é, com certeza, a palavra certa.

As perspectivas não são das mais animadoras em sua carreira internacional, apesar da bem-sucedida apelação de sua suspensão de quatro jogos por agressão verbal a um assistente. A Argentina vive um estado de desordem dentro e fora do campo. Messi se aposentou depois de mais um segundo lugar na Copa América do ano passado, para mudar de opinião posteriormente. Seu time atualmente está em quinto lugar nas eliminatórias, um ponto fora da zona de classificação para a Copa do Mundo do próximo ano. Será um choque se a Argentina não chegar à Rússia, mas é tão chocante que essa possibilidade exista.

A carreira de Messi é a prova da finura das linhas, mesmo para o melhor de nós. É um equilíbrio dos mais delicados. Se não fosse o hormônio de crescimento quando criança, talvez nunca tivéssemos um único vislumbre do menino minúsculo e talentoso da Argentina.

Se não fosse por um chute longo e curto que não chegou a incomodar a Alemanha, ele poderia ter vencido a Copa do Mundo de 2014.

Se não fosse por seu pênalti perdido, ele também poderia ter conquistado o título da Copa América do ano passado.

 

 
 

A ILUSÃO MAIS MAGISTRAL de Messi é a aparência de estar no controle total de seu destino, sua lenda extremamente segura. Um parque temático inteiro dedicado a ele e suas façanhas está programado para ser aberto em Nanjing, na China, em 2019, o que diz algo – ou muito – sobre o seu apelo global e as fantasias que ele inspira. O museu no Camp Nou já tem uma seção reservada a ele, Bola de Ouro ao lado de Bola de Ouro em caixas de vidro turvas pelas impressões digitais dos fiéis.

Em legiões vindas de todo o mundo, eles visitam o museu. São mais de 1,6 milhão por ano. Há um sentimento, caminhando com as multidões de visitantes estrangeiros para o estádio, segurando lenços que ainda não foram arrancados ao alto, que se tornou uma das principais atrações turísticas da cidade: a Sagrada Família de Gaudí, o Bairro Gótico e Lionel Messi. Ele pode ser confundido com um monumento.

Mas um homem não é nada tão permanente. Messi sabe disso.

Em uma rara entrevista para Jeremy Schaap, da ESPN, em 2014, Messi foi questionado por que ele parece prestar pouca atenção a como a história o verá.

"Porque a única coisa que importa é jogar", disse ele. "Eu gostei disso desde que eu era um garotinho, e ainda tento fazer isso toda vez que eu vou para o campo. Sempre digo que, quando eu não gostar mais disso, ou quando não for mais divertido, então não vou mais jogar. Eu faço por que eu amo isso, e é tudo o que me importa."

Mais e mais, ele tem recebido motivos para não amar. Se ele assinar um contrato de três ou quatro anos, provavelmente será o último. A alegria será removida até o final. Nossas expectativas são tão elevadas que o maior jogador do mundo está, de alguma forma, também se transformando no mais subestimado. Ele marcou 54 golos em 52 jogos pelo Barcelona nesta temporada, e ainda é uma decepção. Ele terminou em segundo na Copa do Mundo e em segundo na Copa América, esta duas vezes, e deixou seu país cabisbaixo.

Seus presentes são tão bons e seus milagres são tão rotineiros que podem exceder nossa capacidade de apreciá-los. Ele nos joga para cima, mas também expõe os limites da nossa atenção plena. Ele nos deu tanto para lembrar que já estamos começando a esquecer.

 
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Messi especial 3
 

EM 27 DE MAIO, Messi disputou o último jogo de sua terceira década, a final da Copa do Rei contra o Alavés, em Madri. Havia uma atmosfera estranha e quase sinistra no condenado Vicente Calderón desde o início.

Ronaldo e o Real Madrid estavam se preparando para enfrentar a Juventus na decisão da Champions League, e ficou claro que a atenção da capital espanhola estava em outro lugar. Havia também um sentimento infeliz de que a temporada de Barcelona era um fracasso, independentemente do resultado.

O desfecho – melancólico? - estava prestes a começar, mas havia centenas, talvez milhares de cadeiras vazias na metade do estádio destinada aos torcedores do Barcelona. As bandeiras do clube foram colocadas em todas as cadeiras antes do jogo, e muitas delas ficariam lá, cobertores de lugares vazios.

Mesmo Messi parecia fora de sintonia, esfregando a parte de trás de seu pescoço como se tivesse uma dor de cabeça que não parava de incomodar. Ele caminhou até a sua posição, com os olhos baixos. Ali, não havia nada além de seus pés.

Então o apito soou.

No terceiro minuto, ele tocou a bola pela primeira vez, dominando um passe torto com o peito. A bola caiu obedientemente em seus pés. Ele virou e ergueu um longo e preciso passe profundo para o território do Alavés.

Era, para os seus padrões, uma jogada totalmente incomum.

Foi também, segundo os padrões para o resto de nós, seis segundos de graça e elegância.

Messi pode parecer obscenamente abençoado. Ele pode correr menos do que qualquer outra pessoa no campo, mas é estranho e misterioso ver com quanta frequência ele está no lugar certo. Em inúmeras vezes contra o Alavés, ele parecia estar fora de posição, mas a bola ainda acabou presa à sua órbita, como se ele gerasse sua própria gravidade. Observando-o de perto - não à distância, desta vez, mas com um microscópio -, é possível antecipar quando ele receberá a bola, porque ele ainda se ilumina como um menino quando sente a sua chegada, uma onda quase imperceptível de energia percorre seu corpo, uma corrente que o empurra com a bola em seus pés.

Ele pode fazer o que todo grande atleta pode fazer, e o resto de nós, não: ver o futuro. Ele sabe o que acontecerá antes que alguém no estádio entenda o que acabou de fazer.

Messi abriu o placar naquela noite, com um chute colocado da entrada da área, e ele começou a correr para comemorar antes mesmo de a bola ter encontrado a rede: 507 e contando.

Neymar fez o segundo Barcelona e, então, nos acréscimos, assim como havia feito contra o Eibar, ele correu. Desta vez, recebeu a bola perto da linha lateral, perto de seu banco. Atravessou dois defensores e cortou para a entrada da área. Parecia que ele iria finalizar, criando uma réplica quase perfeita de seu maravilhoso gol contra o Bilbao em 2015.

Você lembra? Ronaldo poderia ter feito algo assim? O debate sobre a grandeza respectiva de cada um deles enfurece por que é insolúvel. É como argumentar se você prefere o brilho do ouro ao o charme da prata. Você decide. Os fãs de Ronaldo apontarão seu atleticismo, seu toque marcante, seu faro artilheiro, seu troféu da Eurocopa-2016. Os de Messi vão citar algo menos explosivo, mas talvez mais complexo, como aquela arrancada na final da Copa do Rei contra a Alavés. Arrancada que, depois de tudo, não acabou com um chute a gol, mas com um passe sublime para Paco Alcacer, que facilmente decretou o 3 a 1.

Messi não deu apenas um passe naquele lance. Isso é como dizer que Einstein fez algumas contas, alguma matemática. Apenas depois de vários replays foi possível determina exatamente o que Messi fez. Ele empregou sua imaginação ilimitada e um toque delicado de calcanhar para deslizar a bola no meio de três defensores convergentes do Alavés, que quase perderam suas chuteiras.

Ele tirou da cartola um dos seus truques impossíveis apesar de quase todos os assentos vazios, uma pequena escavação para lembrar ao distraído o que, um dia, se perderá tão profundamente.

A emoção da magia vem quando seu coração quer acreditar em algo que você conhece e que não pode ser real. A emoção de Messi é diferente. Ele faz seu coração questionar a realidade de algo que você conhece, de algo que acabou de ver.

 
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ALGUNS MINUTOS MAIS TARDE e para sempre, Messi estava no pódio que havia sido montado no meio do campo, comemorando sua vitória com seus colegas de equipe. Fogos de artifício dispararam quando ele segurou outro troféu. Em breve, a peça se juntará às fileiras deles atrás do vidro no museu do Camp Nou, mais um mimo em uma guerra sem fim.

Ele encontrou sua noiva e seus filhos e os levou ao gramado, brincando com os herdeiros na grama. Então, ele retornou sua família para o lado dos torcedores, e ele caminhou, como sempre faz, de volta ao pódio, agora vazio. Sentou-se e puxou as pernas para si mesmo.

As luzes do estádio começaram a serem apagadas. Foram alguns de seus últimos momentos públicos como um jovem, o início do inevitável. Ele aproveitava isso não sozinho, mas quase sozinho, aproveitava isso visível, mas quase invisível.

Ele abaixou as meias e retirou suas caneleiras, brilhando de suor. Descansou, saboreou o momento. Mais luzes se apagaram e, finalmente, ele se levantou de volta aos seus pés cansados. Caminhou um pouco mais, desta vez para a linha lateral. Os poucos fãs restantes chegaram até ele nas arquibancadas, em adoração.

Ele sorriu e acenou para eles, deu alguns passos em direção ao túnel e desapareceu.

 

 

 

 
 

*CHRIS JONES é escritor e repórter freelancer para ESPN FC, Atlantic e The New York Times Magazine. Ele é o vencedor de dois National Magazine Awards. Tradução e edição de Ricardo Zanei. O conteúdo original, em inglês, pode ser acessado em "The world without Messi: We won't get to enjoy the iconic No. 10 much longer".

 
 

 

 

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