Farra Olímpica: Jogos foram no Brasil, mas Confederação bancou táxis em Irã, Noruega, Macedônia, Egito, Costa do Marfim, Islândia...

Diego Garcia, do ESPN.com.br
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Agora, a ESPN mostra como a Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) retirou dinheiro dos cofres públicos para bancar táxis de vários países ao redor do planeta, como Irã, Egito, Islândia, Macedônia, Montenegro, Noruega, França, Espanha e Costa do Marfim. Tudo pago a pedido de oficiais e árbitros da Federação Internacional de Handebol (IHF) em boletos descritos como "despesas de viagem" da Olimpíada do... Brasil! 

Ocorre que, em meio aos Jogos Olímpicos Rio 2016, a Confederação retirou R$ 1,7 milhão de uma conta corrente que abriga o patrocínio do Banco do Brasil, e distribuiu US$ 390 mil entre 'coronéis' da IHF, conforme mostrou reportagem desta quinta, do Jogo Limpo. Mas os membros da Federação Internacional ainda apresentaram comprovantes de táxis utilizados pelo mundo, e as quantias foram pagas pela CBHb com dinheiro público brasileiro.

Questionada, a Confederação confirmou que pagou diárias e despesas de membros da IHF durante a Olimpíada. Mas justifica isso como uma forma de quitar parcela de dívida feita por suposto empréstimo de R$ 10 milhões de 2011. Mas não existe qualquer contrato que comprove esse repasse de seis anos atrás, que por sinal não consta nos balanços financeiros da Confederação.

A CBHb ainda acrescentou que "as despesas e os respectivos pagamentos foram efetuados de acordo com as regras e valores estabelecidos pela IHF para os países sede de Campeonatos Mundiais e Jogos Olímpicos, igualmente sem nenhuma irregularidade ou ilegalidade nos pagamentos efetuados". 

Entretanto, o que contradiz a Confederação é que o Comitê Organizador do Rio 2016 também foi procurado pela ESPN. E informou à reportagem que foi o próprio Comitê o único responsável por arcar com todas "despesas de viagem" de quem teve funções na Olimpíada, como os árbitros. E acrescentou que nenhuma Confederação teve que gastar com absolutamente nada. Além do que, dirigentes estrangeiros que viessem aos Jogos teriam que se bancar sozinhos, sem ajuda do país-sede.

Handebol sacou R$ 1,5 milhão dos cofres públicos e distribuiu entre 'coronéis' estrangeiros

Pois então, confira, a seguir, comprovantes que mostram como a CBHb gastou dinheiro do contribuinte brasileiro em táxis do mundo inteiro, e em uma Olimpíada realizada aqui mesmo, no Brasil, e para "despesas de viagem" que, segundo o Comitê Organizador Rio 2016, seriam pagos pelo próprio Comitê:

  • OS TÁXIS 

 

Alguns táxis pagos pela CBHb possuem a assinatura de importantes nomes do handebol mundial, no caso membros oficiais da IHF.

Miguel Roca, primeiro vice-presidente da IHF, por exemplo, cobrou 175 euros por um táxi que, por não ter nota fiscal comprobatória, não se dá para dizer onde foi usado.

O cartola espanhol levou R$ 39 mil da CBHb, em dinheiro - dólares, no caso - com a justificativa de ter sido usado para "despesa de viagem".

Em outros casos, os funcionários da IHF anexaram comprovantes.

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O Irã é bem longe do Brasil, mas a CBHb pagou com dinheiro público por táxi iraniano
O Irã é bem longe do Brasil, mas a CBHb pagou com dinheiro público por táxis iraniano

 

Frantisek Taborski, por exemplo, é membro do Comitê Executivo da IHF. Ele cobrou por táxis usados em seu país natal, a República Tcheca - são duas cobranças de 747 coroas tchecas cada - pelo trajeto ida e volta de sua casa até o aeroporto, para voar ao Brasil - o que daria algo em torno de R$ 200.

Outro influente nome na IHF e também membro do Comitê Executivo, o francês Joel Delplanque colocou em sua prestação de contas automóveis supostamente pagos na cidade de Paris, capital da França. A CBHb deu, em dinheiro, mais de R$ 36 mil para ele no Rio. Na época, ele também era presidente da Federação Francesa de Handebol.

Veja abaixo os casos mencionados acima:

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Cartolas da IHF cobraram da CBHb por táxis na República Tcheca e em Paris
Cartolas da IHF cobraram da CBHb por táxis na República Tcheca e em Paris

 

Muitos boletos eram dos árbitros que vieram apitas os Jogos Olímpicos - vieram 30, de 15 países diferentes.

O árbitro espanhol Oscar Lopez cobrou, entre os US$ 4,3 mil que pediu, táxis utilizados na cidade de Las Palmas, Espanha.

Já Vaclav Horacek, da República Tcheca, também deu boletos de carros em seu país que somaram R$ 1 mil, entre os R$ 16 mil ao qual o profissional levou.

Zoran Radojivic, chefe do tribunal de arbitragem da IHF, anexou diversos boletos de táxis em sua prestações de contas, além de passagens de avião para o Rio que somaram 1,5 mil euros.

O cartola é natural da Macedônia e levou R$ 20 mil por seu trabalho ao longo dos Jogos Olímpicos apenas nas "despesas de viagem".

Hosny Ahmed, chefe do departamento de anti-doping da IHF, ficou com cerca de R$ 15 mil pelo período no Brasil.

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Taxistas islandeses foram outros a lucrarem com dinheiro do esporte brasileiro
Acima, comprovantes de táxis utilizados na Islândia em 2016 e pagos com dinheiro brasileiro

 

Chama a atenção, contudo, os boletos de táxi do dirigente por veículos que ele andou em Cairo, capital do Egito, na África.

Também existiram pedidos pelo pagamento de táxis na Coréia do Sul, apesar de não constar comprovantes que justificassem.

Mesmo assim, os valores constavam nas relações de despesas de viagem dos árbitros que vieram do país asiático.

O norueguês Svein Olav Brundahl, por sua vez, sentiu-se à vontade para colocar boleto de táxi na Noruega.

Por 22 dias nos Jogos, o homem que veio como um dos delegados do grupo de viajantes da IHF ficou com cerca de R$ 15 mil.

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Handebol bancou táxis utilizados na Costa do Marfim
Handebol Brasileiro pegou dinheiro público e bancou táxis utilizados na Costa do Marfim

 

Outro delegado designado para o evento, Dragan Nachevski, também da Macedônia, cobrou R$ 250 por um único táxi usado em sua terra natal. Predag Pavicevic, igualmente delegado, recebeu da CBHb por um carro que teria lhe dado carona no país de Montenegro.

A delegada Namama Fadiga, da Costa do Marfim, mais uma que ficou na faixa dos R$ 15 mil em despesas de viagem no Brasil pagas pela CBHb, colocou alguns boletos de automóveis do país africano, inclusive colocados na moeda local.

Os árbitros da Islândia, Anton Palsson e Jonas Eldasson, receberam valores idênticos por automóveis islandeses; Giorgi Nachevski e Slave Nikolov, da Macedônia, também foram "reembolsados" por supostos táxis macedônios; Alireza Mousavian, do Irã, cobrou por ter andado em carro em solo iraniano.

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Handebol brasileiro também pagou por táxis utilizados na Macedônia
Handebol brasileiro também pagou por táxis utilizados na Macedônia

 

Cabe lembrar que, como já foi dito, quem pagou por todas as despesas de viagem dos árbitros de todas as modalidades que vieram ao Brasil para a Olimpíada foi o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos 2016, o que pode indicar "pagamentos duplicados" por parte da CBHb.

Já os cartolas que vieram ao Rio tinham que se sustentar sozinhos, assim como nenhuma Confederação Brasileira teve que gastar nada - essas infos também foram dadas ao ESPN.com.br pelo Comitê Rio 2016.

Mesmo assim, a CBHb desembolsou US$ 390 mil (R$ 1,5 milhão) à IHF para bancar as "despesas de viagem" de 75 pessoas. E também pagou por gastos com táxis em diversos países, conforme mostrado acima.

Para encerrar, vale dizer que os boletos de táxis mencionados no texto e também aqueles reproduzidos em documentos são só alguns entre diversos colocados como comprovantes.

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Táxis usados em Espanha, Egito, Noruega, Macedônia...
"Despesas de viagem do Rio 2016" são táxis usados em Espanha, Egito, Noruega, Macedônia...

 

O cartola Manoel Luiz Oliveira, que ficou 28 anos na presidência da Confederação Brasileira de Handebol, foi impugnado pelo STJD, em sentença que até o momento tem o aval da Justiça do Sergipe, confirmado em decisão de um desembargador nesta última terça que torna nula uma liminar anterior em favor do cartola.

Mas, mesmo impugnado, o cartola segue no poder da Confederação, que ainda não teve novas eleições convocadas - o site oficial da entidade não apresenta nenhum nome entre os membros da diretoria desde que o pleito agora impedido pela Justiça foi realizado, no começo de fevereiro, há quatro meses.

Nesta quarta-feira, por sinal, a CBHb divulgou nota oficial dizendo que tomou conhecimento dessa nova decisão da Justiça pela notícia publicada pela ESPN (em decisão que já está, inclusive, disponível no site do Tribunal do Sergipe), mas que ainda não foi notificada e que, por isso, Manoel vai seguir na presidência da Confederação normalmente, conforme expressou em nota oficial divulgada nesta quarta.

O handebol brasileiro segue em alerta: o Ministério Público pediu abertura de inquérito policial contra a CBHb. As investigações estão nas mãos da Polícia Federal e do próprio MPF.

 

  • OUTRO LADO 

 

CLIQUE AQUI e confira, na íntegra, o que disseram as partes envolvidas sobre as informações publicadas neste texto. A Confederação Brasileira de Handebol enviou uma nota oficial, que está no fim da reportagem deste link, enquanto o Banco do Brasil - na posição de patrocinador oficial da CBHb - também respondeu a algumas perguntas. Já a Federação Internacional de Handebol ignorou os e-mails enviados pela ESPN.

 

 

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  • CONTATO JOGO LIMPO

 

Em setembro, a ESPN lançou um canal para fiscalizar e cobrar transparência no esporte. Queremos a contribuição dos leitores e telespectadores do canal para contar essas histórias. Se você tem alguma dica, de qualquer esporte, olímpico ou paralímpico, nos mande um e-mail para: jogolimpo@espn.com. A fonte será preservada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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