Aulas magistrais e 1ª chance: como família Cruyff impulsionou carreira de contemporâneo de Guardiola

André Donke, do ESPN.com.br*
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Óscar García é bicampeão austríaco com o Red Bull Salzburg
Óscar García é bicampeão austríaco com o Red Bull Salzburg

"Me fiz treinador por você. Tive muito claro que o que me ensinou eu tinha de dar continuidade e não ficar com isso para mim. Foi precisamente aí, treinando, quando soube que você havia ido fisicamente desta vida. Digo fisicamente, porque você nunca partirá, os gênios nunca se vão".

Uma carta emotiva, palavras de agradecimento e a promessa de não deixar o espírito de Johan Cruyff morrer no futebol. Foi assim que Óscar García Junyent se despediu não só da lenda como também de seu mentor.

Revelado pelo Barcelona como atleta, ele chegaria ao elenco profissional no começo da década de 90, quando o time era comandado pelo holandês. O meia-atacante nascido em Sabadell, na Catalunha, que seria emprestado ao Albacete na temporada 1994-95, seguiu no Barça até 1999, quando se transferiu ao Valencia. Na equipe azul e grená, foram quatro títulos do Espanhol, dois da Copa do Rei e uma Supercopa da Uefa.

"(Cruyff) era um treinador que o que mais destacaria nele é que cada treinamento era como uma classe magistral, você aprendia muitas coisas em cada treinamento", contou García em entrevista ao ESPN.com.br.

Após somente uma temporada, ele retornaria à Catalunha para defender o Espanyol. Ficaria até 2004, quando acertou com Lleida, equipe em que encerraria a carreira em 2006 aos 33 anos.

O aprendizado que teve como atleta de Cruyff seguiria depois de pendurar as chuteiras. Afinal, o holandês o chamaria para ser seu assistente da seleção catalã, o que representou o início da trajetória de um promissor técnico.

No ano seguinte, assumiu o Juvenil A do Barcelona, no período em que Pep Guardiola, seu antigo colega de equipe, era o comandante do elenco profissional. A primeira oportunidade como treinador principal viria em 2012 e seria dada por alguém de sobrenome familiar. Cruyff. Jordi Cruyff, filho do lendário jogador e treinador, era o diretor esportivo do Maccabi Tel Aviv, quando convidou Óscar García a treinar a equipe.

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Óscar García, em ação pelo Barcelona em 1998
Óscar García, em ação pelo Barcelona em 1998

Logo na primeira campanha, o time foi campeão israelense após dez anos, mas o treinador saiu alegando motivos pessoais. Assumiu o Brighton, então na segunda divisão, e levou o time até playoff do acesso. Eliminado na semifinal, o técnico optou por sair.

Em junho de 2014, retornou ao Maccabi, mas ficaria pouco mais de dois meses, já que saiu alegando motivos de segurança devido aos conflitos no país. Em setembro, assumiria o Watford, mas não permaneceria sequer até o fim do mês. Um problema de saúde o fez deixar o cargo para se recuperar.

Óscar García conseguiria emplacar uma sequência em dezembro de 2015, quando retornou após mais de um ano parado para treinar o Red Bull Salzburg. Em um ano e meio, conseguiu duas dobradinhas na Áustria (conquista do título do campeonato e da copa).

Em alta, viu seu nome ser especulado como possível substituto de Luis Enrique no Barcelona, antes da contratação de Ernesto Valverde. Nesta quinta-feira, ele acabou confirmado como novo comandante do Saint-Étienne, o maior campeão francês, com o qual assinou por dois anos.

O discípulo de Johan Cruyff, agora, se aproxima dos holofotes.

AS Saint-Etienne/Reprodução
Óscar García é o novo técnico do Saint-Etienne
Óscar García é o novo técnico do Saint-Etienne

Confira a entrevista com Óscar García:

Qual é a influência da filosofia do Barcelona em seu trabalho e na sua vida?

Óscar García: É uma influência muito grande. Desde pequeno eu cresci como torcedor do Barcelona. Depois tive a sorte de estar nas categorias de base como jogador, alcançar a primeira equipe, passar seis anos na primeira equipe e depois tive toda a sorte de ser o treinador dos times inferiores. Logicamente quando passa toda a sua vida como jogador, como pessoa, como treinador, logicamente a influência que tem o Barcelona é muito grande.

Seus irmãos também jogaram pelo Barcelona, certo? O quanto vocês falam de futebol e o quanto isso contribuiu no seu trabalho?

OG: Sim, logicamente. O futebol é nossa paixão, de toda família. Tanto do meu pai como de meus irmãos. Sempre falamos do assunto. Meu irmão do meio (Genís) tem dois filhos que jogam futebol, ele se dedica ao ensinamento. Meu irmão mais novo (Roger) também treina categorias inferiores, também tem seus filhos jogando. O futebol sempre rodeou as nossas vidas.

Eles estão em quais equipes agora?

OG: Meu irmão trabalha no Damm, um time que só trabalha na base e é um dos melhores clubes da base de Catalunha e da Espanha. É treinador do sub-19 e coordenador das categorias inferiores.

Como foi trabalhar com Johan Cruyff? O quanto aprendeu com ele? Tem algum momento muito especial com ele que se lembra?

OG: Há muitos, era um treinador que o que mais destacaria nele é que cada treinamento era como uma classe magistral, você aprendia muitas coisas em cada treinamento. Tinha sempre uma frase que nunca você esperava quando saía do banco no segundo tempo. Tinha frases que você não esperava, sempre ficava esperando o que ele ia dizer. Eram mais que coisas práticas, eram coisas como: ‘Vá lá, marque um gol e acabamos com isso'. Fazia esse tipo de comentário e te dava muita confiança para ir jogar.

Ele é a principal referência para você como treinador?

OG: Sim, logicamente. Pois um treinador que te ensina tanto, é lógico que seja uma das referências. O mais importante é que tive a sorte de ter tido outros treinadores, tive a sorte de aprender muito. Mas logicamente ele é o treinador que me fez estrear, e isso você sempre se lembra.

Além da relação no futebol, você era próximo dele fora dos gramados? Era próximo dele e sua família?

OG: Como jogador, somente profissional. Depois no Maccabi de Israel, começamos a ter um pouco mais de relação, mais com sua mulher, sobretudo com o seu filho (Jordi). Seu filho foi o primeiro que me deu a oportunidade de treinar a nível profissional. E a partir daí tivemos maior proximidade do que quando eu era jogador.

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Jordi Cruyff contratou Óscar García no Maccabi Tel Aviv
Jordi Cruyff contratou Óscar García no Maccabi Tel Aviv

Como está vendo o RB Leipzig? Tem causado problemas para vocês, porque levaram jogadores como Naby Keita e Bernardo?

OG: A princípio, sim, porque não encontrava resposta normal, não entendia o que estava acontecendo, mas depois se conhece um pouco mais como se funciona aqui e entendo perfeitamente. É lógico que jogadores como Naby Keita não podem ter muitos anos jogando em uma liga como a da Áustria.

Qual é o estilo e tática que mais gosta?

OG: Eu gosto que tenha muitas rotações de bola, que a equipe seja proativa e que tenha muita posse de bola no campo adversário. Quanto ao sistema tático, defino dependendo das qualidades dos meus jogadores.

Qual é a sua relação com Guardiola? Vocês têm contato até hoje?

OG: Não, não. Bom, quando é possível nos vermos, nos cumprimentos, conversamos, mas não há contato diário, pessoal. Quando nos vemos, nos encontramos, nós conversamos. Mas não, portanto, (contato) diário.

As trajetórias bem-sucedidas de vocês dois, duas pessoas que jogaram no Barcelona da década de 90, não é coincidência, certo?

OG: Certamente que não é coincidência. Não somos só nós dois, há outros jogadores desse época que são treinadores hoje, que tiveram esse sentimento e também se colocaram após terem tido Johan Cruyff como treinador.

Você passou por Inglaterra e Israel. Como foram essas experiências, por que foram tão rápidas?

OG: Bom, foram experiências diferentes. Em Israel foi uma temporada perfeita, em dez anos não tinham vencido a liga e fomos campeões no primeiro ano. Porém, depois da temporada, aconteceu uma série de coisas que me fizeram pensar que talvez tivesse que me mover para outro destino. E depois na Inglaterra, a Championship é uma liga muito exigente, e conseguimos o objetivo de entrar o playoff, e finalmente não pudemos subir à Premier. Havia algumas conversas com as pessoas do clube, eles pensavam que não poderiam investir muito no elenco, houve uma série de divergências e no final entendi que o melhor era sair, porque senti que na próxima temporada não poderia obter os mesmos êxitos, e assim foi. Quase caiu para a terceira divisão da Inglaterra, foi uma temporada complicada para o Brighton.

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Espanhol assumiu o Salzburg no fim de 2015
Espanhol assumiu o Salzburg no fim de 2015

Você se acostumou a grandes ligas e a grandes jogos como atleta. Como é a experiência de trabalhar em países periféricos do futebol, quais vantagens trazem?

OG: Creio que é uma experiência muito boa como treinador, conhecer diferentes mentalidades, diferentes estilos de jogo, diferentes tipos de jogadores, com diferentes nacionalidades, diferentes mentalidades. Tudo isso te engrandece como treinador: você só tem mais a melhorar do que se passar toda a sua vida em um mesmo país ou em um mesmo lugar.

Por que você acha que a Red Bull está sendo tão bem sucedida e de forma tão rápida no futebol alemão e austríaco?

OG: Logicamente, no exemplo de Leipzig, teve muito êxito subindo de categoria, foram a grande surpresa, mas é preciso lembrar que foi a equipe que mais gastou em contratações. Contrataram muito bem, jogadores que se adaptam muito bem ao estilo e fizeram uma grandíssima temporada, mas depois de Bayern e Dortmund acho que foram os que mais dinheiro gastaram em contratações nesta temporada.

E no caso do Salzburg não há tanto dinheiro. O que explica o sucesso tão rápido com você ou dos anteriores como Roger Schmidt?

OG: Creio que houve bons treinadores, jogadores jovens da base. Houve treinadores de muito bom nível que ajudaram no crescimento da equipe e do clube.

Você teve algum contato de alguém para treinar o Barça? Como viu essa possibilidade? (Entrevista foi realizada antes da confirmação de Valverde como técnico do Barcelona)

OG: Logicamente, sendo torcedor do Barcelona por toda a minha vida, só ter meu nome em consideração em uma lista, é uma honra e um orgulho. Mas ninguém se colocou em contato diretamente comigo para que esta opção seja uma realidade.

*Colaborou Antônio Strini

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