Há 20 anos, Guga fazia a semifinal mais insólita da história do tênis

ESPN.com.br
Montagem/Getty
Dewulf e Guga fizeram a primeira semi de Roland Garros sem cabeças de chave
Dewulf e Guga fizeram a primeira semi de Roland Garros sem cabeças de chave

No dia 6 de junho de 1997, Gustavo Kuerten já havia deixado sua marca ao eliminar Jonas Bjorkman, Thomas Muster, Andrei Medvedev e Yevgeny Kafelnikov em sua segunda participação em Roland Garros, mas faria uma insólita semifinal de Grand Slam.

Mesmo tendo iniciado a competição como apenas o 66º do ranking da ATP, Guga chegava na penúltima partida da histórica campanha sendo favorito, fato que aconteceu pela primeira, e única, vez no torneio. Afinal, do outro lado estaria o belga Filip Dewulf, 122º colocado na lista, e que havia entrado na chave de simples por meio do qualifying.

Dewulf tinha jogado três jogos a mais para conseguir se classificar para a chave principal do torneio, mas conseguiu deixar para trás nomes como Carlos Moya, cabeça de chave número 9, Alex Corretja, que vinha com 22 vitórias e apenas 4 derrotas no saibro antes de começar o torneio francês, e o sueco Magnus Norman, além de passar por Fernando Meligeni na segunda rodada.

"Vai ser um jogo difícil porque nenhum de nós esperava chegar à semifinal, mas vou tentar impor meu jogo", disse Guga na época.

Nunca um brasileiro ou um jogador do qualifying haviam chegado tão longe do torneio. A curiosidade sobre a primeira semifinal de Roland Garros com dois jogadores que não eram cabeças de chave era inevitável.

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  • Dois desconhecidos atrás do paraíso

A história dos azarões que deixavam gigantes pelo meio do caminho obviamente chamava a atenção da imprensa internacional. Gustavo Kuerten era constantemente perguntado sobre sua roupa chamativa, e questionado se aceitaria a pressão do torneio para utilizar cores mais claras. "A cueca que estou vestindo é branca", chegou a responder para um dos jornalistas.

Michael Steele/EMPICS PA Images/Getty
Guga chamava atenção com seu estilo
Guga chamava atenção com seu estilo

Quem também chamava a atenção dos repórteres do mundo todo era a avó de Guga, Olga Schloesser, que veio a falecer no ano passado. Depois de chegar em Paris para acompanhar de perto a reta final do torneio, ela dava dicas ao neto sobre os futuros adversários.

"Ela chegou ontem com minha mãe, e meu treinador quase perdeu o emprego", brincou Guga, então com 20 anos. "Desde que eu comecei a jogar, ela sabe de tudo. Ela estuda cada jogador. Ela conhece Becker, Sampas, Kafelnikov. Se eu começo a conversar com ela, ela diz: ‘Vamos lá, com este você tem que jogar assim'. Ontem fomos jantar e eles me separaram dela para ela não começar a dar as dicas", contou Guga, que não se intimidava pela quadra principal.

"É melhor do que jogar na quadra 21, com ninguém assistindo, só você e seu treinador tramando sonhos, e sonhos e mais sonhos", disse. 

Já Dewulf tinha Roland Garros como o maior de seus sonhos. O belga contava que em seu país o Grand Slam francês era visto como o mais importante, por ser o mais fácil de ser acompanhado no local e por todos os jogos sempre terem sido transmitidos na televisão.

O tenista belga reconhecia que não havia feito um bom qualifying. "Partidas estranhas, baixo nível de jogo, mas eu fui passando", contou.

"Era um cara estranho, que jogava em cima da linha. E ele soube se aproveitar muito bem do fato de ninguém conhecer ele muito bem. Eu mesmo, quando fui enfrentá-lo, não conhecia muito", lembrou Fernando Meligeni, vítima na segunda rodada.

O periódico France Soir estampou em sua capa no dia da semifinal: "Apenas um desconhecido irá ao paraíso". Era hora de saber qual deles seria.

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  • Não foi fácil

Aos 20 anos, Guga tinha que lidar com o favoritismo em uma semifinal de Grand Slam. Depois de batalhas de cinco sets contra Muster, Medvedev e Kafelnikov, a missão contra Dewulf deu impressão de que seria fácil.

Em 25 minutos, o brasileiro venceu o primeiro set com tranquilidade, impondo seu ritmo com golpes rápidos e fechando em 6 a 1. "Ele me surpreendeu, de tão mal que estava", disse Kuerten.

Só que Guga também não apresentou o mesmo tênis das partidas contra os grandes rivais. No segundo set, o belga tomou controle do jogo e fechou em 6-3. O susto serviu para que o brasileiro acordasse e reagisse.

Com um novo 6-1, Kuerten ficou em vantagem e foi para o quarto set podendo fechar o jogo. Mas o nervosismo voltou a aparecer. A parcial foi para o tie-break e Dewulf começou abrindo 2 a 0 e, com a vantagem em 4 a 3, cometeu dois erros não forçados e viu Guga fechar em 3 sets a 1 após 2 horas e 14 de jogo.

"O desejo para lutar até o fim não estava lá hoje", disse Dewulf, decepcionado após o desempenho abaixo do esperado na semifinal.

Já Guga deixava claro que não ia se contentar com a vaga na final. "Não estou satisfeito ainda. Eu realmente quero isso mais agora. Eu sei que ele (Sergi Bruguera, adversário da decisão) venceu duas vezes aqui, mas, na final, todo mundo fica um pouco mais nervoso", declarou.

Gustavo Kuerten não estava certo, já que ele não pareceu nem um pouco nervoso na hora de decidir.

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