Exclusivo: Tite explica suas convocações e fala sobre crise no Brasil: 'Dói'

Diego Garcia, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
Perguntado sobre situação política do Brasil, Tite muda semblante e responde: 'Dói muito'

Tite completou 56 anos de idade nesta quinta-feira. No mesmo dia, recebeu a reportagem do ESPN.com.br em uma de suas salas, na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro. E conversou sobre os mais diversos temas.

Técnico da seleção há quase um ano, Tite está invicto no cargo: em jogos oficiais, são oito vitórias em oito partidas, e classificação antecipada à Copa do Mundo 2018. Recuperando, inclusive, a confiança da torcida no time verde e amarelo.

Nessa entrevista exclusiva, o comandante falou sobre seleção, convocações, Neymar, Corinthians, também comentou sobre declarações de Rogério Ceni envolvendo Rodrigo Caio, sem contar até o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, acusado de corrupção por autoridades. E também sobre a crise por qual o Brasil passa.

Veja, a seguir, a entrevista na íntegra:

ESPN - Você completa um ano na seleção mês que vem. Qual é o balanço desse primeiro ano?
Tite -
Eu fiquei refletindo esses dias. ‘Pô, já vai completar um ano?' Passou tão rápido, tantas situações novas acontecendo. A primeira coisa que me vem é de um objetivo alcançado, que foi uma classificação ao Mundial, a primeira etapa alcançada. Não imaginava que fosse tão rápido e surpreendente. E agora o desafio para consolidar esse trabalho e aproveitarmos essa sequência para uma boa preparação ao Mundial.

ESPN - Falando de preparação, então, o que você pode falar que tem sido feito?
Tite -
O que nos proporcionou esses dois amistosos que tivemos contra Argentina e Austrália? De também oportunizar alguns atletas pela qualidade que têm e bons campeonatos que fizeram. Aí coloca Rafinha, David Luiz, Alex Sandro, só dando três exemplos de campeões que estão disputando campeonatos importantes. E temos a oportunidade de utilizá-los, abrir esse leque de opções, abrir essa concorrência que existe entre atletas, de forma leal e com o melhor desempenho de cada um, então ele vai construindo essas etapas. A fase classificatória será acompanhada por Fernando e Thomaz, na fase final vamos eu e Edu, e na medida do possível fica aquela situação, acompanhamos vídeos, jogos in loco aqui no Brasil, grupo de equipes em evidência para uma melhor condição, para sermos o mais justo possível.

Tite fala sobre sua 'contribuição' na seleção: 'Trazer o conhecimento e o passado em função da equipe produzir bem'

ESPN - Você mencionou o Fernando e o Thomaz, que são seus analistas de desempenho. Como você pode definir o trabalho que eles fazem?
Tite -
Fernando, Thomaz, Kleber, Sylvinho, Matheus, eu, o Taffarel, nós ficamos voltados a especificidade. Acompanhamos jogos ao vivo, todas as rodadas e principais jogos, os lances cortados de cada atleta individualmente de um grupo de 50, 60, 40, em torno disso dos atletas que vão surgindo e temos expectativa, do acompanhamento de treinamentos, volto a dizer, para que quando façamos uma convocação esteja calcada em algo consistente. Exemplo: Jemerson. É uma situação que acompanhamos. Fez um grande campeonato em 2015, da qualidade e grau de enfrentamento do Jemerson, aí vê o campeonato francês que teve o Mônaco como a defesa menos vazada, chegou à semifinal da Champions, jogou 35 de 38 jogos e dá uma consistência. Assisti o último jogo com grau de dificuldade, no Delle Appi enfrentando Higuaín, Dybala, uma atuação individual forte contra um time como a Juventus, então buscamos esses detalhes para que credencie a sua convocação.

ESPN - Vocês estão acompanhando muitos jogos in loco, no Brasil ou fora, o que talvez não fosse tão comum em comissões técnicas antigas da seleção. Até que ponto é importante esse acompanhamento ao vivo?
Tite -
A atmosfera do jogo, o emocional está muito aflorado nos jogos. Então, você ter esse acompanhamento in loco é importante. Por exemplo, você pega um ângulo de visão, por exemplo, um lateral direito com o ataque no lado esquerdo, então por vezes a câmera não me proporciona uma visão da mesma forma quando eu estou assistindo. Aí eu consigo ver o posicionamento, a compactação, se faz pressão alta, se a linha defensiva é alta ou baixa, para não expor atletas à velocidade ou não, eu consigo ver detalhes do jogo. Se há flutuação, ou se há o jogador que fica como winger, de beirada, como um externo, especificamente, ou se tem liberdade para jogar no meio-campo. Eu consigo ver detalhes do jogo que por vezes fica limitada dentro outros aspectos na televisão.

Tite se vê em grau de excelência profissional e lembra quando vestia roupas formais para parecer 'mais sério'

ESPN - Além do acompanhamento técnico, também existe o trabalho com o lado humano. Por exemplo, quando o Gabriel Jesus se machucou, você ligou para ele para tranquiliza-lo. Então, para uma equipe que não treina sempre e só se vê de vez em quando, por que isso é bom para fortalecer essa equipe?
Tite -
Eu digo assim, quando falo de competir com lealdade, é que eu quero que todos tenham saúde e possam concorrer na melhor das suas condições. E que deixem para o técnico depois decidir, que entendam que o técnico tem respeito por eles e a recíproca é da mesma forma. Que às vezes uma escolha não tem nada de pessoal, mas tem do melhor momento técnico de cada um. E nem citar o lado humano, pois não vejo nenhum ramo de atividade profissional que diga que se é profissional e só tem lado humano. Não entra na minha cabeça. Nós vivemos de emoções. É como eu dizer que meus problemas particulares não interferem na minha vida particular. Para mim, esse cara é um extraterrestre. A gente tem a capacidade de administrar isso tudo. Na medida que está preocupado com o caso do Gabriel, ou o Casemiro anteriormente, mais recentemente liguei para o Firmino agora, falei ‘Firmino, sei que não está no melhor das condições, jogando os últimos três jogos administrando, então tem a necessidade também de um descanso e uma recuperação'. É preciso esse cuidado em termos humanos e também de saúde.

ESPN - Como está sendo seu relacionamento com outros treinadores brasileiros em seu trabalho como técnico de seleção? Existe consulta?
Tite -
Vivemos em um mundo extremamente competitivo. Alguns, com uma proximidade maior ou não. É normal que aconteça. Gostaria de dizer que tenho um bom relacionamento com todos, mas não tenho. Com alguns temos mais afinidade, com outros menos, ao longo da vida tu desenvolve competições, e daqui a pouco acontece um choque que vai distanciando. É da vida e é a mesma coisa em termos profissionais. Eu quero sempre ter a dignidade da minha condução. E o meu papel como técnico da seleção foi abrir um canal de comunicação com todos, para que pudessem me dar algum subsídio que possa ser importante à seleção. E essa busca eu fiz e continuo fazendo.

Tite diz não ter bom relacionamento com todos os técnicos e que precisa de privacidade para 'palavrões'

ESPN - Em uma entrevista de 2014 após a Copa, quando você estava naquele seu ano sabático, você mencionou um episódio que o Felipão treinava a seleção em uma atividade tática e teve que ir ao alambrado pedir para fazerem menor barulho, pois não conseguia passar instruções. Não tinha privacidade, não dava para treinar uma equipe. O que você pode dizer que será feito para ser diferente na Copa da Rússia de olho em preservar a privacidade da seleção?
Tite -
É verdade. Eu estava na academia, esteira, não lembro, fazia alguma atividade física. Estava vendo vocês transmitindo e focando de longe, como ideia. A privacidade é importante quando se exige uma concentração maior. Eu falei isso em uma entrevista. No jogo contra o Paraguai, em casa tínhamos a necessidade de ficar um, dois treinos fechados, e disse que não entendessem como uma forma de atrapalhar o trabalho de ninguém. Não tenho interesse nisso. Preciso de uma privacidade, estar concentrado, focado, dar um grito, um palavrão, acontece. Você está no seu dia a dia, para passar ao atleta uma privacidade um pouco maior. É importante em alguns momentos, não precisam ser todos, mas estamos atentos quanto a isso.

ESPN - Na mesma entrevista de 2014, você contou uma história de um diretor do Veranópolis sobre três papagaios em uma venda, uma história que falava sobre a importância do comando. Você pode relembrar essa história fazendo uma analogia com seu trabalho na seleção, partindo do pressuposto que a seleção tem os mesmos jogadores há alguns anos, as mesmas peças e atletas, com uma ou outra exceção, mas hoje vemos outro ambiente, outro tipo de comando. Até o Neymar disse em uma entrevista que você "deu liga" à seleção, trouxe personalidade e comando.
Tite -
Quer que eu conte a história? Um grande diretor que tive no Veranópolis, o Edgar, que tenho muita gratidão e com quem aprendi muito, e ele conta a historinha que tinham três papagaios em uma venda. Um custava 50, outro 100 e o outro não tinha valor nenhum. Aí tu via, por que um custava 50? Porque esse ia te acordar qualquer hora que pedisse com uma música. O de 100 também ia te acordar com uma música, mas ainda cantar o hino do clube que tu quiser, ele aprende. E o terceiro? Não estava à venda de jeito nenhum. E não fazia nada. Mas a posição dele era importante. Porque os outros dois só cantavam se esse estivesse presente. O senso de equipe está aí. Cada um com a sua função, cada um com as suas atribuições. Atleta é o astro maior. Mas daqui a pouco um técnico com a experiência que talvez eu tenha tido possa ter dado liga agora, como outros em outros momentos fizeram. A minha etapa será de outros, como antes aconteceu de outros profissionais.

Tite comenta sobre elogios que recebeu de Guardiola e Mourinho: 'Fico muito feliz'

ESPN - Uma vez, você disse que uma pessoa, em qualquer ramo profissional, precisa atingir 10 mil horas de trabalho acumuladas, ou 10 anos, para atingir o seu nível de excelência. Hoje, você tem mais tempo do que isso de treinador, mas se contarmos desde que você chegou ao Inter, 2008, começou seu auge, já vamos completar 10 temporadas. Você se vê hoje no seu nível de excelência?
Tite -
Vejo. São 10 mil horas da atividade. Às vezes na carne queimando, erro cometido. A experiência vem com teoria e prática. Preparação constante e prática, que traz experiência. Tem horas que me pergunto como fiz tal coisa, talvez tenha sido guardado em algum lugar do cérebro que não sei, mas que possa me conduzir ali, me trouxe discernimento no calor do jogo, mas o dia a dia te proporciona isso. A construção de uma carreira específica dentro da área talvez tenha me proporcionado essas condições. Parei de jogar cedo, já estou há bastante tempo que abri as portas para ser técnico. Vestia calça que não fosse jeans, uma camisa mais normal, porque eu com 28 anos orientava atletas de 32, 33 e para dar um ar a mais de seriedade colocava uma roupa mais formal.

ESPN - Nesse ano, temos visto muitas personalidades consagradas mundialmente te elogiando, exaltando seu trabalho. Posso citar dois exemplos, do Guardiola, que te elogiou em uma entrevista na Espanha, e o Mourinho, que em entrevista à ESPN disse que você tem experiência e personalidade para dirigir a seleção. Você sempre foi um cara humilde, que não deixou as conquistas te mudarem. Mas você não fica envaidecido com tantos elogios?
Tite -
Eu digo que fui criado na simplicidade com os erros que o ser humano tem. Eu tenho minha autoestima, meu orgulho próprio. O Tostão fez essa referência, que a minha vaidade é voltada para dentro. Quando vou para casa, com a minha esposa e meus filhos, fico feliz e gratificado com o meu trabalho. Mas não gosto de ficar externando. Tem tantas pessoas que podem analisar a conduta, a forma. O que trago comigo é que fico feliz quando procuro fazer o trabalho focado. E que mais do que o reconhecimento do pessoal da minha área, sim o elogio das pessoas que trabalham comigo, pois elas verdadeiramente sabem como trabalhamos. Se o Vinicius, a Cláudia, e somos verdadeiros, de verdade, não é aquilo que aparece na câmera. Será que no dia a dia é assim, na adversidade? E formar essa equipe para ter fortalecida, pois somos desse jeito. As coisas são assim, funcionam assim. Essa integração de equipe, com suas diferenças, para estar fortalecida ao Mundial. Isso para mim é mais forte, mais consistente, pois aqui as pessoas me conhecem mais. Daqui a pouco, um elogio que seja, que eu fico feliz e gratificado, mas de pessoas que profundamente não me conhecem.

Tite explica ausência de Neymar de amistosos e diz que gostaria de convocar todos

ESPN - Ainda pegando esse gancho do reconhecimento, somado aos elogios dos profissionais da sua área que eu mencionei, também tem aquela pesquisa, que 15% das pessoas te colocariam como presidente do Brasil. Você já disse, em uma entrevista coletiva, na semana passada, que essa é uma brincadeira irresponsável, que não se brinca com coisa séria. Mas uso isso aqui para questionar se tudo isso não faz com que você esteja sendo visto como uma unanimidade à frente da seleção?
Tite -
Não. Eu elenco pessoas com quem tenho desavenças, pessoas com quem eu rivalizo e pessoas que são inimigas, tenho uma série delas. Existem pessoas com estilos diferentes e que conseguem situações diferentes. Normal, natural. Não gostaria que fosse, mas é assim. O que eu tenho bastante respeito e busco é em cima da minha conduta e de todo um legado, quando olho para trás, ao meu lado, e dizer poxa, como foi construída a carreira dele? Como era no Corinthians, como era no Veranópolis, como era quando não era técnico? Como era quando foi comentarista pela ESPN na final da Champions 2014? Ele é assim? Isso tudo faz o conjunto da obra.

ESPN - Já que citei o tema presidência do Brasil, hoje, você como técnico da seleção brasileira, sua opinião é importante. E qual é a sua opinião sobre o momento delicado atual vivido pelo nosso país?
Tite -
Enquanto você fazia a pergunta, eu me vi cruzando o braço, indo para trás e fechando o meu semblante. As pessoas que estão me olhando viram o quanto eu fiquei incomodado. Não com a pergunta, mas com a realidade brasileira. Eu gostaria muito que todas as instituições, Ministério Público, Polícia, tivessem todas as condições equilibradas de apurar a verdade e mandar as punições a quem merece. Na área de técnicos que seja, e depois ampliem a todas as áreas. E que a gente invista em educação, senão perdemos a autoestima do ser humano, da igualdade e possibilidade de igualdade social. Isso dói, isso machuca. Já falei que mata, pois o dinheiro reconduzido por interesses próprios poderia ter ido à educação, poderia ter sido investido na saúde. Termos um pouquinho mais de igualdade. Isso me dói! Eu fico muito atento a vocês, canais de comunicação, para que as coisas possam estar esclarecidas. Aliás, eu acredito que nesse momento os meios de comunicação tem um papel extraordinário. Claro que um ou outro com um viés não tendencioso, acreditando de uma forma, outro acreditando de outra, mas expondo tudo isso para que o público veja, interprete e tenha a capacidade de cobrar ou escolher a quem mereça.

Tite sugere ação para clubes não ficarem tão desamparados quando seus jogadores forem convocados

ESPN - Voltando a seleção, vimos que nessa última convocação não foram chamados Neymar, Daniel Alves, algo que em outros tempos não víamos, o fato de atletas consagrados ficarem de fora nem mesmo de simples amistosos. Foi uma decisão sua, sem nenhum tipo de interferência no sentido de que devia chamar os caras, que são as estrelas da seleção?
Tite -
A interferência minha é no sentido de convocar todos. Mas em termos hierárquicos tenho que dar autonomia a profissionais do nível do dr. Rodrigo, do Fábio, que analisam quantos jogos cada um fez na temporada, a minutagem em cada jogos que teve, os anos anteriores se tiveram férias inteiras, completas ou parciais, o nível de stress que o atleta tem, por exemplo, pega agora Juventus e Real tem essa pressão da final, das Ligas, e a tensão da Champions. Tu está drenado, absorvido. Eu prestei atenção que tu vieste aqui muito bem preparado, com uma série de informações importantes, com relatos passados, porque tu estudou a sua entrevista, você preparou a sua entrevista, a sua equipe se preparou. E eles também têm isso. Isso absorve. Então, daqui a pouco, vou interromper um amistoso em um planejamento futuro que podem interferir de forma negativa para temporada e Mundial. Tive que ouvir eles. O Marquinhos há muito tempo sem descanso, o Dani, então fizemos isso para segurar esses atletas e oportunizar outros, aproveitar esse tempo que temos em função de termos classificado de forma antecipada.

ESPN - Pegamos as convocações e vemos muitos atleta que trabalharam com você no Corinthians. Até que ponto o trabalho que eles tiveram com você no passado, de perto, em termos de confiança, tem importância nas suas convocações?
Tite -
Tem importância, mas pequena em relação ao conjunto. E te pego outro lado, tenho muita confiança no Cássio, muita confiança no Elias, que foram convocados anteriormente e não foram comigo. Porque existe concorrência do Diego Alves, Weverton. Trabalhei com o Diego No Atlético-MG, mas não trabalhei com Weverton, nem Alisson. Claro que tenho situação mais próxima, de conhecer Paulinho, Renato Augusto e Gil, porque trabalhamos, mas veio o Jemerson que eu nunca tive contato. O Coutinho também, nunca tive contato. A gente procura equilibrar. É um fato, é. É decisivo? Não.

Tite explica convocação de Rodrigo Caio: 'Jogador versátil, de qualidade e de conduta pessoal e mora

ESPN - Quando era técnico, você não gostava de perder jogadores convocados em meio a disputa de Campeonato Brasileiro e outros torneios. Agora, é você que convoca e desfalca outros técnicos. Como exemplo, cito o Corinthians, que vai perder Fágner e Rodriguinho por algumas rodadas, além de outros clubes. Pois agora que você é quem está do outro lado, vê essa questão de forma diferente?
Tite -
Eu tento fazer o que gostaria que fizessem comigo. Quando era técnico de clube, queria saber da convocação e o que o atleta fez, eles estavam convocando e tinham que me informar. O que eu faço? Abro um canal de comunicação com todos os profissionais. Há um relatório físico e técnico que é remetido os clubes para saberem. Diego Souza volta ao Sport? Quero saber o que fez. O tipo de treinamento. Se voltou no peso e condição física iguais. Temos que devolver nas mesmas condições, senão somos incompetentes. Tentamos e reproduzimos isso com os clubes. De ter em algum momento que não traga prejuízo para a seleção o equilíbrio técnico de não tirar atletas de uma equipe e beneficiar outra. Em outros momentos aconteceu de ter um atleta, tirar dois do Grêmio e nenhum do Internacional? Vamos estabelecer um ponto de equilíbrio. A prioridade é a seleção, mas me permite isso? Respeito e equilíbrio técnico: procuro.

ESPN - Se fala muito da convocação do Rodrigo Caio. O Rogério Ceni (técnico do São Paulo) se mostrou incomodado, disse que não convocaria um atleta apenas pela honestidade. O Rodrigo Caio foi convocado por causa do episódio do Jô?
Tite -
Vou falar espeficicamente do Rodrigo Caio e da convocação do técnico da seleção. Foi a quarta convocação dele. Foi convocado outras três vezes. Na primeira, se machucou. A segunda, foi cm a Argentina e Peru. Por ser versátil, de conduta pessoal alta, podia ser volante e zagueiro, íamos enfrentar Messi, convoquei para essa função, Casemiro estava machucado. O Rodrigo é versátil e executa duas funções. Foi bem como zagueiro contra a Colômbia. Esses critérios em uma seleção são o essencial.

Tite desconversa sobre declaração de Ceni a respeito de convocação de Rodrigo Caio

ESPN - O Rogério também disse que você e o Rodrigo Caio são 'melhores que ele', pois ele admitiu que não avisaria sobre um cartão de um rival, no calor do jogo. Te dou a oportunidade se quiser comentar essa declaração dele.
Tite -
Tenho coisas muito mais importantes na vida que é a minha conduta e não fazer julgamento dos outros, não falar o que disse, o que deixou de dizer. Tenho muita coisa mais importante para o meu trabalho e a seleção brasileira.

ESPN - Aproveitando que estamos falando de São Paulo, o Lugano disse no fim do ano passado que você é um 'encantador de serpentes, que deixou todos da imprensa adormecidos'. Como não vi você responder sobre isso ainda, quer comentar a respeito?
Tite -
Quem tem que comentar são vocês. Deixo para vocês (risos)

ESPN - No Corinthians, você chegou e sofreu pressão após a derrota para o Tolima, que foi a sua primeira na segunda passagem. Mas o Corinthians apostou em você, e hoje você está aqui, talvez não chegasse tão cedo à seleção se não fosse isso. Mas apostaram em você. Recentemente, o Palmeiras demitiu o Eduardo Baptista depois de menos de quatro meses de trabalho. Diante disso, você acha que falta isso aos times brasileiros? Apostar mais em um trabalho, como foi feito com você no passado?
Tite -
Sim. Em termos gerais, você pegou dois termos para ilustrar essa ideia. Nós precisamos de uma legislação melhor. A Lei Caio Júnior é uma necessidade à classe e é um bem para o futebol, pois traz ferramentas que conduz os diretores a pensarem uma, duas, três, quatro, cinco. Executivos estatutátios. Que ideia de futebol tu busca, que tipo de perfil profissional tu busca, que atleta tu quer, e aí seleciona para que tenha uma condição melhor. A partir do momento você tem uma equipe do trabalho que pode se redirecionar. Foi uma direção toda, um grupo de funcionários. Foi assim no Grêmio, Internacional, Corinthians, faça uma, duas, três reuniões, foi assim em todos os clubes que passei, estive perto de cair, e quando houve uma sustentação importante, o trabalho se redirecionou. Precisamos de uma estabilidade maior para que o trabalho tenha início, meio e fim.

De 'fico' pós-Tolima à saída de Eduardo Baptista do Palmeiras, Tite defende o melhor para os técnicos

ESPN - Você tem algum tipo de gratidão com o Andrés Sanchez por causa desse episódio?
Tite - Dívida, não. Gratidão, sim. Lealdade se dá nesse aspecto. Quando se trabalha junto, faça o melhor possível. Quando fui despedido de alguns clubes, o meu preparador de goleiros disse que sairia pois seria solidário. Não, isso não é solidariedade, solidariedade é fazer o melhor trabalho possível quando se está junto, e não fazer média.

ESPN - E com o Corinthians, se vê em dívida por ter interrompido o trabalho? Pensa em voltar para mais 58 jogos e ser o técnico que mais dirigiu o clube?
Tite - Eu aprendi que futebol não dá para se pensar em longo prazo. Nunca imaginei ter voltado ao Corinthians. Tenho gratidão ao Roberto, ao Andrés, ao Citadini, ao Mário Gobbi, peguei só os presidentes que me ajudaram e proporcionaram essas condições, assim como no Grêmio e Internacional. Isso tudo a gente procura. Mas aí dizer que ficou com dúvida, vou voltar lá e tal, mas amigo que não aceita não de amigo é uma relação de troca de interesses, não de amizade.

ESPN - Em 2014, graças ao seu trabalho no Corinthians, todos pediam por você na seleção. Mas acabou não sendo. Hoje que você está há um ano aqui, acha que existia algum tipo de resistência da CBF com você?
Tite -
Em 2014, era o presidente anterior. As ideias anteriores. Um profissional seguindo seu trabalho. E tenho uma coisa que me orgulha muito. Tem uma frase que acho muito legal. Quer falar mal de mim? Me convida. Sei coisas horríveis a meu respeito (Risos). Clarice Lispector falou isso. E é verdade. A gente sabe nossas ações. Mas tento ser o mais correto possível em minhas ações. Esse é meu norte.

ESPN - Teve algum momento aqui dentro que você realmente viu que confiavam no seu trabalho?
Tite -
Eu só me lembro no primeiro jogo, contra o Equador, a tensão muito grande, uma expectativa, e pensava comigo mesmo, tinha que dar um jeito de organizar a equipe, que mentalmente estejam equilibrados, e pensava comigo mesmo que se perdesse estávamos ferrados. Os atletas me olhando, os funcionários, confiança só se estabelece com o tempo. Precisa de tempo juntos para confiar, nossos comportamentos e ações nos dão confiança, e precisava acelerar esse processo, a margem de erro é pequena, a tensão daquele jogo, a tensão do intervalo, e da preparação da equipe, os atletas me olhavam como pedindo para eu falar algo para produzirem bem e ter resultado. É gratificante ser técnico da seleção, extraordinário, mas ao mesmo tempo traz uma pressão. É uma pressão muito forte. Um grande prazer, mas uma pressão da mesma forma. Esse momento foi crucial.

ESPN - Lembrando do manifesto que você assinou seis meses antes de assumir a seleção que pedia a saída do Marco Polo. Você já comentou sobre isso antes, que assumiu para fazer seu trabalho de técnico, com transparência e ética. Mas a minha pergunta aqui é outra: hoje, após um ano de convívio com o Marco Polo, você se arrepende de ter assinado?
Tite -
Todas as manifestações assinadas estavam explícitas ali de transparência, excelência e democratização, para abrir que as pessoas possam conhecer o trabalho do técnico e outros setores, que faço e continua igual, eu e Marco Polo falamos isso desde o primeiro dia. Quando conversamos, tive uma posição, ele respeitou, vou ter autonomia na seleção, e vocês fazem análise do quanto outros setores da entidade procuram cada vez mais se abrir e ser transparentes, democráticos e ter lisura. Todas as situações da seleção procuramos tanto quanto possível se é esse norte, tanto é que estamos conversando a esse respeito aqui na sala da CBF.

Tite fala sobre ter assinado manifesto pela saída de Del Nero 6 meses antes de assumir a seleção

ESPN - A CBF tem um ex-presidente detido, tem uma série de acusações contra o presidente atual, e você tem uma imagem de íntegro, honesto, vencedor. Com tudo isso, você acha que desde que chegou, pelo seu trabalho e honestidade, agregou um valor melhor à imagem e credibilidade da CBF?
Tite -
Não sei. Mas sou um cara que deixo bem claro às pessoas que não faço isso por 8 ou 9 jogos na seleção. Tenho uma série de defeitos e quero externar aqui. Eu errei no Veranópolis em pedir para um atleta cair e nós sairmos de campo por um número menor de atletas. Por me arrepender depois. Eu fiz. Me arrependo do que fiz. Aprender com os erros, humanamente, e se direcionar pelo caminho correto. Negociei com o Atlético-MG sem saber que o Procópio era o técnico. Se informa! Pedi desculpas a ele. Tenho um monte de defeitos que as pessoas não olham.

ESPN - No seu livro, escrito pela jornalista Camila Mattoso (ex-ESPN), que ficou muito tempo entre os mais vendidos, ou seja, muita gente leu, tem uma passagem lá em que seu irmão fala de procuras antigas da CBF e que ele achava que você não aceitaria trabalhar na CBF com as pessoas que estavam lá. Depois, ele reafirmou isso em uma entrevista, dois meses antes de você assumir a seleção, que você só iria à CBF se tivesse uma "limpeza geral" na diretoria, com esses termos. Minha pergunta é: o que mudou nesse Tite de um ano e meio mencionado pelo irmão que não trabalharia com as pessoas da CBF para o Tite de hoje, há um ano na seleção?
Tite -
O livro da Camila eu digo que ela teve muito respeito por colocar diferentes enfoques em cima de uma mesma situação. Ela teve esse cuidado, independentemente de que alguns posicionamentos eu divirja. Alguns ditos por mim são verdadeiros, mas outras, inclusive de um cara que eu amo que é meu irmão, deixo para os outros responderem. Aquilo que penso de seleção, de trazer profissionais íntegros, construir uma seleção que possa estar fortalecida, porque ali há uma série de atribuições de acompanhamentos de atletas, isso implantamos, e esse é meu papel. Minha contribuição para o futebol é em função da equipe jogar bem e vencer jogos. Isso é o que foi colocado e isso que fazemos.

ESPN - Você sempre disse que um trabalho deve durar três anos, três anos e meio. Na Copa da Rússia, você terá dois anos na seleção. Se ficar até o Catar, completará seis. Como resolver isso?
Tite -
Está vendo como eu erro para caramba? Não tenho nada que falar de tempo. Por isso eu não falo de tempo (risos). Quando fala de tempo, limita possibilidades. Ser técnico da seleção brasileira fascina. Mas tenho os pés no chão. Só vamos ter uma real da sequência de um trabalho quando chegar em 2018 e olhar qual o trabalho feito, olhar para trás, aí podemos responder. Errado eu em falar em tempo, tanto para menos quanto para mais.

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