Suborno, prisões e morte trágica: como rival do United montou escândalo que a Inglaterra não esquece há 33 anos

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br
ROBERT VANDEN BRUGGE/AFP/Getty Images
Anderlecht Nottingham Forest Copa da Uefa 25/04/1984
Lance de Anderlech 3 x 0 Nottingham Forest: árbitro espanhol (dir) aceitou propina de 18 mil libras

Nesta quinta-feira, o Manchester United enfrenta o Anderlecht, da Bélgica, às 16h05 (de Brasília), pelas quartas da Liga Europa, com transmissão da ESPN Brasil e do WatchESPN. E o clima entre torcedores deve ser tenso, já que a equipe de Bruxelas é odiada na Inglaterra por causa de um escândalo ocorrido há 33 anos - e que até hoje não esquecido.

Em 1984, o Anderlecht recebeu o Nottingham Forest, então um dos grandes times da Grã-Bretanha (tendo conquistado o Campeonato Inglês em 1977/78 e duas vezes a Champions League em 1978/79 e 1979/80 sob o comando do lendário técnico Brian Clough), em situação muito difícil pela semifinal da Copa da Uefa. Depois de terem perdido por 2 a 0 na ida, os belgas precisavam de um "milagre".

No entanto, preferiram apelar para algo muito mais "mundano"...

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Emilio Guruceta Muro Arbitro Borussia Monchengladbach Eintracht Frankfurt Copa da Uefa 07/05/1980
O árbitro espanhol Emilio Guruceta Muro

Na surdina, o então presidente do time violeta, Constant Vanden Stock, entrou em contato com um gângster local e suburnou o árbitro do confronto, o espanhol Emilio Guruceta Muro, com 18 mil libras (R$ 70.779,60, na cotação atual).

O juiz aceitou e "fez" o resultado da partida. O que se viu naquele 25 de abril de 1984 foi uma das arbitragens mais escandalosas da história do futebol mundial.

Com diversas decisões polêmicas de Guruceta Muro, o Anderlecht fez 3 a 0 e foi à final, na qual acabaria derrotado nos pênaltis pelo Tottenham, também da Inglaterra.

Em reportagem do jornal The Guardian, diversos envolvidos lembraram aquele jogo.

  • 'Aquele cara de novo'

Um dos que melhor se lembra do Anderlecht 3 x 0 Nottingham Forest é o ex-zagueiro Paul Hart, hoje com 63 anos. Ele chamou o duelo de "um roubo descarado", mas disse que, apesar da certeza de terem sido trapaceados, preferiram à época não falar da arbitragem.

"Não criamos caso. Uma das características dos times de Brian Clough é que eles eram ensinados a nunca reclamar dos árbitros. Então, perdemos, fomos para o avião e voltamos para casa. Tínhamos um jogo importante contra o Stoke City e preferimos seguir a nossa vida", disse Hart - o próprio Clough jamais mencionou o jogo em suas autobiografias.

O ex-jogador também lembrou que ficou com uma impressão ruim logo de cara ao avistar o árbitro Emilio Guruceta Muro em Bruxelas, já que o juiz já havia prejudicado o Forest.

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"Quando chegamos para jogar contra o Anderlecht, lembro de dizer para Kenny Swain: 'Tomara que o árbitro de hoje não seja o mesmo cara que apitou nosso jogo contra o Leeds há uns dois anos'. Esse juiz tinha expulsado dois jogadores nossos por nenhum motivo! Então, nós entramos no túnel do estádio e lá estava ele. O mesmo cara...", contou.

Quando a partida começou, o Anderlecht abriu o placar logo aos 18 minutos com um gol do meio-campista Enzo Scifo, craque da seleção belga. O Forest, porém, colocou os nervos no lugar e controlou o duelo até os 15 minutos do segundo tempo, quando Guruceta Muro marcou um pênalti absurdo de Kenny Swain em cima de Kenneth Brylle.

"O Kenny devia estar a uns três metros de distância! Foi um mergulho ridículo (de Brylle). Foi ridículo, Kenny estava há um quilômetro de distância do lance. Fora que o cara deles estava impedido", disparou Hart, ainda revoltado depois de três décadas.

O próprio Brylle bateu e converteu: 2 a 0, com mais 30 minutos para jogar.

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Brian Clough Tecnico Nottingham Forest 01/08/1986
Brian Clough, o lendário técnico multicampeão do Nottingham Forest

O ex-atacante Garry Birtles, hoje com 60 anos, é outro que recorda cada lance daquele fatídico dia. Ele confessa ter visto uma movimentação estranha antes da partida.

"A porta do nosso vestiário estava aberta, e a do vestiário dos árbitros também. Eu consegui ver dirigentes do Anderlecht saindo e entrando várias vezes", rememorou.

Aos 43 do segundo tempo, Vandenbergh fez 3 a 0 para o time de Bruxelas.

Só que, nos acréscimos, o Nottingham Forest teve um escanteio. A cobrança veio e Paul Hart subiu bem, cabeceou e marcou. Era o gol da classificação dos ingleses. Era...

"Cabeceei de maneira perfeita, uma jogada totalmente limpa. A bola passou por cima de Ian Bowyer e foi para as redes. A gente estava na final! O goleiro já estava xingando os zagueiros do time dele quando um apito começou a soar. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Perguntei a Ian: 'Você estava impedido? Você fez falta em alguém?', e ele respondeu: 'Não seja louco, não fiz nada!'. Mas o árbitro anulou nosso gol", recordou.

O tento anulado do Forest acabaria sendo a decisão mais absurda do juiz na partida.

"Não houve nenhum contato entre os jogadores, de forma alguma. Depois que o juiz anulou o gol, ficamos olhando um para o outro e pensando: 'Que diabos está acontecendo aqui?'. Foi vergonhoso. O pensamento natural era que todos achassem que se tratava apenas de um árbitro ruim, mas a gente sabia que tinha sido trapaceado", disse Birtles.

O jornalista John Wragg era outro que estava em Bruxelas naquela partida, cobrindo a partida para o jornal Daily Express. Ele recorda as reações do técnico Brian Clough.

"Clough estava particularmente bravo naquele dia em sua área técnica, o que era pouco usual para ele. Ele corria, pulava, gritava... Obviamente sabia que algo estava errado. Depois do jogo, Clough veio aos jornalistas ingleses, nos cumprimentou um por um e disse: 'É... Vocês sabem que nós fomos trapaceados aqui, né?", relatou Wragg.

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Nottingham Forest - campeão inglês em 1978
Nottingham Forest foi uma potência inglesa nos anos 70 e 80

O lendário meia Ian Bowyer, inclusive, revelou que o árbitro se recusou até mesmo a cumprimentar os atletas do Forest após o jogo, deixando o crime ainda mais evidente.

"O árbitro se recusou a nos dar a mão. Ficamos muito bravos, mas Clough entrou no campo e nos disse que o árbitro estava comprado, e que a gente deveria dar o fora dali antes que as coisas piorassem", contou o dono de oito títulos pelo Nottingham.

Garry Birtles hoje trabalha como comentarista de TV, e, vez ou outra, tem que voltar ao estádio do Anderlecht para trabalhar nas partidas. A sensação é péssima, ele afirma.

"Toda vez me dá um nó na garganta..."

  • O que aconteceu com o Anderlecht?

Após muitos anos na obscuridade, o caso de suborno veio à tona apenas em 1997.

Tudo começou depois que duas pessoas que haviam gravado secretamente as conversas entre o presidente do Anderlecht e o árbitro espanhol no vestiário do Constant Vanden Stock. Para a situação não ficar ainda pior, o próprio clube belga admitiu a trapaça na semi de 1984, e acabou suspenso pela Uefa de competições europeias por uma temporada.

Dursun Aydemir/AnadoluAgency/GettyImages
Anderlecht Posado APOEL Liga Europa 16/03/2017
Anderlecht foi suspenso por um ano de competições europeias após admitir caso de suborno

No entanto, em setembro do ano passado, uma investigação da BBC mostrou que a Uefa (União das Federações Europeias de Futebol) teve conhecimento da propina recebida por Emilio Guruceta Muro ainda em 1992, mas preferiu acobertar o triste caso.

Documentos mostram, inclusive, que a organização sabia até o nome do gângster contratado por Constant Vanden Stock para subornar o árbitro (Jean Elst) e que as negociações para fazer o arranjo da partida aconteceram em Alicante, na Espanha.

Os papéis foram enviados à Federação Belga de Futebol por Rene Van Aaken, justamente o homem que tentou chantagear o Anderlecht para não divulgar as gravações secretas.

A Federação Belga, por sua vez, disse que não tinha autoridade para investigar acusações de corrupção em competições internacionais, e preferiu enviar os documentos à Uefa, que organizava a competição pela qual Anderlecht e Nottingham se enfrentaram. A entidade sediada na Suíça, por sua vez, preferiu deixar tudo cair no esquecimento, e jamais admitiu que sabia do caso cinco anos antes do próprio Anderlecht admití-lo.

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Estadio Constant Vanden Stock Anderlecht 13/12/1999
Estádio do Anderlecht ainda tem o nome do presidente Constant Vanden Stock

Questionada pela BBC sobre isso, a Uefa se recusou a dar uma resposta.

No fim das contas, Jean Elst e Rene Van Aaken foram presos. Elst morreu na cadeia, enquanto os advogados de Van Aaken conseguiram liberá-lo alguns anos depois.

Constant Vanden Stock morreu em abril de 2008, com a eterna mancha de ter admitido comprar o árbitro da semifinal da Copa da Uefa. Atualmente, o estádio do clube violeta ainda leva seu nome. Hoje, o time é presidido por Roger Vanden Stock, seu filho.

As imagens do gol anulado do Forest sumiram durante muitos anos.

Hoje, podem ser vistas no YouTube, para revolta dos fãs do futebol limpo.

  • 'Meu pai foi um exemplo'

Guruceta Muro, o árbitro que se vendeu por 18 mil libras, morreu de maneira trágica em um acidente de carro, em 1987 (três anos depois do jogo). Ele tinha apenas 45 anos.

Na ocasião, ele viajava de volta de um jogo entre Osasuna e Real Madrid. Na tragédia, morreu ainda o bandeirinha Eduardo Vidal Torres, enquanto o outro auxiliar que completava o trio, Antonio Coves, ficou ferido com gravidade, mas sobreviveu.

A carreira de Guruceta Muro foi marcada por muitos elogios por seu ótimo preparo físico. "Ele era um atleta. Acabou com a imagem do árbitro barrigudo e mal preparado daqueles tempos. Corria mais que os jogadores e fazia exercícios diariamente", descreveu Alberto Candela, um de seus melhores amigos, em entrevista a um jornal espanhol.

Sua trajetória no futebol, porém, teve muitas polêmicas além do Anderlecht x Nottingham Forest de 1984. Em 1970, por exemplo, ele "acabou" com um Real Madrid x Barça.

Aconteceu no Camp Nou, onde os eternos rivais se enfrentavam pela Copa do Generalíssimo (antigo nome da Copa do Rei, quando o general Francisco Franco era ditador da Espanha). A partida estava 1 a 0 para os catalães quando o árbitro marcou pênalti de Rifé em cima de Velázquez, sendo que a falta aconteceu um metro fora da área. Os merengues, que haviam vencido por 2 a 0 na ida, aproveitaram e empataram.

Revoltados, os torcedores invadiram o gramado perto do final da partida para "acertar as contas" com o juiz, e a polícia teve que intervir para salvá-lo. O jogo acabou aos 40 minutos do segundo tempo, com o Real Madrid avançando para as semifinais (os blancos acabariam conquistando o título em cima do Valencia), enquanto Guruceta Muro teve que se fantasiar de policial para conseguir ir embora do Camp Nou sem apanhar.

Apesar das polêmicas, quem conheceu o famoso árbitro espanhol o tem em grande estima. Foi o caso, por exemplo, de seu filho, Gabriel, que tinha apenas cinco anos quando o pai morreu. Em entrevista ao Diário Información, ele considerou Muro "um exemplo".

"Sei que meu pai contribuiu para mudar a abitragem na Espanha e transformá-la em algo melhor. Eu o tenho como ídolo, e me orgulho de seu trabalho", afirmou Gabriel, que não tem qualquer ligação com futebol: trabalha com telefonia em Alicante, na Espanha.

O filho de Guruceta Muro também não engole até hoje o caso do Anderlecht.

"Lançar acusações contra meu pai falecido foi muito feio. Ele não podia se defender, e eu também era muito jovem para defenderu seu nome. Todos os que o conheceram disseram que era um homem íntegro", salientou Gabriel Guruceta, antes de finalizar.

"Eu não tenho nenhuma dúvida de que ele era honesto".

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