Herói da Chape trabalhou em lixão e comeu pão mofado antes de brilhar no futebol

Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Getty
Luiz Otávio comemora gol da Chapecoense contra o Atlético Nacional
Luiz Otávio fez o gol da vitória da Chapecoense contra o Atlético Nacional

Autor do gol da vitória da Chapecoense por 2 a 1 sobre o Atlético Nacional-COL na primeira partida da final da Recopa Sul-Americana, na última quarta-feira, Luiz Otávio não tem uma trajetória nada comum. 

Antes do zagueiro desembarcar na Arena Condá, ele precisou vencer a pobreza, o abandono e trabalhou em um lixão para ajudar no sustento de casa.

Vivendo o melhor momento da carreira, o defensor de 24 anos conta sua trajetória.

Veja o depoimento de Luiz Otávio da Silva Santos, zagueiro da Chapecoense:

Ouça o discurso dos sobreviventes da tragédia da Chapecoense antes do jogo contra o Atlético Nacional

Eu sou de uma família humilde da Baixada Fluminense e tenho mais 10 irmãos. Desde garoto tinha o sonho de ser jogador de futebol. Fiz testes em vários clubes como Audax-RJ e Artsul-RJ, mas não tive sucesso. Fui aprovado em uma peneira no Fluminense e fiquei três meses nas categorias de base antes de ser dispensado.

Por isso, quando tinha 17 anos fui tentar a sorte no Ferroviário-CE por incentivo de um empresário. Eu estava hospedado em uma pousada em Fortaleza que ele tinha arrumado. Um dia, o empresário me disse que iria a São Paulo e voltaria algum tempo depois. Mentira. Ele me abandonou na pousada e ainda deixou uma dívida de R$ 4 mil reais.

Os donos foram me procurar no clube para saber sobre o empresário. Para piorar, com o sumiço deste empresário e a demissão de um diretor conhecido dele, eu acabei dispensado pelo clube.

Eu não sabia o que fazer, estava sem um real no bolso e não tinha cartão de crédito. Não tinha para onde ir ou como voltar para minha casa. Só me restava trabalhar nessa pousada para poder ter onde dormir e o que comer.

Divulgação
Zagueiro passará longe dos gramados por mais de um mês
Luiz se destacou no Luverdense

Durante os quatro meses seguintes eu arrumava quartos, limpava piscinas e atendia a portaria do estabelecimento. De vez em quando eles me compravam um marmitex, mas na maioria das vezes eu comia os restos da pousada, incluindo pão mofado. Eu tirava o mofo com a faca e comia.

Até que um dia apareceu um hóspede virou um anjo na minha vida: um senhor gaúcho de uns 60 anos que trabalhava como tatuador. Ele estava viajando pelo Brasil e durante uma conversa me perguntou: ‘O que você faz por aqui, sendo que é do Rio?'. Eu contei toda minha história e ele acabou se comovendo.

Ele me deu R$ 300 para comprar a passagem de volta para minha casa e ainda fez uma tatuagem de graça. Nunca mais o vi depois, mas o gesto dele mudou a minha vida. Queria um dia poder reencontrá-lo e poder agradecer.

Consegui comprar uma passagem de avião para o Rio que sairia em duas semanas. Tive que usar o cartão de crédito dos donos da pousada e fiquei trabalhando até o dia de ir embora.

De volta ao Rio, eu fui para o São Cristóvão e cheguei a ser o capitão da equipe de Juniores. Depois, fui ao Bangu e me profissionalizei na equipe principal. Cheguei a jogar até mesmo a jogar de centroavante com o técnico Cleimar Rocha. Em 2013, fui emprestado ao Bonsucesso e subimos para Série A do Carioca. No ano seguinte, conseguimos manter o time na elite.

Técnico do Atlético Nacional destaca jogo especial e parabeniza Chape: 'Armaram time competitivo'

Foi então que passei por outro tombo na vida. Tive uma proposta do Luverdense depois do Estadual, mas o time não queria me liberar. Eu estava com salários atrasados e entrei na justiça para me liberar do clube.

Como estava impedido de jogar por causa do processo, eu precisei me virar. Já estava casado e precisava ajudar a sustentar minha família. Um amigo meu arrumou um terreno e trabalhávamos em um lixão separando material reciclável para vender. Era muito duro e a grana mal dava para sustentar minha família, mas eu recebi muita força da minha esposa Jeanne.

Ela me ajudou com as despesas de casa e foi um dos principais pilares nesses oito meses que passei sem jogar futebol. Eu a conhecia há muito tempo porque somos vizinhos de bairro. Quando fomos morar juntos, ela tinha um garoto pequeno que considero meu filho. Agora, ela está grávida e serei pai outra vez.

Quando consegui a liberação na justiça assinei com o Luverdense em 2015 e tudo mudou. Fiz ótimas temporadas, fui campeão estadual e joguei a Série B do Campeonato Brasileiro.

No começo deste ano eu fui contratado pela Chapecoense. Cheguei a um clube que tinha passado por uma tragédia e queria muito ajudar na reconstrução. Isso me motivou ainda mais. É a maior chance da minha carreira e não posso desperdiçar.

Sabia que o jogo contra o Atlético Nacional seria especial. Durante a semana tentamos esquecer tudo ao nosso redor e nos focarmos somente no jogo. Até por isso não demos entrevistas. Mesmo assim, sentíamos que tinha um clima diferente no ar por tudo que aconteceu. As homenagens, as presenças do Neto, Alan e Follmann nos deram um gás a mais.

Vamos Chape! Com muita emoção, Chapecoense e Atlético Nacional se enfrentaram; veja

Respeitamos e admiramos muito os caras do Atlético, mas dentro de campo somos profissionais e precisamos lutar até o fim. O estádio estava lotado e queríamos muito dar essa vitória para a torcida e o povo de Chapecó.

Eu entrei durante o jogo e estava muito preparado. Quando fiz o gol foi uma emoção gigantesca, passa tudo na sua cabeça naquele momento. Foi o gol mais importante da minha carreira e espero que a gente consiga trazer esse título da Recopa para o Brasil.

Estou muito feliz na Chape e sonho com voos ainda maiores na carreira.

Comentários

Herói da Chape trabalhou em lixão e comeu pão mofado antes de brilhar no futebol

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.