A história não-contada da força que impulsionou Russell Westbrook ao feito histórico na NBA

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Um homem à parte

 

Tudo o que Russell Westbrook precisava para fazer história era ficar sozinho. Esta é a história não-contada de como ele encontrou seu impulso para isso.


A reportagem faz parte da "ESPN The Magazine", veiculada em 27 de março de 2017.

VOCÊ ESTÁ SOZINHO, homenzinho, e está começando a pensar que foi um erro embarcar nesse avião. Desde que você saiu da aeronave, as pessoas têm feito perguntas carregadas de expressões: Como você chegou aqui? Quem te disse para vir?

Você é um jovem magrelo de 16 anos viajando sozinho pela primeira vez e voou 3,5 mil km de Los Angeles a Atlanta para um acampamento de basquete, apenas para ser informado que ninguém sabe quem você é. O motorista que dirige o transfer do aeroporto para o hotel não encontra seu nome na lista de jogadores, então você fica no meio-fio segurando sua mala e sua confusão, decidindo o que fazer em seguida.

Você tem o endereço do hotel em um pedaço de papel e dinheiro suficiente para pegar um táxi, e você está determinado a acertar as coisas.

Este acampamento é um dos maiores para jogadores do ensino médio, patrocinado por uma empresa de calçados. Você está aqui por que o seu treinador fez uma ligação, e ele acreditou em você o suficiente para convencer alguém importante - alguém que você, agora, está colocando dúvidas se realmente existe -, que você pertence a esse lugar ao lado dos melhores jogadores do ensino médio no país. 

HISTÓRICO! Do primeiro ao último jogo, a trajetória do recorde absurdo de Russell Westbrook

Você sai do táxi e caminha até a mesa de check-in do acampamento no hotel, tentando parecer que você pertence àquele lugar, tentando ignorar o zumbido em sua cabeça que diz que você pode, pode muito, estar errado. "Westbrook", você diz. Uma senhora passa o dedo pelas listas de nomes, folheia os papéis com um olhar preocupado e depois volta para o topo. Ela pergunta novamente, e você tenta manter a esperança dizendo: "Westbrook - sempre no final”. Você está tentando ser legal, mesmo quando ela se encolhe. “Querido, sinto muito, você não está na lista.” 


Você pede a ela que, por favor, verifique mais uma vez. Ela olha para você com bondade, vendo seus olhos se alargarem em pânico, e dá de ombros.

Você pega o telefone. "Treinador, não estou na lista". De volta a Los Angeles, Reggie Morris Jr. não parece tão surpreso. "Sente-se e espere", diz ele. “Vou descobrir.”

E então você se senta. E espera, incerto de que seus pés tamanho 47 são grandes demais para os seus quase - e pequenos - 1,90m, agora, derramados em nervosismo. As horas passam. Só você e sua mala. Você vê os outros jogadores - que todo mundo aqui sabe quem são apenas olhando para eles - deixarem seus quartos e passarem pelo lobby no caminho para o ginásio.

É como se todos esses outros caras fossem uma espécie diferente. Do lugar onde você está sentado, dá até para sentir o cheiro do direito que todos eles têm em estar ali. Eles têm caixas de cartas de todos os melhores programas de recrutamento. Eles trocam sorrisos e cumprimentos amigáveis com todos os treinadores e caminham presunçosos para o ginásio. Eles estão na primeira lista dos representantes da empresa de calçados, cujo objetivo é bajular ao máximo os jovens de 16 e 17 anos para que, algum dia, eles assinem um belo contrato para usar o logotipo certo.

Você? Você tem cartas em sua casa também. Você pode contá-las em uma mão.

Aqui, vale um segredo sujo: você está a alguns meses de completar seu 17º aniversário, está quase se tornando sénior na high school, e você não consegue enterrar. Por outro lado, você está chegando lá, você pode sentir isso. Os exercícios com seu pai, Russell Westbrook Jr., a quem ele chama carinhosamente de "Pops" – correndo nas dunas da praia, arremessando no Jesse Owens Park perto de sua casa, em Lawndale –, te colocaram mais perto do aro. As horas passadas arremessando o que Pops chama de “tiro de algodão” (“cotton shot”), um “pull-up jumper delicado” – arremesso em que você para repentinamente, planta os pés no chão e sobe para soltar a bola – que aparece surpreendentemente ao fim de uma aceleração total, lhe deram um ataque poderoso contra qualquer pessoa maior e mais forte.

Quatro horas depois, alguém do acampamento anda em sua direção, com um sorriso no rosto. "Tudo certo", ele diz, entregando uma camisa e um par de shorts. A camisa vai até os seus joelhos, a largura dos braços é suficiente para encaixar as suas pernas, e os shorts se parecem com paraquedas quando você corre. Você os segura à sua frente. "Desculpe, isso é tudo o que restou", diz o cara.

E então você fica no ginásio até tarde, franzino, desconhecido, com o mantra de Pops correndo pela sua cabeça: “Seu único amigo em quadra é a bola”. Você pôs todas as suas ansiedades e suas dúvidas em uma bola e ficará com ela em quadra até que alguns desses homens importantes de ternos, incapazes de encontrá-lo na lista de acampamento, sintam-se compelidos a perguntar quem você é. Não é o talento que eles estão vendo, mas o desejo e a quantidade de espaço que você consegue ocupar com esse seu corpo de 68kg.

Os olhares em seus rostos indicam algo que você já viu antes, e algo que você verá novamente: eles não têm ideia do que fazer com você.

 

Talento no boliche e primeira enterrada; Russell Westbrook em 24 segundos

A TAREFA DE DESCREVER o jogo de Russell Westbrook nesta temporada, sua nona na NBA, é um desafio facilmente aceito, mas raramente concluído. Seu estilo é retratado como nervoso, ou vingativo, ou enfurecido, ou feroz, mas quando pergunto a ele se sente todas essas emoções primitivas quando está jogando, ele diz: "Não, eu me sinto bem."

É uma frase engraçada, e ele a aceita com uma indiferença adequada. ”Eu me sinto bem”. Há uma pulseira de borracha em seu punho que expressa sua atitude em relação a quase tudo: Por que não? É o slogan transformado em koan transformado em marca registrada. Descreve sua seleção de arremessos, seu jeito destemido, sua maneira de se vestir. Então, sim, é claro que ele se sente bem. Mas ele não terminou a frase. Ele inclina a mandíbula, destacada por bigodes que emergem como ervas daninhas através do concreto, e diz: "Essa é sempre a percepção, que eu não tenho controle e que estou louco. Eu não sei por que as pessoas dizem isso. ‘Ele parece irritado, ele parece louco’. Não. Estou focado, estou preso ao que é importante, e as coisas extraterrestres não importam."

Esta primeira temporada pós-Kevin Durant, este interminável quadro de Jackson Pollock, referência no expressionismo abstrato, espirrando na quadra noite após a noite, tem sido uma contestação de limites e restrições. Westbrook, 28 anos, estava em uma média de 31,7 pontos na NBA, com 10,6 rebotes e 10,0 assistências até 6 de março, colocando-o em ritmo para se unir a Oscar Robertson como os únicos jogadores a conseguir um triplo-duplo de média em uma temporada. Mas os números menosprezam a experiência. Ao longo da história moderna da NBA, os triplos-duplos foram decorados, viraram objeto de desejo e, às vezes, trivializados - mas nunca antes foram normalizados. É sempre uma surpresa quando Westbrook NÃO consegue um triple-double.

"Acho que as pessoas não percebem o ponto", diz o gerente geral do Oklahoma City Thunder, Sam Presti. "O que me impressiona não são as realizações estatísticas. O que ele está fazendo é mais uma façanha de fortaleza e resistência mental." 

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Westbrook é uma aberração estatística que consegue resistir à quantificação. Assistindo ao vivo e olhando para os números, ou mesmo os melhores momentos, é tão diferente como nadar no oceano e tomar um banho. Ele está jogando todos os dias como se confiasse em não estar ali amanhã. Ele pega rebotes como um ala de força, voa pela quadra com um flagrante desprezo por seu corpo e acelera para ultrapassar todos como uma Bugatti. Perguntado sobre o quão grande ele se sente na quadra, Westbrook, 1,91m e 90kg, diz: "Tão grande quanto eu preciso ser”. Tudo ao seu redor parece diminuir, como se esse homem de tamanho normal tivesse o poder de encolher o mundo ao seu redor.

A decisão de Durant de assinar com o Golden State Warriors no verão passado, depois de jogar ao lado de Westbrook por oito temporadas, desencadeou uma discussão altamente insatisfatória. Também, de maneira inesperada, concedeu a Westbrook uma medida de imunidade. Mesmo depois que ele assinou uma extensão de contrato por três anos com o Thunder em agosto, ninguém sabia o que esperar. Todo mundo tinha uma ideia, é claro: Westbrook, libertado da força eletromagnética de Durant, iria girar em sua própria órbita. Suas piores qualidades - controlar a bola, queimar arremessos no início da posse, forçar passes impossíveis a seus companheiros na tentativa de acumular assistências - despertaria o vovô cáustico em cada purista de basquete. Sim, ele conseguiria seus números, mas a equipe sofreria. Afinal, a história não tem sido gentil com as equipes que perdem um franchise player: depois de 61 vitórias, os Cavaliers viram LeBron James ir para o Miami Heat e, em 2010-11, somaram apenas 19 resultados positivos; o Heat venceu 37 depois de ganhar 54 na última temporada de LeBron na Flórida; o New Orleans venceu 46 na temporada final de Chris Paul com a equipe e só 21 na próxima.

Dada essa ladainha de fracasso, é tentador dizer que o Thunder, brincando com um outlet sob medida, se juntou a Westbrook fazendo algum tipo de história. Eles tinham 35 vitórias e 28 derrotas até 6 de março, e seria necessário um colapso maciço na reta final da temporada para que eles deixassem de se classificar para os playoffs da Conferência Oeste. Westbrook pegou uma equipe profundamente falha e moldou-a à sua vontade.

 

VOCÊ ESTÁ NO GINÁSIO, homenzinho, sentado no banco, sozinho, assistindo a um grupo de jogadores universitários e profissionais treinarem todos os dias da semana no Leuzinger High. Você está aqui por que o treinador Morris veio a você após o seu segundo ano com uma programação de treinos e uma mensagem: “Esses caras estão usando o ginásio, e eles poderiam precisar de um jogador extra.” 

Fora do ginásio, há todos os tipos de lixo, e é por isso que você não está lá dentro. Você e seu irmão ouvem tiros de vez em quando, e sirenes e helicópteros fazem parte da trilha sonora da South Central, mas você sabe o que e quem evitar. Pops trabalha no parque com você quando não está trabalhando na fábrica de pão, e sua mãe está lá sempre para falar sobre qualquer coisa, menos basquete. Na escola, você encontra seu grupo, dos caras que querem jogar bola e tirar boas notas, e ignora o resto.

O treinador Morris vê tudo isso e muito mais: o quanto isso significa para você; como você fala com seus companheiros de equipe quando eles estão atrasados para a aula; como você atravessa a rua de sua casa para ouvir os lamentos da avó de Khelcey Barrs depois que Khelcey, um de seus melhores amigos, morreu de cardiomegalia, uma hipertrofia do coração, depois de um jogo entre amigos no ano anterior.

No ginásio, você assiste Tony Bland, de volta para casa depois de uma temporada em uma liga profissional russa, liderar os exercícios de um grupo de jogadores profissionais e universitários. Eles só precisam de você de vez em quando, para ficar na defesa em disputas cinco-contra-cinco, mas, quando te chamam, você salta como um herói, disparando seu corpo magrelo para dentro da quadra. Eles tentam passar por cima de você, esses homens crescidos, e você melhora sua postura e usa todos os meios disponíveis para mantê-los longe da cesta. Eles acham que é engraçado, bonitinho, até, esse jeito que você se esforça tanto, mesmo estando claro que você não tem chance.

Um ano depois, você chega a 1,90m, e os caras voltam para o ginásio. Desta vez, estão encontrando problemas para fazer pontos diante de você. No início, eles fingem que estão de corpo mole, tentando ser legais, e então começam a falar a uns aos outros: 

Cara, Little Russ parou quatro vezes seguidas.

Quer dizer que você não conseguiu uma cesta em cima dele?


Pouco depois, eles te convidam para os treinos. Estes homens adultos, mesmo os profissionais, começam a tratá-lo como um deles.

Quatro anos mais tarde, você é o número 4 no Draft pelo Seattle Supersonics, Bland assume o cargo de assistente em San Diego State, e estará batendo palmas e gritando no escritório de basquete quando seu nome for anunciado. Quando todos os outros na sala falam que é uma escolha maluca, Bland se levanta e anuncia: "Eles não têm ideia do que estão recebendo."

Nessa hora, a imagem aparece em sua cabeça quando você ouve seu nome ser chamado não tem nada a ver com o jogador que você vai se tornar. É você sentado naquele banco, à espera de uma chance.

 

SEMPRE HÁ UM MOMENTO de Westbrook, uma sequência em todo jogo que não é apenas vista, mas sentida, o equivalente atlético de uma injeção na artéria. Ninguém vai se lembrar dessa, mas no fim do terceiro quarto de uma derrota elástica para os Clippers em Los Angeles, em 16 de janeiro, Westbrook desperdiça um contra-ataque dois-contra-um ao lançar a bola acima da cabeça de Victor Oladipo. Conforme a bola vai caindo na arquibancada, Austin Rivers levanta do banco dos Clippers e começa a aplaudir - e Westbrook repara. Ele sempre repara.

Os Clippers recomeçam o jogo com Raymond Felton, que inocentemente se vira para a quadra adversária para encontrar-se cara a cara com uma retribuição bíblica. Ele tenta um drible desajeitado, e Westbrook dá um tapa na bola, em direção a sua própria cesta, como se tivesse dando um passe para si mesmo. Ele “levanta voo” da ala direita com a fúria de quem está perdendo por 19 pontos, enterrando a bola com violência e voltando para a sua quadra com um quase imperceptível relance ao banco dos Clippers. Jogo perdido, ponto provado. “Essa vantagem está sempre com ele”, disse Maurice Cheeks, assistente do Thunder. “Talvez isso venha da infância, onde ele sempre foi o azarão, o sentimento que ele sempre teve que provar as coisas para si mesmo. Ele certamente chegou ao ponto de deixar isso para lá. É incrível que ele não deixou. Isso faz ele ser quem ele é.” 

Há alguns momentos, jogadas, lances, que podem passar despercebidos em tempo real, mas, no retrospecto, mostram a natureza incomum da genialidade de Westbrook. Na noite anterior ao jogo dos Clippers, Westbrook foi obrigado a marcar Rudy Gay, ala do Sacramento Kings, em uma troca na marcação. Ele está a 4,5m da cesta, preso na marcação de um homem 13cm maior e 15kg mais pesado. Quando os Kings começaram a perceber a vantagem, Westbrook entra na frente de Gay e intercepta o passe. É um feito de agilidade e rapidez, mas também um lampejo de uma incrível mente trabalhando. Se tivesse mantido a posição, Gay o teria afastado e arremessado - uma resolução para se esquecer, mas compreensível. Se Westbrook tivesse errado a interceptação, Gay teria batido bola e enterrado, e Westbrook pareceria um tolo. É um risco que ele - talvez mais do que qualquer outra pessoa no jogo - está disposto a correr.

Westbrook é um organizador compulsivo, com ordem e rotina florescentes. Ele traz uma pilha de contas e envelopes e joga tudo numa mesa no café da manhã. “Ele fica organizando e falando ‘US$ 35 por isso, US$ 45 por aquilo’”, disse Nick Collison, companheiro de Thunder. “Detalhes importam para ele”. Ele tem seu próprio chuveiro e sua própria mesa de massagem no centro de treinamento do time. Ele liga para seus pais antes de chegar à arena. Ele come sanduíche de manteiga de amendoim e geleia antes de todo jogo, e precisa ser fatiado precisamente na diagonal. Ele ora em voz alta no momento do hino nacional, no momento dos dois últimos versos. Após as apresentações e antes de a bola subir, ele corre para debaixo da cesta adversária e ergue os braços três vezes, com os dedões apontados para os seus ombros, como se tivesse dizendo “está tudo aqui”. No intervalo, ele passa esparadrapo nos tornozelos de novo, então troca de uniforme para o segundo tempo.

Igualmente, há uma precisão em seu jogo que é fácil de errar em meio ao caos. No dia 3 de fevereiro, o Thunder chegou para a partida contra Memphis com “fome” após perder por 28 pontos em casa para o Chicago Bulls, depois de jogar uma sequência que incluía 15 de 21 partidas fora de casa. Há um ar de perdição na Chesapeake Energy Arena, um senso de que ali é onde a diversão acaba e a temporada vira uma perseguição de estatísticas e a escolha mais alta de Draft. A falsa expectativa: Westbrook será ineficiente, roubando rebotes das mãos dos companheiros de um lado e indo no um-contra-cinco do outro. Ele estará motivado e feroz, encarnando todos os estereótipos de Westbrook.

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Ao invés disso, ele chuta apenas seis vezes no primeiro tempo. O Thunder teve 58% de aproveitamento e liderou por 10 pontos. “Essa é a antítese do que as pessoas pensam dele”, disse Presti. “Certamente arruinaria o mito das pessoas acharem que ele é inconstante o tempo todo.” 

O último quarto traz uma mudança, como convém ao jogador que está entre os líderes da NBA em quase todas as estatísticas no momento de definição das partidas. Ele marca 15 pontos seguidos nos 2min34s finais para tornar uma derrota por 102 a 99 em uma vitória do Thunder por 114 a 102. O triple-double (38 pontos, 13 rebotes, 12 assistências) parece quase sem querer. Os gritos de “MVP” obrigatórios também são altos, a arena sente como se tivesse se movendo, e Westbrook solta um grito que vem do fundo da alma e se desvencilha de seus companheiros ao sair da quadra. Se você não o conhece bem, poderia confundir alegria com raiva.

Para assistir Westbrook naquele momento - aproveitando a liberdade, aceitando a responsabilidade, absorvendo carinho - é chegar à conclusão: esse é um homem que conseguiu exatamente o que sempre quis.

 

VOCÊ SAI DA AULA e vai direto para o ginásio Leuzinger High, um pedaço de arquitetura brutal em meio a um vasto oceano de concreto. Como em qualquer outro dia, você pega um esfregão e passa no chão até tirar toda a sujeira que caiu do teto como confete desde o último treino do seu time. Mas, nesse dia, durante sua última temporada no colegial, você vira o esfregão de um lado da quadra e vê o técnico de UCLA Ben Howland parado na porta. Quando Jordan Farmar toma uma decisão tardia de entrar no Draft da NBA e Howland decide lhe oferecer uma bolsa de estudos, o esfregão é a primeira coisa que ele vai mencionar.

Desde o momento em que você chega no campus, você se sente inadequado. Você não fará 18 anos até novembro, então seus pais têm que assinar todos os documentos - papéis de bolsa, documentos médicos, formulários. Você passa quase uma temporada de calouro inteira no banco. Darren Collison e Arron Afflalo jogam na sua frente, e eles levam vantagem te massacrando nos treinos. Você não questiona se pode jogar nesse nível. Você questiona se a UCLA é o lugar onde você deveria estar provando isso. Você se cansa de ouvir sua autodescrição como sem medo, rebelde, como se você fosse um animal selvagem.

Você é titular uma vez como calouro, em West Virginia, e vai mal. Uma década depois, seus ex-técnicos falarão sobre esse jogo, sobre como você foi tão sobrecarregado - até para você! - que você ficará perdido nos muitos contos que fazem sua história original, uma vez que fica claro que seu estrelato demanda uma. O problema é que a história de West Virginia não é bem verdade. Você foi mal, acertou 1 de 11 arremessos, mas só teve três turnovers. Você vai crescer e entender as regras da mitologia: o quão pior você possa parecer, melhor você irá ser.

Depois da sua temporada de calouro, você faz um juramento para nunca mais ser reserva. Você passa o verão jogando “peladas” em UCLA com e contra jogadores da NBA como Kobe Bryant e Baron Davis, mas só depois que você passou várias horas na aula e malhou três vezes.

Na sua segunda temporada, você estabelece um recorde na UCLA de minutos jogados. Você fica conhecido por suas enterradas e sua capacidade de defender. A NBA começa a reparar. Você é uma escolha de fim de primeira rodada, eles dizem, e aí então as coisas começarão a ficar malucas. Você decide deixar a faculdade - “Deixar? Eu sinto como se tivesse acabado de chegar”, você disse na primeira vez que alguém sugeriu isso - e gradualmente vai evoluindo.

Os Sonics - prestes a se tornarem o Thunder - pedem um treino individual. Eles têm a quarta escolha. Nada disso parece real. Presti e alguns outros membros da comissão técnica viajam a Los Angeles. Eles estão sentados no estacionamento 30 minutos antes da atividade, perguntando onde você está. Você estava sentado no carro havia 45 minutos, não mais do que a 10m de distância, estudando para provas e se perguntando quando eles iriam abrir o ginásio.

Presti não tem tanta certeza da impressão que tem de você, mas em reunião após reunião ele repetirá a mesma frase: “Eu gosto da história desse garoto.”

 

O TÉCNICO DO THUNDER, Billy Donovan, ficou falando sobre Westbrook por 20 minutos após um treino recente, quando interrompe a si mesmo com uma pergunta: "Você sabe o que eu amo sobre Russ? Nunca estou pensativo à frente do vestiário da equipe antes de um jogo, falando comigo mesmo, 'Cara, eu realmente espero que Russ esteja pronto para jogar esta noite’. Posso assegurar a todos vocês que isso nunca aconteceu."

Para o observador, Westbrook é fascinante e enigmático. Às vezes, evasivo. No entanto, mesmo que ele saia derrotado, vai carregar dois elementos importantes e íntimos: você tentou o seu melhor, e você ganhou?

"Você tem que entender algo sobre Russell", disse o técnico de Idaho, Scott Garson, ex-assistente na Universidade da Califórnia. "Se Russell não estivesse recebendo os milhões que ele está sendo pago, ainda estaria jogando basquete. Ele estaria ‘matando caras’ em um jogo qualquer em um YMCA qualquer."

Cheeks imagina a cena: "Você poderia imaginar aparecendo em uma quadra para jogar e enfrentar um cara como esse?", perguntou. "Um instante na quadra, e qualquer um ia dizer: 'Uh-uh, estou fora daqui."

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A ideia de que Westbrook é capaz de jogar de qualquer maneira e em qualquer lugar é uma fonte frequente de piada dentro da organização Thunder. Ele é duas vezes MVP do All-Star Game e conseguiu isso principalmente por não parecer disposto a aceitar o conceito de “jogo de exibição”. A noite imaginária no YMCA acabaria, sem dúvida, com ele deixando a quadra, invicto, sem alarde, dando um aceno para qualquer outra pessoa no ginásio.

Talvez, ele seja o astro da NBA menos acompanhado e mais independente da liga. Ele restringe seu círculo de amizade aos seus pais, Russell Jr. e Shannon; sua esposa, Nina; e seu irmão, Ray. Ele não está interessado em distribuir pedaços de si mesmo com o único propósito de melhorar sua imagem, e ele mesmo reconhece que a percepção pública sofreu por causa disso, o que ficou flagrante em fevereiro, quando ele não foi eleito para o time titular do Oeste no All-Star Game.

"Isso acontece", ele disse. "Não me preocupa. Daqui 20 anos, alguém pode dizer: ‘Você não foi um titular’. Vou responder: 'Não importa. Isso não determina quem eu sou ou o que eu faço ou como eu joguei."

É uma resposta padrão, segura e não ameaçadora. Mas quando sugiro que Stephen Curry, que ganhou na votação popular de Westbrook, é “vendido” de forma diferente, Westbrook me interrompe. "100%", disse. "100%. É só pela maneira como eu jogo e o que eu faço. É apenas diferente."

Sua voz é um instrumento único, estridente e rápido. Por vezes, difícil de entender. "Eu realmente não sou parte do clube, mas está bom para mim", disse Westbrook. "Talvez eu tenha meu próprio clube. Merda, vou te dizer a verdade: estou bem com isso. Todo mundo pode ser parte do mesmo clube, e eu estarei no meu próprio clube."

 

VOCÊ ESTÁ DIANTE de uma verdadeira multidão e, de alguma forma, você ainda está sozinho. Desta vez, é em Sacramento, e os Kings e uma arena cheia de gente estão à sua espera, aguardando suas surpresas, mas esperando que você erre. Você dança a sua música, joga os braços três vezes para cima, dedões apontando para os seus ombros. De onde está, embaixo da cesta, você vê-los em torno do círculo central, nove jogadores, trocando cumprimentos, se abraçando. É o ritual deles, tocando espadas antes do duelo.

Você vê um antigo companheiro de UCLA se aproximar, dando alguns passos saltitantes em sua direção. Darren Collison, talvez mais do que ninguém, sabe que você não é de “fazer amizades” antes dos jogos, e mesmo assim, levanta a mão em sua direção.

Você dá uma meia volta rápida, um misto de reconhecimento e alerta:

Eu vejo você; mas não chegue mais perto.

Todos esses anos já se passaram, e eles ainda não sabem o que fazer com você. Você está honrando o compromisso, não necessariamente para os fãs ou para seus companheiros de equipe ou seus chefes. Eles são todos bem-vindos para o passeio, mas seu objetivo, sua obrigação, é competir. Competir é viver, e viver, agora, é provar tudo o que você ainda não provou, o que não comprovou. Cada jogo é uma chance para se destacar, e para ficar sozinho. Para o inferno com tudo o que ficou para trás.

Interrompido por gritos de 'MVP', Westbrook comemora recorde histórico: 'Nunca imaginei'

*Tim Keown é repórter sênior do "ESPN The Magazine" e colunista do ESPN.com. Tradução livre de Gustavo Faldon e Ricardo Zanei. O conteúdo original, em inglês, pode ser encontrado em "A Man Apart".

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