Jornalista se infiltra e mostra como são hooligans russos: racismo, homofobia, sem álcool e um bate em 12 ingleses

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Hooligans Russia Inglaterra Euro-2016 Briga 11/06/2017
Torcedor inglês tenta escapar de hooligan russo durante jogo da fase de grupos da Euro-2016

Uma das grandes preocupações da Fifa e das autoridades para a próxima Copa do Mundo são os famosos hooligans da Rússia, que prometeram fazer um "espetáculo" ainda maior do que o da Eurocopa de 2016, que terminou com várias prisões e deportações, muitos torcedores hospitalizados e dois fãs ingleses em coma após inúmeras brigas na França.

Em matéria investigativa, o jornal britânico Daily Mirror conversou com dois dos Ultras mais famosos do país-sede do próximo Mundial, que prometem "quebrar tudo" no ano que vem. A reportagem também mostrou curiosidades sobre os torcedores violentos, como a proibição do consumo de bebida alcoólica e suas táticas militares de conflito e treinamento.

Um dos entrevistados foi Alexey Mavryn, líder da "Uralmash Steel Monsters", um dos grupos mais violentos da Rússia. Ele relatou que esteve presente na "Batalha de Marselha", que foi o grande confronto entre hooligans russos e ingleses primeiro na zona turística da cidade, e mais tarde nas arquibancadas do Estádio Velodrome, onde as seleções se enfrentaram horas depois, com empate por 1 a 1 no placar.

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Hooligans Russia Provocam Ingleses Euro-2016 14/06/2016
Hooligans russos provocam torcedores ingleses durante a Euro-2016

"Aquele dia foi o auge da minha carreira como hooligan. Mostramos nosso poder contra os ingleses e vencemos a batalha. A coisa mais inteligente que eles fizeram foi correr", disse.

Outro que topou conversar com o Daily Mirror foi o presidente da "Landscrona", mais violenta uniformizada do Zenit, que preferiu não dar seu nome à reportagem.

"Se vocês acham que o que aconteceu na França foi feio, esperem a Copa da Rússia. No ano que vem, nós estaremos jogando em casa", ironizou o arruaceiro.

Durante a Eurocopa, o ESPN.com.br mostrou quem eram os principais grupos de hooligans que aterrorizaram a França no decorrer do torneio. Muitos foram presos e depois deportados pela polícia, mas, ao voltarem à Rússia, foram recebidos como heróis.

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Alexander Shprygin Desembarca Aeroporto Moscou Russia 18/06/2016
Alexander Shprygin chegou como herói à Rússia

Foi o caso, por exemplo, de Alexander Shprygin, presidente da Associação de Torcedores da Rússia. Após ser expulso do território francês, ele foi recebido no aeroporto de Moscou como enrolado em uma bandeira nacional, e ganhou até mesmo uma coletiva de imprensa.

O próprio presidente da Rússia, Vladimir Putin, tratou os casos de hooliganismo na Euro com ironia e bom-humor. Em entrevista durante o torneio, ele afirmou que as cenas de violência eram uma "desgraça", mas aproveitou para cutucar: "Não entendo como 200 torcedores nossos conseguiram dar uma surra em milhares de ingleses", brincou, arrancando risadas dos presentes em um fórum econômico.

  • 'Gays e negros precisam ter cuidados'

O hooligan chefe da torcida do Zenit ainda fez mais ameaças, falando em mortes.

"Um torcedor da Inglaterra quase morreu em Marselha. Pode ser pior na Copa do Mundo. Se tudo correr como planejado, alguém pode morrer", ressaltou.

Na Eurocopa, o inglês Andrew Bache, de 51 anos, ficou desacordado após ser golpeado repetidamente por russos, mesmo no chão. Ele só não morreu porque um policial francês o socorreu a tempo com técnicas de ressuscitamento.

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Torcida Russa Briga Lille 14/06/2016
Hooligans russos em ação na Eurocopa

Alexey Mavryn, de 29 anos e formado em arquitetura, ainda advertiu torcedores negros e gays para não irem à Rússia, já que considera que a população local não é "educada para lidar com esse tipo de gente".

"Não é comum ver negros e gays aqui. Muitos russos não são educados para lidar com esse tipo de coisa. Qualquer fã inglês que seja negro ou gay deve ter cuidado para nos visitar no ano que vem", bradou.

"Ingleses que vierem com suas famílias serão respeitados e tratados com amizade. Mas hooligans serão chutados se chegarem procurando confusão", ameaçou.

O líder da torcida do Zenit, por sua vez, se recusou a reconhecer que há negros jogando pelo time de São Petersburgo - caso, por exemplo, do brasileiro Hernani, ex-Atlético-PR.

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"Não temos jogadores negros representando o Zenit. Temos apenas jogadores com a pele um pouco bronzeada", desconversou.

O repórter, então, o confrontou, e questionou se ele era racista.

O torcedor disse que preferia não responder essa pergunta.

  • Treinamento militar

Segundo Mavryn, da "Uralmash Steel Monsters", um brigão russo é capaz de dar conta de mais de uma dúzia de ingleses, considerados os principais "inimigos" dos locais.

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Hooligans Russia Inglaterra Euro-2016 Briga 11/06/2017
Torcedor sangra após a 'Batalha de Marselha'

"Nós somos fortes e em forma. Um russo consegue bater em 12 ou 13 ingleses", disparou, revelando também que, apesar da vodka ser a grande paixão nacional, os hooligans não consomem bebida alcoólica antes das brigas.

"Nos anos 80 e 90, os russos eram como os ingleses e iam bêbados para as batalhas, mas isso não acontece mais. Se alguém do nosso grupo aparecer bêbado, ele é deixado para trás", contou.

O brigão também revelou que sua organizada conta com gente de todo o tipo, e que todos fazem treinamentos tanto de aeróbica quanto de artes marciais diariamente.

"Há gente com ótimos trabalhos (na torcida uniformizada). Temos um cara que trabalha como policial nas horas livres, e outro é advogado, por exemplo", relatou.

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Entre as táticas usadas pela "Uralmash Steel Monsters", há o uso de roupas pretas e gritos de guerra, que devem ser bradados em uníssono para intimidar os adversários, além do uso de protetores bucais e luvas (para não deixar impressões digitais).

De acordo com Mavryn, aliás, os britânicos são os principais culpados por tudo.

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Torcida Russia Briga Lille 15/06/2016
Policiais usam spray de pimenta para conter hooligans russos na Eurocopa

"Nós fomos contaminados por essa 'doença' do hooliganismo por causa de vocês (ingleses). Mas ela evoluiu, virou algo muito maior", finalizou.

O líder da organizada do Zenit, inclusive, se disse pronto e ansioso para brigar.

"Se os ingleses quiserem a revanche no ano que vem, depois da humilhação que sofreram em Marselha, é só pedir. Nós, como bons anfitriões, estaremos esperando".

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