Ele foi trocado por bolas e chuteiras, mas venceu a Copa do Mundo e jogou no Real Madrid

Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
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Ricardo Rocha
Ricardo Rocha foi campeão mundial com a seleção brasileira em 1994, nos EUA

Ricardo Roberto Barreto da Rocha foi um dos melhores zagueiros brasileiros entre as décadas de 80 e 90. Campeão mundial com a seleção brasileira em 1994, nos Estados Unidos, ele teve no currículo clubes como Real Madrid, Sporting, São Paulo, Santos, Fluminense, Flamengo e Vasco.

O defensor nascido em Recife começou em equipes de várzea de Pernambuco antes de chegar ao Elmo-PE, time que estava na segunda divisão estadual. Com as boas atuações, ele foi para o tradicional Santo Amaro-PE.

A primeira transferência do jogador - dono de um dos bigodes mais famosos do futebol - não envolveu cifras milionárias.

"Eu joguei na primeira divisão antes de ir para o Santa Cruz, em 1983. O que pouca gente sabe é que fui trocado por 20 pares de chuteiras, 10 bolas e dois jogos de camisas (risos). Naqueles tempos os clubes não tinham dinheiro. A minha história é igual a do [ex-goleiro campeão mundial pela seleção] Marcos, mas aconteceu muitos anos antes", disse Ricardo Rocha, 54 anos, ao ESPN.com.br.

Mesmo como destaque nos profissionais, ele foi jogar pelos juniores do clube tricolor. Apesar de ter feito toda categoria de base como zagueiro, o defensor virou lateral.

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"Os titulares da zaga eram Gomes e Édson, dupla que venceu o título brasileiro de 78 pelo Guarani. Eu não tinha muito como brigar para ser titular. Eu estava no banco de reservas e machucou o lateral direito com cinco minutos de jogo. entrei e fui muito bem".

"Eu era magro e tinha força. Como o substituto do lateral ainda não estava regularizado, eu joguei de novo e fui muito bem. No terceiro eu joguei de novo e não tive mais como sair".

Apesar de se firmar na posição, Ricardo Rocha jogava improvisado na zaga quando alguém se machucava. "Nosso time tinha Cristóvão Borges, Jayme de Almeida, Edu Bala, Vilson Taddei, muitos caras bons. Foi lá que conheci também o treinador Carlos Alberto Silva. Era um timaço".

Após ficar dois anos no Santa Cruz, Ricardo Rocha foi para o Guarani, em 1985, por indicação do treinador.

"Assim que eu cheguei, o Carlos Alberto Silva saiu, mas chegou o Lori Sandri chegou para o lugar dele. Nosso time tinha Waldir Peres no gol. Fiquei um ano de lateral e só fui para a zaga quando Julio César acabou vendido para Europa. Eu tinha feito uma cirurgia de púbis e o médico pediu para eu tomar cuidado com cruzamentos porque forçava demais o músculo. Eu fiquei preocupado e pedi para voltar a ser zagueiro".

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ricardo rocha são paulo anos 1990 gazeta
Rocha foi campeão brasileiro em 1991

Na equipe do interior paulista, o defensor foi vice-campeão brasileiro de 1986 - derrotado pelo São Paulo - e segundo colocado no Campeonato Paulista de 88 - perdendo a final para o Corinthians.

Em 1988, o zagueiro foi vendido para o Sporting, de Portugal. Sua primeira experiência na Europa acabou apenas um ano depois. "O clube tinha uma ótima estrutura, mas estava em uma situação financeira muito ruim e ficou seis meses sem pagar os jogadores. Eu quis sair porque queria jogar a Copa de 90".

"O Leco [atual presidente] era diretor do São Paulo e precisou ficar 12 dias em Portugal para acertar meu contrato porque o Sporting não queria me liberar. Eu queria voltar ao Brasil".

Comandado novamente por Carlos Alberto Silva no Morumbi, o defensor foi campeão paulista. Depois, com a chegada do técnico Tele Santana ele venceu outro estadual e o Brasileiro de 1991. "O Telê gostava muito da garotada e fazia algo que poucos fazem hoje. Ele aprimorava todos os fundamentos dos profissionais".

  • É tetra!

Ricardo Rocha começou a ser chamado para a seleção brasileira logo depois da Copa do Mundo de 1986. "Fui convocado pelo Carlos Alberto Silva. Minha evolução começou aí. Fui até campeão do Pan-Americano de 87 com Raí, Taffarel, Valdo e André Cruz. A gente teve um problema sério porque os clubes não liberaram vários caras. A gente precisou fazer um treino coletivo contra jogadores de hóquei (risos)".

O zagueiro jogou a Copa do Mundo de 1990 na Itália com a seleção comandada por Sebastião Lazaroni. A equipe acabou eliminada nas oitavas de final para a Argentina de Maradona e Caniggia.

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"Faltou união para gente. O nosso grupo não estava fechado naquela competição. Tivemos muitos problemas, a culpa foi de todos lá. Foi uma injustiça que tenha caído tudo nas costas de Dunga e Lazaroni".

No mundial seguinte, ele seria titular de Carlos Alberto Parreira nos Estados Unidos, mas uma contusão acabou com seus planos.

"Eu joguei o primeiro jogo contra a Rússia e machuquei. O primeiro dia da lesão foi muito triste. Depois, eu pensei ‘Não tenho mais o que fazer sobre isso. Agora, preciso fazer alguma coisa. Tenho que tentar elevar o moral do grupo'".

"Fazia uma espécie de porta-voz dos jogadores com a comissão técnica. A pressão era muito grande porque estávamos há 24 anos sem um título. Eu tinha vivido o fracasso de 90 e sabia que precisávamos segurar a pressão".

O zagueiro ficou com o restante do elenco até o final da competição. Do banco de reservas, ele viu o Brasil vencer a Itália de Roberto Baggio nos pênaltis e conquistar sua quarta Copa do Mundo. No ano seguinte, ele aposentou-se da seleção.

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  • Duelos com Barcelona

Após sair do São Paulo, em 1991, Ricardo Rocha voltou à Europa para jogar pelo poderoso Real Madrid. Nas duas temporadas, o time merengue perdeu a hegemonia do Campeonato Espanhol para o "Dream Team" do Barcelona, mas faturou uma Copa do Rei.

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"Foi uma experiência ótima. Joguei com muitos craques como Zamorano, Butrageño e Hugo Sanchez. Eu fui o primeiro brasileiro no Real depois de muitos anos. Era um time que vinha de cinco títulos seguidos. Era muito forte, mas estava um pouco velho".

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Zagueiro Ricardo Rocha pelo Real Madrid
Ricardo Rocha pelo Real Madrid

O Barcelona comandado por Johan Cruyff tinha craques como Michael Laudrup, Hristo Stoichkov, Pep Guardiola e Andoni Zubizarreta. "Era difícil demais de jogar contra essa equipe. O Stoichkov estava voando. Laudrup foi um dos maiores estrangeiros que vi jogar. Ele driblava todo mundo. Foram duelos espetaculares".

Em 1993, o zagueiro retornou ao Brasil para defender o Santos. Ele ainda passou por Vasco Fluminense Newell's Old Boys-ARG antes de encerrar a carreira em 1998 no Flamengo, aos 36 anos.

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