Por que Robben sempre faz a mesma jogada, e por que ela sempre funciona?

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Corta para a esquerda e chuta: veja golaços de Robben em sua jogada fatal

Arjen Robben vem voando pela direita, corta para a esquerda e bate. Golaço!

Se você acompanha o futebol internacional, quantas vezes já viu essa cena?

Foi com essa jogada que o holandês de 33 anos construiu sua fama e ajudou clubes como PSV, Chelsea, Real Madrid e principalmente Bayern a ganharem muitos títulos.

Nesta quarta-feira, às 17h45 (de Brasília), contra o Arsenal, pela Champions League, lá estará o carequinha novamente, voando pela ponta, aterrorizando os defensores.

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Robben Bayern Wolfsburg Copa da Alemanha 07/02/2017
Robben joga pela ponta direita do Bayern

Mas, afinal, se todos sabem que Robben fatalmente irá correr, cortar para a esquerda e chutar, por que ninguém consegue marcar essa jogada tão manjada?

Para obter essa resposta, o ESPN.com.br procurou atletas que jogaram junto e também contra o ponta, na esperança de que eles possam solucionar o mistério.

Talvez quem melhor possa explicar a impossibilidade de marcar Robben seja o meia Marquinho Alves, recém-contratado pelo Boavista-RJ, que viu o craque "nascer".

Alves e Robben foram companheiros por duas temporadas no PSV Eindhoven, e o meio-campista revelado pelo São Paulo foi testemunha do crescimento do holandês.

"O Robben começou a carreira num time pequeno, o Groningen, e dava um trabalho danado para a gente quando jogava contra. Nessa época ele ainda tinha cabelo (risos)", brinca o brasileiro, também ex-jogador de Atlético-MG, Vasco e Botafogo.

"Ele jogava mais aberto pela ponta esquerda, só às vezes pela direita, mas bagunçava demais. Quando o PSV o contratou, no primeiro ano já fez chover em campo. É um fenômeno. Desde o começo já dava para ver que era diferenciado", lembra Marquinho.

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Robben Comemora Gol PSV Heerenveen Campeonato Holandes 01/03/2003
Robben (ainda com cabelo) comemora gol nos tempos de PSV, seu 2º time na Holanda

Pelo time de Eindhoven, o atacante foi campeão holandês em 2002/03 (fazendo 12 gols no torneio) e ainda faturou a Supercopa da Holanda de 2003 (anotou o primeiro tento da vitória por 3 a 1 sobre o Utrecht), sempre causando terror nas defesas adversárias.

Como atesta Marquinho Alves, desde que iniciou a carreira o atacante sempre baseou sem jogo ao redor da jogada mais famosa: o corte rápido para a perna boa e chute preciso.

Mas por que ninguém consegue marcar sua jogada mais famosa?

A resposta, segundo Marquinho, é porque isso é "quase impossível".

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Robben Bayern RB Leipzig Campeonato Alemão 21/12/2016
Robben corta para a esquerda e prepara o chute

"Você lembra do Felipe, ex-meia do Vasco e Flamengo? É a mesma coisa! Todo mundo sabia que ele ia cortar para a esquerda, mas ninguém pegava (risos)", compara.

"O Robben é muito rápido, é absurdo, fora que tem muita força física. É algo fora do normal, sobrenatural. Você junta tudo isso com o talento dele e já viu... É quase impossível marcar!", analisa.

O lateral Kevin Grosskreutz, ex-Borussia Dortmund e atualmente no Stuttgart, sofreu muito para marcar o holandês em seus tempos de BVB. Para o tetracampeão do mundo com a seleção alemã, a única maneira de tentar parar o canhoto é com marcação dupla.

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Robben Holanda Espanha Copa do Mundo 2014 13/06/2014
Robben tocou o terror na Espanha, na Copa-2014

"Robben é um jogador de classe mundial. Ele pode, e eu sei bem disso por experiência própria, decidir um jogo sozinho. Para pará-lo, você tem que montar uma marcação dupla em cima dele. Se não for assim, não tem jeito", ensinou o experiente ala.

Segundo Marquinho, a potência física que Robben usa para bater seus rivais se deve muito ao fato do ponta sempre ter sido um atleta exemplar, que cuidou bem do corpo desde os tempos de juniores na Holanda.

"Ele é um cara que tem um cuidado enorme. Quando jogamos juntos, ele não bebia nem fumava, ao contrário de vários outros. Por isso joga em alto nível até hoje. Olha só o que ele correu na Copa-2014, isso com mais de 30 anos! Ele é fera", elogia o meia.

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Robben Groningen Ajax Campeonato Holandes
Robben nos tempos de Groningen, time em que foi revelado na Holanda

"Hoje ele até sofre mais com lesões, até pela idade, mas no tempo do PSV ele não machucava nunca, era um touro. Isso o ajudou demais a ter a regularidade no tempo de Holanda e depois ir para o Chelsea, quando ele deslanchou de vez", cita Marquinho.

Dos tempos em que jogaram juntos, Alves e Robben guardaram boa amizade.

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Robben Holanda Australia Eliminatorias Euro-2004
Robben em seu início pela seleção da Holanda: sempre com a perna esquerda

"Nos treinos, ele era um cara muito sério, como todos os holandeses. Não tem gracinha. Mas, depois dos treinos, sempre brincava muito com os brasileiros. A gente jogava um futevôlei da hora, rolava uns Brasil x Holanda (risos)", relembra o brasileiro.

"Os holandeses são apaixonados e meio fascinados pelo Brasil. Além dos jogadores brasileiros, que eles admiram muito, eles sempre perguntavam sobre as mulheres, as praias, e também falavam que tinham medo, porque só passava desgraça na televisão, tiro, assalto, essas coisas. Por isso eles ficavam com um pé atrás, mas a gente explicava que não era assim, que na maior parte do tempo é um país maravilhoso", conta.

Em 2002, Ajax x PSV teve gols de Ibra e Robben e vitória dos visitantes 
  • Já houve um Robben no futebol brasileiro

Se hoje Robben entorta zagueiros pela Europa, o Brasil já teve há algumas décadas um jogador que atuava de maneira parecida - e também causava estragos semelhantes.

Trata-se de José Sérgio Presti, mais conhecido como Zé Sérgio, atacante que jogou por São Paulo, Santos, Vasco - conquistando títulos pelos três - e seleção brasileira.

Gazeta Press
Ze Sergio Vasco Corinthians Campeonato Brasileiro 11/10/1987
Zé Sérgio em ação pelo Vasco, em 1987

Ao contrário do holandês, Zé Sérgio se posicionava pela ponta esquerda, mas fazia uma jogada fatal nos mesmos moldes: corte para a direita e batida precisa, sem chances para os zagueiros e goleiros.

"Eu era ambidentro, mas minha perna mais forte era a direita. Eu jogava pela esquerda, assim como o Robben é canhoto e joga pela direita. Na minha época, eu costumava fazer muito essa jogada de cortar para dentro e bater para o gol. Guardadas as proporções, dá para dizer que meu futebol e o do Robben são parecidos, sim", analisa o ex-atleta, hoje com 59 anos, ao ESPN.com.br.

Segundo Zé Sérgio, ele, em seus tempos áureos, assim como Robben, era muito difícil de ser marcado, até por uma questão de "jogo mental" entre o atacante e o defensor.

Com cabelo e pelo Chelsea, Robben arrancou para dar a vitória contra o Everton em 2004

Em sua teoria, o beque, mesmo sabendo que a maior chance era levar um corte para a direita, ainda assim tinha que se preparar para um possível drible para a esquerda, o que lhe dava uma vantagem de tempo e espaço que na maioria das vezes se mostrava fatal.

"Todo mundo sabia que eu poderia cortar para dentro e bater, mas eu diversificava as jogadas, assim como o Robben diversifica. Isso faz o zagueiro nunca ter a certeza da jogada que ele fará. Ainda mais que, por eu ser ambidentro, eu poderia tanto levar para a linha de fundo e cruzar como cortar para dentro e chutar", afirma Zé Sérgio.

Andreas Gebert/AnadoluAgency/GettyImages
Robben Bayern Ingolstadt Campeonato Alemão 11/02/2017
Robben é cercado ao preparar o famoso corte

"O que mais facilitava para mim na minha época era que os laterais não treinavam tanto a 'perna ruim'. Hoje, já tem mais jogadores ambidestros, é mais complicado para o Robben levar vantagem no corte. Eu era rápido e tinha explosão. Tinha facilidade para o drible e para mudar de direção com a bola nos pés, coisas que você vê ele fazendo toda hora", explica.

Para Zé Sérgio, que também trabalhou como treinador na base do São Paulo por muitos anos e ajudou a revelar jogadores como o zagueiro Breno, o volante Casemiro e o meia-atacante Lucas, Robben poderia ser um jogador ainda mais perigoso se tentasse mais jogadas pela linha de fundo ao invés de quase sempre optar pelo corte e chute.

"A maior diferença entre eu e o Robben é que ele faz a lateral-linha de fundo como eu fazia. Ele joga da linha lateral para dentro. Dificilmente o Robben faz uma jogada de linha de fundo e, quando faz, acaba fazendo o passe para trás ou chutando, nunca cruzando. Os pontas da minha época chegavam mais na linha de fundo e cruzavam pra a área", lembra.

Holandeses brilharam, Robben marcou golaço e o Real Madrid goleou o Bilbao em 2009
  • Análise do Data ESPN

Por Renato Rodrigues, do DataESPN

Não é só o corte para a perna esquerda

Associar Arjen Robben apenas ao seu famoso drible para a esquerda é um grande erro.

Trata-se de um dos pontas mais completos que emergiram no futebol mundial durante os últimos anos. Consegue aliar o drible à tomada de decisão e acabamento das jogadas como poucos. Ajuda na construção ofensiva, participa do jogo ativamente e também finaliza com qualidade. Infelizmente, não atingiu níveis maiores em sua carreira por conta das lesões.

Com gols de Robben e Joe Cole, Chelsea bateu Arsenal, de Henry, em pleno Highbury em 2005; reveja

Esses problemas físicos, inclusive, fazem do holandês atualmente um jogador menos agressivo. Quando surgiu, antes de todas essas ocorrências médicas, o camisa 11 do Bayern não tinha a maturidade de agora, principalmente nas tomadas de decisão.

Por outro lado, tinha uma intensidade sem a bola muito grande, sempre pressionando e agrendido o adversário com a bola. Talvez tenha perdido um pouco disso por receio. Um bloqueio mental após seguidas lesões.

Robben é um atleta altamente técnico. Vemos isso seu contato com a bola, principalmente no primeiro toque. Consegue ter um controle da bola mesmo a carregando em alta velocidade. Aliás, trata-se de um jogador de muito mais ágil do que veloz.

Com gol de Crespo e 'marca registrada' de Robben, Chelsea virou sobre o Sunderland em 2006

Seu grande trunfo no 1x1 é nessa troca de direção, quando consegue deixar marcadores para trás mesmo que seja usando o mesmo drible de sempre. A finalização forte e cruzada, uma das suas marcas, faz ainda mais sentido se pensarmos com outra lógica. Se a bola não acerta alvo, pode se transformar em um cruzamento rápido para alguém antecipar e empurrar para as redes. Uma escolha que pode te gerar lucros dobrados.

Sua bola parada também é muito forte. Encaixa cruzamentos rápidos e bem direcionados, que geralmente causam estragos às defesas.

Ao analisar Robben mais a fundo, talvez achemos dois pontos fracos bem nítidos. O primeiro é o jogo aéreo. Apesar de fazer gols desta maneira, principalmente fechando na área pelo lado oposto da bola, o holandês não costuma ter grande aproveitamento neste sentido.

Com gol de Robben, Real buscou virada contra o Osasuna e foi campeão da LaLiga 2007/08

Defensivamente já foi mais aplicado. Não que ela seja ruim, mas digamos que ele se "reserva" neste quesito para jogos maiores. Mais novo, fazia a recomposição como poucos.

  • Bayern de Munique x Arsenal

FICHA TÉCNICA:
BAYERN DE MUNIQUE-ALE x ARSENAL-ING

Local: Allianz Arena, em Munique (ALE)
Data: 15 de fevereiro de 2017, quarta-feira
Horário: 17h45 (de Brasília)
Árbitro: Milorad Mazic (SER)
Assistentes: Milovan Ristic e Dalibor Djurdjevic (ambos SER)

BAYERN: Neuer; Lahm, Martínez, Hummels e Alaba; Xabi Alonso, Vidal, Thiago Alcântara, Robben e Douglas Costa; Lewandowski Técnico: Carlo Ancelotti

ARSENAL: Ospina; Bellerín, Mustafi, Koscielny e Gibbs (Monreal); Elneny (Xhaka), Coquelin, Walcott e Özil; Sánchez e Giroud (Iwobi) Técnico: Arsene Wenger

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Por que Robben sempre faz a mesma jogada, e por que ela sempre funciona?

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