Há 29 anos, acidente aéreo do Alianza Lima uniu rivais peruanos e chilenos

ESPN.com.br com agência Gazeta Press
Reprodução
Em 8 de dezembro de 87, 16 jogadores e o técnico do Alianza Lima (PER) morreram em uma queda de avião no mar após uma partida em Pucallpa
16 jogadores e técnico do Alianza Lima morreram em uma queda de avião no mar

O acidente aéreo sofrido pela delegação do Alianza Lima completa exatos 29 anos nesta quinta-feira. Com 43 vítimas fatais, a tragédia uniu para sempre torcedores peruanos e chilenos, apesar da intensa rivalidade entre os dois países. O laço, baseado na solidariedade, é semelhante ao estabelecido recentemente por Chapecoense e Atlético Nacional.

O Alianza Lima, então líder do torneio local, viajou para enfrentar o Deportivo Pucallpa e ganhou por 1 a 0. Na volta à capital, o fokker da Marinha Peruana caiu no Oceano Pacífico quando já estava nas imediações do aeroporto Jorge Chávez. Dezesseis das 43 vítimas eram jogadores, entre eles o goleiro Caíco Gonzales, tio do flamenguista Paolo Guerrero.

Com o elenco dizimado, o Alianza recorreu aos jovens das categorias de base e contou ainda com o reforço do ídolo Teófilo Cubillas, que já havia se aposentado. Embora não estivesse diretamente envolvido na tragédia, o Colo-Colo resolveu emprestar gratuitamente Rene Pinto, José Letelier, Pancho Huerta e Parko Quiroz para o time peruano terminar o campeonato nacional, iniciando um vínculo eterno.

"O Colo-Colo foi importantíssimo. Embora tenhamos recebido muito apoio após o acidente, as pessoas estavam um pouco reticentes. Quando o Colo-Colo agiu, e sem pedir nada em troca, ofereceu um exemplo de fraternidade, companheirismo e irmandade. Eles deram o empurrão que precisávamos para poder montar um time até o fim do campeonato e seguir adiante", disse Alex Berrocal, coordenador geral do Alianza, à Gazeta Esportiva.

Um dos funcionários mais antigos do clube peruano, Berrocal já integrava a diretoria na época do acidente e decidiu não viajar com a delegação para a localidade de Pucallpa na última hora. Ele chegou a subir no ônibus que transportou os passageiros até o avião e ficou na pista, ao lado da escadaria de embarque. Diante da demora do piloto, resolveu permanecer em Lima para cumprir suas tarefas no Alianza.

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"Não tive qualquer tipo de pressentimento. Simplesmente decidi não viajar porque o piloto não chegava para iniciar o voo. Quando tomei essa decisão, nunca imaginei que jamais veria meus amigos, meus companheiros, meus irmãos", disse Berrocal, com certa dificuldade para explicar o motivo de ter desistido da viagem. "Estive muito perto de embarcar", contou.

Responsável por identificar os corpos após o acidente aéreo, Berrocal em seguida participou da reconstrução do clube e recepcionou os quatro jogadores enviados pelo Colo-Colo por empréstimo. O gesto do time chileno, então presidido por Peter Dragicevic, uniu os dois clubes e torcidas eternamente sob o lema "Un sólo corazón", apesar da intensa rivalidade entre Chile e Peru, adversários na Guerra do Pacífico.

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"A gratidão e a amizade entre Alianza Lima e Colo-Colo continuam até hoje. Recentemente, torcedores chilenos a caminho do Equador passaram por Lima e foram recebidos por nós. As torcidas sempre interagem e os clubes costumam se corresponder", contou Berrocal, já contatado pela agremiação chilena por ocasião do 29º aniversário da tragédia.

A solidariedade, prestada pelo Colo-Colo ao Alianza Lima em 1987, voltou a unir dois clubes de forma improvável após o acidente da Chapecoense. O Atlético Nacional, adversário dos catarinenses na final da Copa Sul-Americana, manifestou o desejo de ver o clube brasileiro ficar com o título e lotou o Estádio Atanasio Girardot para homenagear os falecidos.

"O Atlético Nacional, além de grande instituição, é bastante sensível. Tenho certeza que os colombianos sentiram a tragédia como se fosse deles. Eles se comportaram da melhor maneira possível e gostaria de cumprimentá-los por isso. O ser humano tem que ser assim: diante de uma desgraça, dar a mão ao caído. Nós, latinos, somos assim. Já nasceu uma amizade entre os dois clubes e que vai ser muito grande", previu Berrocal.

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Um dos times de maior torcida do Peru, o Alianza Lima conseguiu se reerguer e conquistou o título nacional em 1997, 10 anos após o acidente aéreo, feito que se repetiu em 2001, 2003, 2004 e 2006. Com conhecimento de causa, Alex Berrocal, no clube peruano há mais de 45 anos, recomenda união à Chapecoense para superar o momento delicado.

"Hoje, pelas redes sociais, todos se colocaram à disposição muito rapidamente. Mas a Chapecoense precisa capitalizar isso. E não apenas financeiramente, mas também sentimentalmente. Foi isso que fizemos com nossa gente. O Alianza se uniu aos familiares das vítimas, eles viraram parte do clube e procuramos dividir a dor entre todos. Não nos preocupamos em buscar culpados, mas sim em manter a união", disse.

A investigação do acidente de 1987 foi conduzida de maneira pouco transparente e o piloto Edilberto Villar Molina, único sobrevivente, nunca se manifestou publicamente - hoje, seu destino é desconhecido. Nesta quinta-feira, data do 29º aniversário da tragédia, os mártires serão homenageados pelo Alianza Lima com uma missa no Estádio Alejandro Villanueva. Marcos Raposo Lopes, embaixador do Brasil, foi convidado em sinal de apoio à Chapecoense.

COLO-COLO PRESTA HOMENAGEM E OFERECE JOGADORES

A exemplo de inúmeros clubes do exterior, o Colo-Colo homenageou a Chapecoense após o acidente aéreo sofrido pelo clube catarinense. Mais do que isso, o time chileno se ofereceu para emprestar jogadores gratuitamente, repetindo gesto feito com o Alianza Lima em 1987.

"Estou abalado por tudo que aconteceu e, por isso, estamos dispostos a ajudar em tudo que possamos", disse Aníbal Mosa, presidente do Colo-Colo, em entrevista ao La Cuarta. "Estamos dispostos a mandar jogadores para ajudá-los, tal como fizemos naquela vez", completou o dirigente.

Na quinta-feira passada, pela semifinal da Copa Chile, o Colo-Colo usou o símbolo da Chapecoense em seu uniforme e ganhou da Universidad Catolica por 2 a 0. Das arquibancadas do Estádio Monumental, os torcedores soltaram bexigas verdes para o céu.

Já o Alianza Lima respeitou um minuto de silêncio antes de seu treinamento no Estádio Alejandro Villanueva no dia seguinte ao acidente. Por meio do Twitter, o clube peruano também se manifestou. "Nossa total solidariedade com os irmãos da Associação Chapecoense de Futebol. Compreendemos a sua dor, agora estarão com nossos irmãos na glória", diz o texto.

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