Há 20 anos, um impostor enganou todo mundo e jogou 53 minutos na Premier League

Francisco De Laurentiis, do ESPN.com.br
Reprodução
Ali Dia Southampton
Ali Dia em ação com a camisa 33 do Southampton: 'parecia o Bambi correndo no gelo'

Há exatos 20 anos, em 23 de novembro de 1996, a poderosa Premier League inglesa viveu provavelmente seu momento mais bizarro e pitoresco em todos os tempos.

Há duas décadas, um impostor conseguiu enganar todo mundo, inclusive o famoso técnico Graeme Souness, e jogou 53 minutos de uma partida da tradicional liga britânica.

Trata-se de Ali Dia, senegalês que tornou-se celebridade graças a um trote telefônico bem executado.

Certo dia, Souness, então treinador do Southampton, recebeu um telefonema que supostamente seria do liberiano George Weah, lendário ex-atacante de Milan e PSG (além de melhor do mundo pela Fifa em 1995), pedindo uma chance para seu primo, um craque ainda não descoberto no futebol africano, e que inclusive havia marcado dois gols na última vitória da seleção do Senegal nas eliminatórias africanas.

Mesmo com toda sua experiência de anos na Premier League, o treinador escocês acreditou na história (principalmente porque os Saints sofriam com lesões de atletas e precisavam de um reforço para o ataque), e ofereceu um contrato de um mês a Ali Dia.

"Ele jogou com Weah no PSG e estava na segunda divisão alemã. Vamos dar uma olhada nele", disse o ex-comandante de Liverpool e Benfica no dia da apresentação.

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Graeme Souness Tecnico Southampton Treino 26/07/1996
Graeme Souness foi enganado por trote

O problema é que nada daquilo era verdade: Dia era apenas um "boleiro" de final de semana, com passagens por equipes amadoras francesas e semi-amadoras da Inglaterra, enquanto o tal George Weah do telefone era um ardiloso colega seu da universidade.

Alguns dias passaram e o africano não causou nenhum boa impressão nos treinos. No entanto, num daqueles golpes do destino, acabou ganhando uma chance de ouro para mostrar seu futebol na liga inglesa.

Ali Dia havia sido escalado para um jogo do time reserva do Southampton contra o Arsenal, mas a partida acabou cancelada depois que o campo alagou.

Por isso, o "promissor craque" acabou convocado por Souness para compor o banco de reservas contra o tradicional Leeds United, pela Premier League.

Aos 32 do primeiro tempo, ninguém menos que o lendário Matt Le Tissier, um dos maiores atletas da história do futebol inglês, se lesiona e pede substituição. O técnico olha para o banco, pensa, pensa e... Manda Ali Dia aquecer para entrar.

Pouco depois, lá estava o senegalês em campo, com a camisa 33. Inacreditável!

Como era de se esperar, porém, sua performance foi tenebrosa, e ele foi substituído aos 40 do segundo tempo por Ken Monkou. Para piorar, o Leeds venceu o Southampton por 2 a 0. Foi o fim da passagem de Ali Dia, o "primo de Weah", pela Premier League.

"Aquilo foi inacreditável. Ele parecia o Bambi correndo no gelo. Foi extremamente vergonhoso de assistir. Foi uma situação bastante bizarra (risos)", recordou Le Tissier, em um documentário sobre o futebol inglês, às gargalhadas.

"No dia seguinte (ao jogo contra o Leeds) fui ao clube para tratar minha lesão e o encontrei por lá, também no departamento médico, já que ele disse que havia se machucado na partida. Depois, ele nunca mais foi visto", contou o ex-meio-campista.

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Ali Dia Southampton
Ali Dia, o impostor do Southampton

Após a pataquada, Graeme Souness ligou para o verdadeiro George Weah e descobriu que havia sido enganado.

Ali Dia, porém, concedeu entrevista à Sky Sports nos dias seguintes à partida e manteve sua versão, dizendo que ia provar que era um bom jogador ao fim de seu período de um mês de teste.

"O técnico me disse que George ligou para ele e disse que sou um bom jogador. Não tenho medo de dizer que sou um bom jogador. Eu posso e vou provar isso", clamou.

Mas Ali Dia nunca provou nada. Dias depois, foi descoberto que o africano tinha 31 anos, e não 22, como o falso "George Weah" havia dito a Souness. Era um mero estudante de economia na que sonhava em um dia jogar a Premier League.

Por linhas tortas, acabou conseguindo, mesmo que por apenas 53 minutos.

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O "primo de Weah" foi liberado após duas semanas pelo Southampton e encerrou sua carreira no ano seguinte, jogando pelo semi-amador Gateshead, pelo qual marcou dois gols em oito jogos. Até hoje, o africano tem status de "lenda" na Inglaterra.

Ele é o nº 1 da lista de piores jogadores da história do Inglês organizada tanto pelo jornal The Times quanto pelo tabloide The Sun, e ainda aparece como 4º pior atacante de todos os tempos do Inglês, em relação organizada pelo Daily Mail.

O site Bleacher Report conseguiu encontrar Ali Dia após longas negociações com a família, que mora em Dakar (capital do Senegal). Ele vive em... Londres!

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Melhor do mundo em 1995, George Weah fez os três gols da vitória do   Milan diante a Atalanta em 1998
O verdadeiro George Weah

Na conversa, o ex-jogador revelou ter conversado pela primeira vez com sua mãe e seu filho sobre o caso nos últimos dias por causa da reportagem. Além disso, criticou a imprensa britânica por tratá-lo como um impostor.

"Eles me retrataram como um mentiroso, e isso não é verdade. Eu joguei pelo Paris Saint-Germain, na segunda divisão, de 1986 a 1988. E eu ajudei a ganhar a Copa de Paris, em 1986 ou 1987... Já faz um tempo", garantiu.

Sobre o Southampton, explicou: "Eu treinei contra a primeira equipe, pelo time reserva, por duas semanas. Eles sabiam de minhas habilidade. Houve um último jogo antes do Leeds, 11 contra 11, e eu marquei dois ou três gols. Estava pegando fogo. Eu ganhei o direito de estar lá. Souness disse: 'Você está dentro para amanhã, esteja pronto'".

"Eu tenho uma consciência limpa. Deus vai ser nosso juiz", encerrou Ali Dia.

O ESPN.com.br tentou contato com Graeme Souness, que não quis comentar o caso.

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