Jair Ventura quase foi advogado e jogou até no Gabão: 'Parece 'Quem quer ser um milionário?'

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Vitor Silva/SSPress/Botafogo
Jair Ventura durante jogo do Botafogo contra o Cruzeiro
Jair Ventura durante jogo do Botafogo contra o Cruzeiro

Jair Ventura é o técnico revelação deste Brasileirão no comando do Botafogo. Ex-auxiliar da equipe carioca, ele assumiu o cargo de treinador após a saída de Ricardo Gomes para o São Paulo, em agosto, e comandou uma espetacular arrancada rumo à zona da Libertadores. Seu time é o 2º melhor do returno, tendo somado 32 pontos na 2ª fase do campeonato - menos somente do que o líder Palmeiras, que fez 34.

Antes de brilhar no comando do Bota aos 37 anos, porém, o filho do "Furacão da Copa de 70" por pouco não seguiu outro rumo na vida. Sem saber se queria ser boleiro, ele chegou a prestar vestibular e quase virou advogado.

"Meu pai sempre me deixou muito à vontade pra fazer minhas escolhas na vida. Mas, por ser filho de um ídolo nacional, a vida inteira eu convivi com a pergunta: 'Vai ser igual ao pai?'. Pra falar a verdade, não pensava em ser jogador. Cheguei a prestar vestibular para direito e passei. Mas aí como deu certo de jogar profissionalmente, acabei não começando o curso", conta Ventura, em entrevista ao ESPN.com.br.

Arquivo Pessoal
Jair Ventura Bangu
Jair Ventura nos tempos de Bangu

O início de Jair foi em equipes do Rio de Janeiro, onde tentou a sorte como um autêntico camisa 9.

"Eu joguei em todas as categorias de base antes de virar profissional. As coisas foram bem naturais, por sempre joguei futebol e, por conta dos amigos, acabei me envolvendo no mundo dos clubes. Passei pelas bases de São Cristóvão e Bonsucesso, depois fiz juniores no Bangu. Eu era centroavante matador, camisa 9, diferente do meu que, que era mais ponta de lança, até um meia centralizado", explica.

Dos tempos de jogador, Ventura diz não ter tantas saudades assim. Afinal, conviveu com as agruras de jogar nos pequenos do Rio, enquanto via outros colegas se derem bem nos grandes.

"Enfrentei na base caras como Júlio César, Reinaldo, Roger Flores, Juan, esse pessoal. Eles se tornaram ótimos jogadores porque não são de verdade, são de outro planeta (risos). Eu sim era jogador de verdade. Joguei em time pequeno, chegava no fim do mês e não recebia, aí tinha que beber água da bica (risos)", gargalha o treinador.

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"Quem estoura e vive o glamour da bola é uma porcentagem muito pequena, mas todos sempre sonham com esse patamar. Eu sou muito exigente e vi que nesse nível eu não ia chegar, nunca ia atingir a excelência que eu queria, aí fui estudar", relata.

Vítor Silva/SSPress/Botafogo
Jair Ventura durante a vitória sobre o Sport
Jair Ventura durante jogo do Botafogo

Antes de desistir do futebol profissional, Jair chegou a fazer um teste no Caxias, do Rio Grande do Sul, mas não foi aprovado pelo então treinador da equipe gaúcha, um tal de Tite. Depois, entre 2002 e 2003, passou uma temporada no pequeno Mulhouse, da França, onde aprendeu a falar o idioma local.

Voltou em 2004 ao Brasil para jogar em outro pequeno do Rio, o Mesquita, e se aventurou de novo na Europa para defender o Kalamata, da Grécia. Retornou de novo ao país natal e já começou a pensar em pendurar as chuteiras. Foi então, porém, que acabou vivendo a maior aventura de sua vida nos gramados.

"Fiquei naquela de aposentar ou não, mas aí meu pai for ser treinador do Gabão para tentar classificar na eliminatória africana pra Copa do Mundo de 2006. Fui visitá-lo um dia e fiquei treinando por lá sem clube. Só que um dirigente viu meu treino, gostou e me ofereceu um contrato pra jogar por um time de lá. Eu pensei, pensei... E topei! Fiquei morando com meu pai e joguei no TP Akwenb", lembrou.

Na ex-colônia francesa, Ventura experimentou o choque cultural do Islã e viveu de tudo um pouco, e guardou histórias das quais garante que vai se lembrar para sempre.

"Fiquei dois anos lá com meu pai. Era uma cultura de vida muito diferente, mas como eu falava francês até que me virei bem. Até tentei me naturalizar para tentar jogar a Copa pelo Gabão, mas a seleção ficou de fora por um ponto na eliminatória", lamenta.

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"Teve uma vez que o treinador me acordou 5h30 da manhã pra fazer uma movimentação antes do jogo. Antes do café da manhã não dá (risos)! Mas como o país é muçulmano, tem o lance do Ramadã, aí não dá pra comer e eles têm que fazer as cinco rezas por dia, então mexe em toda a programação", conta Jair Ventura.

A estrutura do futebol gabonês, porém, deixava bastante a desejar.

Tiago Leme/ESPN
Jairzinho também marcou presença na eleição
Jair Ventura é filho do 'Furacão' Jairzinho

"Morando lá eu vi muita coisa (risos). Você viu o filme 'Quem quer ser um milionário?'. Lembra do banheiro? Na minha concentração era igualzinho, daquele jeito (risos)", recorda.

Após a experiência na África, Ventura retornou mais uma vez ao Brasil, e desta vez pendurou de vez as chuteiras. Começou aí então sua preparação para ser treinador, com a subida meteórica neste ano.

"Voltei ao Brasil com 26 anos e pensei: 'Cansei de correr errado, não quero mais isso pra minha vida'. Fiz um curso de treinador e no ano seguinte fui estudar educação física. Formei em quatro anos e fui estagiar. Passei por América-RJ, Madureira e Botafogo, no qual cheguei em 2008. Fiquei até 2013, depois saí e voltei em 2015. Fiz de tudo já no time: fui preparador físico, scout e depois auxiliar. Agora, tenho essa chance como treinador, e quero aproveitar da melhor forma possível", encerra o filho do "Furacão da Copa".

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