Por que, 30 anos depois, três times brigam por título que nunca existiu?

Francisco De Laurentiis e Vladimir Bianchini, do ESPN.com.br
Gazeta Press
Inter de Limeira Posada Guarani Campeonato Paulista 10/08/1986
Inter de Limeira é um dos três times que buscam o reconhecimento da Série B de 1986

No dicionário, a palavra "campeonato" é explicada da seguinte forma: "Competição esportiva na qual o vencedor recebe o título de campeão". É possível, portanto, que exista um campeonato sem campeão? Apesar de parecer abstrato, isso é possível.

Em 1986, a Série B (então chamada Torneio Paralelo) não teve um vencedor. A disputa envolveu quatro grupos regionalizados de nove times, com o campeão de cada chave sendo promovido ao Brasileirão. Foram promovidos Treze-PB, Central-PE, Internacional de Limeira-SP e Criciúma-SC. No entanto, nunca foram disputadas finais para determinar quem foi o "dono" de 86.

30 anos se passaram desde então, e a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) até hoje não reconhece um vencedor naquele ano. Para a entidade que comanda o futebol nacional, a Série B de 1986 não tem vencedor, já que não previa disputa de título.

"A fórmula adotada naquele ano não previa a definição de um ou mais campeões. Em 1986, os times em questão terminaram a Série B como líderes de seus respectivos grupos e conseguiram a classificação para a 2ª fase da Série A do mesmo ano. O correto seria mencionar o mérito de 1986 como 'Classificação à Série A'", explica a CBF.

Espalhados pelo Brasil, porém, três dos quatro "campeões" daquele torneio lutam até hoje para serem considerados campeões de um torneio que nunca conheceu seu vencedor. Inclusive entraram com representações na CBF, pressionando a entidade.

Nos estádios do Treze-PB e do Central-PB, aliás, há até a inscrição "Campeão Brasileiro da Série B 1986", mesmo com o troféu nunca tendo sido oficializado.

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Os motivos da busca por esse título são vários, indo desde a busca por uma melhor colocação no ranking da CBF até orgulho pessoal, como explicam representantes das equipes. Além disso, os casos de Palmeiras, Santos e Sport, que tiveram títulos do passado reconhecidos pela entidade, também motivam os cartolas.

"Esse reconhecimento o Central já soliticou há anos à CBF, já que foi um dos quatro melhores daquela Série B. Quando nosso time completou 97 anos, a CBF inclusive publicou uma nota e nos reconheceu como campeões daquele ano, mas depois apagou", diz Lícius Cavalcanti, presidente do Central, ao ESPN.com.br.

Cavalcanti, aliás, não se importa em dividir a conquista com os outros clubes, desde que a CBF considere a equipe do interior de Pernambuco como uma das campeãs de 86.

Reprodução/Facebook
Andre Mensalão Treze-PB
Treze é outro que busca o reconhecimento

"O Central conquistou o título ficando entre os quatro, junto com os outros. Nós aceitamos ser considerados campeões, mesmo dividindo o título. Essa conquista nos permitiu disputar o Brasileiro, receber Flamengo, Grêmio, Goiás. Foi algo grandioso para a cidade. O presidente da Federação Pernambucana inclusive está se empenhando para termos até uma réplica do troféu depois que a CBF oficializar tudo no seu site", ressalta o cartola, esperançoso.

Posicionamento parecido tem Paulo Toledo, presidente da Inter de Limeira, que viveu o melhor período de sua história em 1986. Neste ano, o clube foi campeão paulista em cima do Palmeiras e ainda conseguiu o acesso à primeira divisão nacional na Série B sem campeão.

"Temos interesse nesse reconhecimento. Fizemos diversos levantamentos históricos e já levamos tudo à CBF. Agora, isso está nas mãos deles, e nós ficamos no aguardo", conta o dirigente, outro que não se importa em receber um troféu "dividido".

"Aceitaríamos dividir, sim, sem problema. Se forem reconhecidos quatro campeões, ótimo. Se quiserem reconhecer só a Inter, ficamos felizes também", brinca.

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No caso do Treze, o reconhecimento do título é "questão de honra", principalmente porque os principais rivais estaduais possuem taças de expressão: o Botafogo-PB foi campeão brasileiro da Série D em 2013, enquanto o Campinense, seu "inimigo" na cidade de Campina Grande, levantou a Copa do Nordeste no mesmo ano.

"É uma questão pessoal também para esta diretoria ter isso oficializado. Nós vamos continuar defendendo nossos interesses até o Treze ser reconhecido, até porque isso altera o ranking nacional. Não sentimos as provocações de Botafogo e Campinense. É um direito deles de falarem o que quiserem. Também não acho que ter tantos times com o mesmo título, que é esse de 1986, diminua o valor dele", explica Petrônio Gadelha, presidente da equipe paraibana, ao Globoesporte.com.

Caio Marcelo/Divulgação
Juninho comemora um dos gols do Criciúma na vitória sobre o Brasil de Pelotas
Criciúma não se interessa pelo título de 86

Vale lembrar, contudo, que o reconhecimento do título da Série B não daria pontos para os times no ranking da CBF, já que a entidade só computa os últimos cinco anos.

Atualmente, o Treze é o 57º, o Central é o 84º e o Criciúma é o 22º, enquanto a Inter de Limeira não aparece entre os 215 primeiros colocados.

Dos quatro "campeões" da 1986, no entanto, o clube de Santa Catarina (que fez a melhor campanha daquele ano entre os quatro "vencedores") não busca reconhecimento da taça e diz não ter interesse em entrar com representação na CBF.

A equipe carvoeira, atualmente na segunda divisão nacional, considera apenas a Copa do Brasil de 1991, a Série B de 2002 e a Série C de 2006 como seus títulos oficiais.

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