Futebol gaúcho tem 'públicos-fantasmas', com 20 pessoas no borderô e 3 mil na arquibancada

Diego Garcia e Rafael Valente, do ESPN.com.br
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Time do Gaúcho durante final com o Guarany, em Passo Fundo
Time do Gaúcho durante final com o Guarany, em Passo Fundo

Mil duzentas e cinquenta e duas pessoas. Esse foi o público total das 29 partidas, somadas, da fase final da Segunda Divisão Gaúcha, o terceiro escalão do futebol do Rio Grande do Sul. Ao menos segundo os borderôs publicados no site da Federação local. Como é possível, então, que relatos e imagens apontem que só o jogo decisivo, entre Gaúcho e Guarany, em Passo Fundo, mostre um público de cerca de 3 mil pessoas?

A ESPN apurou os "públicos-fantasmas" dos times que disputaram em 2016 a fase final do torneio em busca de uma vaga na Divisão de Acesso local, em denúncia que chegou via Jogo Limpo. Os borderôs estão no site da FGF, mas somente 26 das 29 partidas realizadas, apesar de o Estatuto do Torcedor exigir a publicação de todos, estão no endereço eletrônico da entidade.

As duas partidas que valeram o título e o acesso foram disputadas por Guarany e Gaúcho, dois times com apelo popular em suas cidades. As imagens dos dias das decisões mostram os estádios cheios, mas os documentos oficiais apontam apenas 55 pagantes no duelo de ida, em Bagé, com renda de R$ 825, e 20 pagantes no confronto de volta, jogado em Passo Fundo, com renda de R$ 200.

Já os borderôs dos jogos da semifinal Nova Prata x Guarany e Igrejinha x Gaúcho sequer foram tornados públicos no site da FGF, mas testemunhas apontaram bons públicos. O mesmo ocorreu com o duelo entre Bagé x Guarany numa fase anterior.

Ainda conforme a análise dos borderôs disponibilizados pela Federação Gaúcha feita pelo ESPN.com.br, o público total na primeira fase da terceira divisão gaúcha foi de 3.660 pagantes, quando foram realizados 50 jogos - alguns tiveram portões fechados. Três jogos não tiveram os borderôs divulgados no site da FGF.

ESTÁDIO CHEIO NAS DECISÕES

Na decisão, em Passo Fundo, um torcedor chegou a dizer à ESPN que acredita que tinham 3.000 pessoas presentes no duelo entre Gaúcho x Guarany, ou 2.980 a mais do que o número de pagantes do borderô oficial.

O radialista Ari Machado, de Passo Fundo, que estava no estádio naquele dia, confirmou à ESPN que o estádio do Gaúcho estava lotado.

"Eu trabalhei naquele jogo e realmente estava lotado. A torcida do Guarany, que foi visitante, também compareceu em bom número. Que eu me lembre vieram de Bagé pelo menos um ônibus e uma van. A capacidade do estádio, hoje uma arena, é algo em torno de 3.000 pessoas, no máximo. Não sei o número de associados do Gaúcho. De fato o clube tem um esquema associativo com a venda de camisas. Mas o clube é fechado, não sei os números", afirmou o jornalista à reportagem.

Os jogos do Gaúcho no torneio, aliás, mostram números parecidos. Nos duelos contra Apafut, São Borja e Igrejinha, apenas 10 pessoas pagaram para entrar em cada um dos confrontos. Torcedores locais, contudo, apontam bons públicos em todos os duelos da equipe na competição.

Já o Bagé, outro time com apelo popular em sua cidade natal, diz no borderô ter vendido apenas 10 ingressos para o jogo diante do Igrejinha, pela segunda rodada da competição. O Rio Grande, por sua vez, aponta público de 17 pessoas contra o Igrejinha e 18 versus o Guarany.

Advogado especialista em direito desportivo e autor do Estatuto do Torcedor, Carlos Eduardo Ambiel foi questionado pela reportagem se o estatuto prevê que é necessária a divulgação correta do público total presente nas partidas. E respondeu: "Sim. O artigo 5, IV, do Estatuto do Torcedor, obriga a publicação completa do borderô das partida no site da federação ou confederação e o Art. 7 obriga a divulgação da renda e do número de pagantes e não pagantes ainda durante a partida, pelo sistema de som e imagem do estádio".

Sobre as punições previstas a quem não fornecer os dados corretos de públicos e renda nos borderôs, o advogado afirmou: "As punições a quem desrespeita as obrigações de divulgação, conforme Art. 37 do mesmo Estatuto, são: destituição dos dirigentes (presidente é responsável); impedimento de gozar de qualquer benefício fiscal; e suspensão de repasses públicos por seis meses".

Contatada, a Confederação Brasileira de Futebol apontou que "os campeonatos organizados pelas federações são de responsabilidade das mesmas. A CBF não tem ingerência sobre eles".

O presidente da Federação Gaúcha de Futebol, Francisco Novelletto Neto, eximiu a FGF de culpa. "Não cobramos nenhuma comissão das três séries fora dos Clubes grandes e fica sob responsabilidade de cada clube! Borderô que mandam é aceito por nós", declarou o cartola, por meio de mensagem de celular. O vice da entidade, Luciano Hocsman, também foi procurado pela ESPN, mas disse estar "em viagem".

O ESPN.com.br ainda procurou o Ministério Público do Rio Grande do Sul, que afirmou não ter chegada nada sobre os casos até eles. No entanto, o dr. Márcio Bressani, promotor responsável pela Promotoria de Justiça Especializada do Torcedor de Porto Alegre, se colou à disposição para encaminhar as reclamações dos torcedores para o promotor da comarca onde ocorreram os fatos, para, se for o caso, iniciar uma investigação.

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Outra imagem que mostra as arquibancadas da Arena BSBios, em Passo Fundo, lotadas
Outra imagem que mostra as arquibancadas da Arena BSBios, em Passo Fundo, lotadas

PROGRAMA 'PASSAPORTE'

A reportagem procurou os dois clubes finalistas para conversar sobre a controvérsia dos borderôs. O presidente do Gaúcho, Gilmar Rosso, deu sua explicação ao ESPN.com.br.

"Desde que a gente começou a gestão tinha aquela história das penhoras, ações judiciais, não sei se tu sabes a história da gente? Até teve uma reportagem da 'Placar'. O que a gente fez? A gente vendia as camisas e elas serviam de passaporte. Por que eu fazia isso? Porque lá em 2010, 2011, 2012, 2013 e 2014 era tudo penhorado... as rendas do Gaúcho eram penhoradas. Então todo mundo me chamava de louco. O que a gente fez? Eu dizia para eles: 'Comprem porque é a camisa passaporte. Quando inaugurarmos a arena você vai ter a entrada franqueada'. Eu dizia isso. Isso pegou todos esses anos. O Gaúcho teve uma camisa diferente em cada ano. Comprei Adidas, comprei Nike e aí o que fizemos, nessa final, nessa decisão [da terceira divisão], eu tenho mais de 800 sócios e mais as camisas durante esses anos todos. Todos eles não pagavam ingressos em todos os outros jogos também", explicou Gilmar Rosso, presidente do Gaúcho de Passo Fundo.

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Time do Gaúcho durante foto oficial na final com o Guarany, em Passo Fundo
Time do Gaúcho durante foto oficial na final com o Guarany, em Passo Fundo

O mandatário explicou que vendeu as camisas do passaporte a R$ 500. E afirmou que o público das finais foi superior a mil pessoas, apesar de os borderôs constarem apenas 20 pagantes.

"Tivemos mil, mil e quinhentas pessoas. Mas no borderô não posso colocar quem não paga. Ele não pagou, ele é sócio. Por isso não posso colocar no borderô quem não pagou. Essa realidade é a realidade dos clubes do interior gaúcho. A gente tem jogos com três, quatro pessoas. Por isso eu chamo de caravana da miséria. E a briga que a gente tem com o presidente da federação, praticamente eu sou o único que briga com ele, é isso. Você tem de dar contrapartida aos torcedores. Eu vendo mais camisas do que... E não são baratas. Para você ter uma ideia, a camisa da Adidas, que é o modelo top, fizemos ela para a inauguração da arena, é a mais cara, vai ver nas fotos, compramos 1.500 camisas e em duas semanas não tinha mais. Vendemos por R$ 500. É o cara não paga ingressa. Como vou cobrar ingresso desse cara?", acrescentou.

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Borderôs de duas partidas da decisão da Segunda Divisão Gaúcha mostra públicos de 55 e 20 pessoas
Borderôs de duas partidas da decisão da Segunda Divisão Gaúcha mostra públicos de 55 e 20

Tato Moreira, do Guarany de Bagé, foi outro a dar sua versão dos fatos.

"Os números são aqueles mesmo. Se vocês têm imagens com bastante gente é isso mesmo. No começo do ano ninguém nos ligou para saber como a gente estava viabilizando o clube, como está fazendo agora. E conseguimos fazer um time de terceira divisão, que não tinha luz, não tinha água, não tinha condição nenhuma, jogar. O que foi feito no início do ano: vendemos muitos passaportes. Passaportes. O que são? São ações feitas muito no Campeonato Italiano e outras competições na Europa em que você compra todos os ingressos da temporada antecipados. Aqui, por um valor de R$ 50, o torcedor compra todos os ingressos antecipados. Foi exatamente o que Guarany fez para viabilizar o futebol no início do ano", disse Tato Moreira, presidente do clube campeão da terceira divisão gaúcha, à ESPN.

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Em Bagé, Guarany e Gaúcho jogaram no estádio Estrela D'Alva lotada
Em Bagé, Guarany e Gaúcho jogaram no estádio Estrela D'Alva lotada

"Não existe nenhum tipo de falcatrua ou de não auferir o valor certo no borderô. Foi uma ação de necessidade do clube para se viabilizar. No início do ano você vende todo o campeonato. Nossa realidade é falimentar. Nosso ingresso custa R$ 10. Então, por um campeonato que tem 16, 17 jogos, você pode pagar R$ 50. Veja que você paga R$ 50 por 16 jogos e não R$ 160. E esses R$ 50, nossa, ajudam muito a gente. A gente adianta a receita O que aconteceu? Nesses jogos que valem, que interessam, tivemos esse número de pagantes. Os pagantes são as pessoas que compraram fora do programa do passaporte. Nós tivemos quase 400 sócios e cada sócio tem o direito de levar três pessoas. Não estou falando da família. Estou falando de três pessoas que ele convide. Filho e mulher entram juntos com quem apresenta a carteira. Por isso nessas finais aparece muita gente presente, mas no borderô consta só quem teve de comprar ingresso para entrar no jogo", continuou Tato Moreira.

Reprodução ESPN
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