Cuca e Cristóvão foram companheiros; veja quem era o brincalhão e o politizado

Rafael Valente, de São Paulo (SP), para o ESPN.com.br
Acervo Gazeta Press
Grêmio 1988: Mazzaropi, Trasante, Alfinete, Luís Eduardo, Bonamigo e Aírton, em pé: Cuca, Marcos Vinícius, Jorginho, Cristovão e Roberto
O Grêmio em 1988, no Canindé, com Mazzaropi, Trasante, Alfinete, Luís Eduardo, Bonamigo e Aírton, em pé: Cuca, Marcos Vinícius, Jorginho, Cristovão e Roberto

Um só queria saber de política e táticas de futebol. O outro não perdia a chance de fazer uma piada. Assim eram Cristóvão Borges e Cuca há 30 anos, quando jogavam juntos pelo Grêmio. Neste sábado, eles se enfrentam como técnicos de Corinthians e Palmeiras, respectivamente, na Arena de Itaquera, em São Paulo, pelo Brasileiro.

Com perfil diferentes, eles atuaram juntos em um time marcante. Foi no final de 1987 e início de 1988. Cristóvão Borges e Paulo Bonamigo eram os volantes. Cuca, o meia de criação de um time que ficou conhecido como "Grêmio Show".

"O Cristóvão era uma referência para o time. Um jogador especial. Ele carregava a faixa de capitão, era uma liderança positiva. Muito tranquilo e muito equilibrado. O Cuca jogava mais ofensivamente, era um molecão, não tão líder, mas de ótimo comportamento", relembrou ao ESPN.com.br Otacílio Gonçalves, o Chapinha, 76, ex-técnico da dupla no Grêmio.

As diferenças dos treinadores não se resume a posição em campo. Cristóvão Borges já começava a pensar na carreira de técnico, se preocupava com o país...

"Ele discutia muito política. Gostava de se informar sobre o Brasil. Era um período importante para a política nacional [em 1988, foi promulgada a nova constituição, com a abertura política e o fim da ditatura militar]. Era muito bem instruído. Não sei dizer se a influência veio do Corinthians [Cristóvão conviveu com Casagrande e Wladimir, dois dos líderes da Democracia Corintiana] ou se já era algo dele", disse Chapinha.

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Cristóvão no Corinthians, em 86
Cristóvão no Corinthians, em 86

"Ele também gostava de discutir as táticas do jogo, as estratégias. Tinha interesse no trabalho do treinador e chegou a me falar que gostaria de ser técnico. Eu recordo que disse a ele que ele tinha totais condições de ser um bom treinador de futebol. Entendia bem o jogo, é um sujeito muito inteligente", completou o ex-treinador.

Já Cuca não dava mostras de que se transformia em técnico. Nem em 1988 nem em 1992/1993, quando voltou a trabalhar com Chapinha, dessa vez quando atuava pelo Palmeiras.

"Ele era... como posso dizer... muito moleque. Sabe um cara gozador? Esse era o Cuca. Fazia muitas piadas, brincava com os companheiros, mas tinha ótimo comportamento. É uma pessoa formidável. Não era politizado como o Cristóvão e jamais mencionou qualquer coisa sobre se preparar para virar técnico de futebol", afirmou Chapinha.

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SALVADOR E INSPIRADOR DE CRISTÓVÃO

Quando chegou ao Grêmio para substituir Luiz Felipe Scolari, o técnico Otacílio Gonçalves por pouco não perdeu o volante Cristóvão Borges, que seria dispensado.

"É verdade. Ele estava na lista de dispensa do Grêmio. Vinha sendo escalado como atacante, meia-atacante. O Cristóvão era volante. Meu primeiro pedido foi para não dispensá-lo. Já havia trabalhado com ele no Atlético-PR e sabia do potencial dele. E se confirmou. Ele jogando como volante foi um diferencial do time", disse Chapinha.

Mas o ex-treinador não sabia que Cristóvão se inspirou nele para começar a profissão de treinador e no próprio Grêmio Show. Isso porque aquele time ficou marcado por trocas rápidas de passe - dois ou três toques por jogador - e muitos gols.

"Na época não sabia, embora ele sempre tenha conversado comigo sobre isso. Percebi que ele tinha interesse. Nas viagens de ônibus, era um dos raros jogadores que liam livros. Estudava. Perguntava o que a gente achava da política do Brasil. Aquele time também foi uma inspiração. Foi campeão gaúcho e quando jogava no estádio Olímpico era quase sempre três ou quatro gols. Tinha um meio de campo técnico, com Cristóvão, Bonamigo e Cuca, e o Valdo como falso ponteiro. Na frente, Lima e Jorge", relembrou.

"Aquele foi um grupo especial. Lembro que em uma ocasião terminou um jogo, vencemos, e no vestiário disse que no outro dia daria folga geral. Era uma surpresa para eles. Eles ficaram quietos. Fui tomar banho e depois fui para a minha sala. Eis que três ou quatro deles aparecerem e disseram que não queriam folga. 'Queremos ficar todos juntos, bater um papo e fazer um rachão'. A gente se sentia bem no trabalho."

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CRISTÓVÃO X CUCA

Hoje com os ex-pupilos como rivais, Otacílio Gonçalves diz não ter preferência. Elogiou o trabalho dos dois e tirou do corintiano a culpa pelo momento irregular do time.

"Não é culpa dele esse momento irregular. O Corinthians se desfez de jogadores importantes, era mais forte ano passado. Logo depois que o Cristóvão chegou, o Corinthians vendeu quatro jogadores (Bruno Henrique, Elias, André e Luciano) e caiu. Cristóvão está recuperando o time, leva tempo", disse Gonçalves.

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Em 1992, Otacílio Gonçalves conversa com Cuca, no Palmeiras
Em 1992, Otacílio Gonçalves conversa com Cuca, no Palmeiras

"O Cuca está excelente. Fez um trabalho muito bom no Atlético-MG e agora está liderando para o título com o Palmeiras. Eu já fui treinador lá e o clima é difícil. Nos treinamentos têm 500 ou 1.000 conselheiros e torcedores que ficam enchendo. E a pressão de diretoria é fortíssima. Atrapalha o ambiente", completou.

Já quando o assunto é qual lado irá torcer neste sábado, Otacílio Gonçalves prefere ficar em 'cima do muro'. "Pô, os dois são meus amigos. Melhor torcer por empate [risos]".

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