Paratleta foi militar no Iraque e Afeganistão, mas perdeu perna indo trabalhar de bicicleta

Thiago Cara, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
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Patricia Collins é auxiliada para sair da água na prova de triatlo da Paralimpíada
Patricia Collins é auxiliada para sair da água na prova de triatlo da Paralimpíada

Por 25 anos, Patricia Collins foi militar no exército norte-americano. Esteve a serviço em países em guerra, como Iraque e Afeganistão, mas foi quando pedalava a caminho do trabalho, em Washington D.C., nos Estados Unidos, que sofreu o acidente que transformaria sua vida.

"Fui atingida por um carro. Destruiu minha bicicleta e minha perna esquerda", relembra a norte-americana, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br. "Decidi amputar dez meses depois."

Tudo aconteceu em 2006, quando Collins havia acabado de retornar do Iraque. A amputação foi uma decisão pessoal, por mais mobilidade. "Era muito ativa antes, era atleta, e queria ter isso de volta. No exército, havia soldados que decidiram amputar e eram muito saudáveis e ativos."

Triatleta na estreia do esporte nos Jogos Paralímpicos, aos 47 anos, Collins sempre teve ligação forte com o esporte. Se lembra, por exemplo, da exibição perfeita da ginasta romena Nadia Comaneci, em 1976, quando tinha apenas sete anos de idade. Completou sua primeira prova de triatlo em 1989, aos 20, mas demorou a chegar à modalidade adaptada para deficientes.

"Comecei pelo ciclismo (adaptado), que era mais fácil do que correr, mas o campeonato nacional (de triatlo) nos EUA foi na minha cidade e disse: ‘Vamos tentar, ver o que acontece'. Vi o quanto amo o esporte", disse ela, décima colocada da prova da categoria PT4 no Rio de Janeiro.

"É o que você decide fazer com sua deficiência que conta"

Hoje, Collins fala sobre qualquer assunto com um sorriso no rosto, mas nem sempre foi assim. Após o acidente, ela flertou com a depressão e contou com o apoio do exército para se reerguer.

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Patricia Collins, no Mundial de paratriatlo, em 2012
Collins, no Mundial de paratriatlo, em 2012

"Sabe, acredito que há um grande plano para todos nós. Não importa como aconteça, é o que você decide fazer com sua deficiência que conta. Tive muita sorte de ter tantos exemplos ao meu redor, que não deixaram a deficiência pará-los. Foi uma motivação para eu seguir. O exército deu muito apoio, meus trabalhos não mudaram", explicou.

"Iraque, Afeganistão... Foram 25 anos", rememorou a oficial de comunicações entre 1991 e 2015 - se aposentou com a patente de coronel. "Ir a Sarajevo (Bósnia) e ver aquelas ruínas enormes, tocou meu coração; no Afeganistão, quando você sobrevoa o pais, é lindo. Só penso: ‘Deus, que eles tenham paz'. É um lugar incrível que gostaria de voltar para pedalar."

Depois da amputação, Collins até retornou ao Afeganistão, mas novamente a serviço. "Tinha uma posição técnica, então, segui meu trabalho técnico. Soldados de outros países ficavam surpresos quando me viam correndo pela manhã sem minha perna, que os EUA tinham me trazido de volta, mas acho que o exército me escolheu por meu cérebro, não necessariamente minhas pernas."

"Se olhar no meu pulso, está escrito: mãe ama Gabe"

A norte-americana sempre gostou do trabalho que fez a frente do batalhão de operações, mas decidiu se aposentar no último mês de dezembro. Não queria mais deixar o filho, o pequeno Gabriel, de nove anos, que ela adotou da Guatemala - escolheu o país pela facilidade nos trâmites burocráticos.

"Se olhar no meu pulso, está escrito: ‘Mãe ama Gabe'. Ele está sempre no meu coração", disse ela, mostrando uma pulseira. A criança não está, porém, fisicamente no Brasil. "Ele sabe que a mãe está aqui, mas ele está triste, por que está na escola, e eu não deixaria ele faltar", brincou.

Gabriel também influenciou na decisão de Collins de amputar sua perna, já que tudo ocorreu em meio ao processo de adoção. "Precisava acompanhá-lo quando ele corresse para jogar futebol."

Enquanto não retorna a Washington para bater bola para o filho, a atleta traça seus planos para o futuro - ou quase isso. "Quero comprar um churro e andar sozinha, talvez até a praia de Ipanema e pensar no que fazer", encerrou ela, claro, sorrindo...

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