Ex-atleta detona base da canoagem: 'Novo Isaquias em 2020 é milagre'; CBCa rebate

Jean Pereira Santos, de São Paulo (SP), para o ESPN.com.br
Getty
Isaquias se recuperou na prova e garantiu o bronze
Para Lacerda, 'novo Isaquias', que ganhou três medalhas no Rio, 'seria um milagre em Tóquio'

"Não tenha dúvida, ter um novo Isaquias em 2020 é milagre!"

A frase acima é de Jefferson Lacerda, primeiro atleta a representar o Brasil na canoagem em Olimpíadas, no caso, a de 1992, em Barcelona, e que em entrevista ao ESPN.com.br detonou o trabalho feito (para ele, não feito) na base da modalidade no país pela Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), que, por meio de seu presidente, João Tomasini Schwertner, rebateu.

Para Jefferson, baiano de Ubaitaba como Isaquias e com 55 anos, mantidas as ações de hoje na base, Tóquio não verá algum brasileiro surgir e despontar como seu conterrâneo, que levou três medalhas e foi o principal nome verde e amarelo no Rio 2016.      

"Veja, aqui em Ubaitaba, Ubatã e Itacaré, três polos da canoagem, quem sempre fez alguma coisa pela base, pela molecada, foi a gente, as pessoas que sempre remaram e começaram a tocar as associações locais para desenvolver o esporte. Da confederação mesmo, a ajuda é zero, zero, zero", disse o ex-atleta que é oficial de Justiça e vive em Itabuna, também na Bahia.

Ele fala, por exemplo, da Associação Cacaueira de Canoagem (ACC), criada por ele e outros amantes do remo há mais de 30 anos em Ubaitaba e mantida sem apoio algum da CBCa e do governo estadual da Bahia. 

Arquivo Pessoal
Jefferson Lacerda Canoagem
Lacerda é crítico da CBCa em relação à base  

A Prefeitura local, hoje sob o comando de Asclepíades de Almeida Queiroz, o Bêda (PMDB), ajuda em algumas ações. Há 12 anos, por exemplo, cedeu um local que virou a sede da entidade; atualmente, paga dois professores e uma servente que trabalham no local e custeia 50% das duas viagens por ano que alguns atletas da ACC fazem para competições pelo estado. Também ajuda pontualmente em outras viagens.  

Jefferson segue: "É fácil para a confederação pegar um atleta formado, convocá-lo e colocar para competir. Difícil é formar... Ela diz que Isaquias foi descoberto no Programa Segundo Tempo, rapaz, ele já remava com a nossa ajuda bem antes. E este Segundo Tempo, aqui, pelo menos, quebrou por falta de fiscalização da própria confederação."

"Em Ubatã, que é a cidade de Erlon [de Souza, prata com Isaquias no C2 1.000m], a associação tá fechada há mais de cinco anos, teve de fechar porque não tinha apoio nenhum nem equipamentos básicos, como remo e barco. Tivemos que ajeitar para ele e outros de lá treinarem aqui em Ubaitaba", acusa.

Itacaré vive uma realidade diferente graças ao apoio privado. "Lá, está andando graças ao senhor Ricardo Roquete Pinto, que é empresário, e a dona Beatriz, que compraram barcos, deram terrenos e construíram a sede. Lá tem entre 50 e 60 crianças também. E como a Prefeitura ajuda? Cede o Igor [apelido de Josenildo Santos, concursado] como monitor, só isso, mais nada." 

Atleta, professora da escolinha que agora atende 50 crianças e presidente da ACC, Camila Lima atesta as palavras de Jefferson. "Aqui, o pouco de ajuda é da Prefeitura, da confederação é zero, vírgula, zero."  

Isaquias e queixas antigas

Sobre Isaquias, Jefferson lembra que "o primeiro remo dele fui eu quem dei". O ex-atleta, que bancou e continua bancando muita coisa da canoagem do próprio bolso na região, deixa claro também que subir ao pódio não é o que mais conta.

"Se não fosse a canoagem, coisa boa ele [Isaquias] não era... E essa conquista social é maior que qualquer medalha!"

As queixas contra o trabalho de base na canoagem brasileira não são novidades. O próprio Isaquias, em 2013, mesmo após ter sido campeão mundial júnior da categoria C1 500m, aos 19 anos, desabafou e ameaçou se aposentar por falta de apoio. Relatou que seu prêmio pelo feito foi um lanche no McDonald's. Foi preciso uma conversa com Tomasini um tempo depois para resolver a questão.    

No Rio, logo após ganhar sua terceira medalha, ao lado de Erlon, o baiano de 22 anos falou à reportagem sobre o momento atual em relação a apoio. "Este último ano foi muito bom, não posso reclamar de nada da confederação, me apoiraram muito. Mas este apoio tem que ser desde a base, né, não só pra quem já está lá em cima, já tem um nome.

Descrente em políticos, Jefferson também falou sobre o que o sucesso de Isaquias no Rio já provocou na Bahia. "Depois das medalhas, o governador [Rui Costa, do PT] já andou dando entrevista dizendo que quer construir um centro de treinamento aqui na região. Eu não acredito!" 

Divulgação/ASENA
Canoagem ASENA Projeto Remar
Foto mostra parte da sede do Projeto Remar

Também ex-atleta, Givago Ribeiro, que foi comentarista de canoagem dos canais ESPN durante a Olimpíada, tem um discurso mais ameno em relação ao trabalho da CBCa com a base. Para ele, há uma mudança em curso.

"É um investimento tímido na base, sim, em relação ao que poderia ser. Mas mais recentemente, a CBCa tem feito uma espécie de descentralização. Antes, pensava-se só na seleção brasileira. A partir do último ano, começaram a descentralizar, já tem embarcações olímpicas no Rio Grande do Sul, por exemplo. E a gente espera que as embarcaçoes usadas nos Jogos também sejam espalhadas pelo país", disse.

Com sua mãe, Cristina Ribeiro, Givago toca o Projeto Remar, que é desenvolvido via Associação Santamariense de Esportes Náuticos (ASENA), em Santa Maria (RS), e que tem como objetivo revelar novos talentos para a canoagem brasileira.  

CBCa rebate acusações e diz ter projeto já visando Jogos 2024/2028

Diante das acusações, o ESPN.com.br fez seis perguntas à Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa), que as respondeu por meio de seu presidente, João Tomasini Schwertner. A sede da entidade fica em Curitiba (PR).

1 - Qual é o trabalho e qual o investimento anual da CBCa em relação à formação de atletas canoístas, ou seja, na base? Quantos jovens são acompanhados atualmente pela entidade em todo o Brasil?
A CBCa procura auxiliar a base do esporte no Brasil, tanto que o projeto Segundo Tempo que descobriu Isaquias Queiroz e Erlon Souza saiu de uma iniciativa da CBCa e do Ministério do Esporte. No ciclo 2012/2016, os recursos foram direcionados para as Equipes Permanentes em virtude dos Jogos Rio 2016.

Divulgação
Erlon de Souza João Tomasini Schwertner (CBCa) Isaquias Queiroz
Erlon (à esq.), Tomasini (centro) e Isaquias 

Mesmo assim, no inicio de 2016, a CBCa lançou o Programa Canoagem Brasileira 2014 que irá apoiar a formação e o aprimoramento das equipes de base (menor, cadete, júnior e sub-23). Esse programa já distribuiu este ano embarcações para as entidades filiadas que se candidataram através do edital em anexo.

2 - Por que a CBCa não investe ou ao menos ajuda de alguma maneira os polos de canoagem nas cidades baianas de Ubaitaba, Ubatã e Itacaré?
A missão da CBCa é de apoiar as entidades regionais em todas as cidades que são ou podem vir a se tornar um polo do esporte. A CBCa legalmente não pode investir em infraestruturas locais, assim as entidades locais devem construir e manter essas estruturas com apoio de prefeituras, ONG's e Governo do Estado.

Em 2015, foram enviadas para a Federação Baiana [de Canoagem] 12 embarcações, sendo que seis estão em Ubaitaba e seis em Itacaré. A CBCa criou em 2015 o Programa Canoagem Brasileira 2024, sendo que em todo Brasil serão beneficiadas 14 entidades. Tanto Ubaitaba quanto Itacaré não se inscreveram no referido edital e as convidamos a conhecer o Programa através das circulares e anexos.

3- Atletas que hoje são de ponta, como Isaquias Queiroz e Erlon de Souza, recebem que tipo de apoio (financeiro ou de outras formas) da CBCa?
Isaquias Queiroz e Erlon Souza recebem apoio financeiro do COB, da CBCa e de patrocinadores. A Confederação, com apoio do patrocinador oficial e do Comitê Olímpico [Brasileiro, COB], cuida de todos os custos básicos, infraestrutura e calendário internacional (viagens) dos atletas que treinam em Lagoa Santa [MG] e nos demais CTs da canoagem brasileira no país.

Além disso, eles recebem da CBCa uma bolsa-auxílio mensal espelhada no valor na Bolsa Pódio que cada um tem direito.

São-paulino, Isaquias começou a torcer pelo clube por Rogério e sonha em encontrar ídolo; ASSISTA 

4 - O ex-canoísta Jefferson Lacerda diz que, mantidas as condições atuais do trabalho na base, segundo ele nulo por parte da CBCa, "será um milagre termos um novo Isaquias em Tóquio-2020". A CBCa concorda? Se não, se apoia em que tipo de ação/trabalho para afirmar o contrário?
Respeitamos a opinião dos outros, mas não concordamos. Sabemos que temos muito trabalho ainda a realizar, contudo também não chegamos onde estamos hoje por estarmos com os braços cruzados.

Esse resultado no Rio 2016 é consequência do trabalho de muitos anos em prol do desenvolvimento da canoagem brasileira. No entendimento da CBCa, a equipe olímpica de Tóquio 2020 já está entre os atletas que compõe hoje a equipe permanente, pois nosso planejamento desse novo ciclo olímpico é fortalecer ainda mais essa equipe.

O Programa Canoagem Brasileira 2024 foi lançado com o objetivo de revelar canoístas para o ciclo 2024/2028. Aproveitando essa linha de ação, a Confederação está firmando convênio junto ao Ministério do Esporte para o lançamento do Programa Segundo Tempo - Canoagem (PST - Canoagem), que busca ampliar a base da canoagem nas 27 unidades da federação, atendendo aproximadamente seis mil crianças/adolescentes.

5 - Jefferson também diz que a CBCa pega atletas já formados para a seleção e tira proveito disso. Afirma que é o caso de Isaquias e Erlon, por exemplo. A CBCa concorda?
A função da CBCa é dar todo o suporte e estrutura para atletas de alto rendimento e ajudá-los a manter o alto nível de suas performances. Como em outros esportes, o papel de descobrir e formar os atletas para que possam alcançar um nível técnico de seleção brasileira é dos clubes.

Não entendemos que a convocação e concentração dos canoístas com objetivo de crescimento do nível competitivo seja forma de se tirar proveito dos mesmos, mas sim dar as melhores condições para seus desenvolvimentos.

6 - Após o sucesso de Isaquias e Erlon no Rio, o governador da Bahia já falou em construir um centro de treinamento no estado. A CBCa já falou com Rui Costa ou alguém de sua equipe sobre o assunto?
Fomos procurados pelo secretário [de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte], Álvaro Gomes, que realmente manifestou interesse na construção de um centro de treinamento na região de Ubaitaba, Ubatã e arredores.

Comentários

Ex-atleta detona base da canoagem: 'Novo Isaquias em 2020 é milagre'; CBCa rebate

COMENTÁRIOS

Use a Conta do Facebook para adicionar um comentário no Facebook Termos de usoe Politica de Privacidade. Seu nome no Facebook, foto e outras informações que você tornou públicas no Facebook aparecerão em seu cometário e poderão ser usadas em uma das plataformas da ESPN. Saiba Mais.