Como um costume local moldou medalhista inédito do Brasil

Jean Pereira Santos e Emanuel Araújo, do Rio de Janeiro (RJ), para o ESPN.com.br
Em disputa emocionante, Isaquias Queiroz conquista a 1ª medalha olímpica da canoagem brasileira; veja

Em tupi-guarani, Uba significa canoa e Tava, cidade. Cidade das canoas.

Em Ubaitaba, no sul da Bahia e a 379km de Salvador, remar ou andar de canoa é uma necessidade. Depende do que você precisa: ir, vir, ter uma ocupação. Ocupação? Sim, é também o ganha pão de muitos pais de família.

Faz parte do cotidiano. É a cultura, a tradição. Um costume local que, trabalhado, moldou e levou Isaquias Queiroz a se tornar o primeiro medalhista olímpico da história do Brasil na canoagem, prata no C1 1.000m.

Um costume que vem muito antes do atleta nascer, em 3 de janeiro de 1994.

Paulo Rogério Ramos, o Paulinho, hoje com 58 anos e aposentado, já remava no Rio de Contas, que divide a pequena cidade da vizinha Aurelino Leal, entre o fim dos anos 1970 e começo dos 1980. 

Ele, Mário Rui, Diolicio, Nego Lídio, Benedito Cairo, Rosival, Antônio Valter, Humberto Hugo e Jefferson Lacerda, este último primeiro incentivador de Isaquias, campeão mundial e primeiro representante brasileiro na canoagem em Jogos, em Barcelona-1992, são os fundadores da Associação Cacaueira de Canoagem (ACC), que tem mais de 30 anos.

O grupo mantém uma escolinha gratuita de canoagem que hoje recebe 60 crianças, que devem preencher dois requisitos: saber nadar e ir bem na escola. 

"A gente sempre organizou vários campeonatos de canoagem aqui na região. [Remar] é algo do povo daqui mesmo", ao ESPN.com.br Paulinho, que junto com a turma acima participou de várias dessas disputas. Ele também lembrou que foi o segundo a comprar um caiaque nas redondezas: "Foi em 1983, o Humberto Hugo foi o primeiro."

ACC
Ubaitaba Rio de Contas Ponte Isaquias
De Ubaitaba para Aurelino Leal: acima, canoas usadas antes dos anos 1970; abaixo, a ponte que poucos usam 

Falta estrutura para atravessar de uma cidade para a outra? Até há uma ponte.

"Mas ela cruza a BR-101, então, tem que ir de carro. Até dá para ir a pé, mas é perigoso, aí a turma prefere ir de canoa mesmo, entendeu?", disse à reportagem Jackson Cristiano, radialista que mora na cidade há 16 anos, tem um programa diário na "Rádio Ubaitaba FM" e é o responsável pelo site "Ubaitaba Urgente". 

Cristiano conhece Isaquias. 

"Rapaz, pense em um cara humilde, viu. Sempre que está aqui, ele vai na rádio, participa do programa. Fala com todo mundo, anda na rua de boa mesmo, sabe", disse.

Evoluir e acabar com as canoas não parece uma opção em Ubaitaba, por vários motivos.

"Existe um projeto de uma passarela, mas se fizer, o pessoal vai passar fome aqui, tem muita gente que vive disso. São dezenas de canoas. Porque Ubaitaba é menor que Aurelino Leal, mas tem o comércio mais forte, aí, todo dia é muita gente de lá pra cá, daqui pra lá. Tem muitos estudantes de lá que estudam aqui também", explicou Cristiano.

Foi nesta 'capital da canoa' que Isaquias nasceu, foi criado pela dona Dilma e aprendeu a remar. Foi lá que ele começou a ser orientado por Jefferson Lacerda, passou a treinar em alto nível e chegou às mãos do técnico espanhol Jesús Morlán, que já guiara o compatriota David Cal para cinco medalhas (uma de ouro e quatro de prata). Agora, levou a sexta.

Isaquias, que ainda pode levar mais duas medalhas no Rio, é isso: fruto de um costume local.

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